22 de julho de 2014

Conto Assombrado: A Casa Verde (Parte 03 de 05)

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Cláudia fica radiante com a notícia de sua gravidez, e conta a novidade para Sérgio que um "anjo" disse que ela estava grávida. Sérgio fica desconfiado, o que irrita sua mulher, que começa cada vez mais a ouvir o "anjo"...

Cláudia estava eufórica, o homem já não estava mais em sua frente, mas ela ainda sentia seu cheiro forte, e acordou Sérgio em meio a lágrimas e sorrisos:

- Amor, acorda! Anda Sérgio, acorda!

- O que foi? O que aconteceu?

- Você não o viu? Nem escutou nada do que ele disse?

- Ele quem, querida?

- Nossa você tem o sono pesado mesmo... Foi incrível, foi... Foi maravilhoso, eu estava fazendo minha oração, como sempre pedindo a Deus um filho e dessa vez, Amor... Dessa vez Ele me ouviu mesmo, tanto que me enviou uma resposta, mandou um anjo me trazer a resposta, o anjo estava aqui no quarto, do lado da nossa cama, ele falou comigo!

- Querida...Você devia estar sonhando, foi um sonho.

-Não! Não foi um sonho, que droga! Você nunca acredita no que eu falo, sempre vem com explicações, soluções... Eu não estava sonhando. Você quer uma prova? O anjo me disse que meu filho já esta dentro de mim, amanhã cedo vou fazer o exame e te provar que não foi sonho, delírio nem nada do tipo.

Claudia encerrou o assunto e foi se deitar passou a noite em claro, foi impossível dormir com toda aquela mistura de sentimentos, feliz pela gravidez, furiosa com Sérgio, preocupada com o fato do “anjo” ter dito que ela e o filho precisavam de proteção...

A primeira coisa que Claudia fez ao amanhecer foi ir a farmácia, comprou três testes diferentes e voltou ansiosa pra casa, fez todos eles e o resultado foi o mesmo em todos: positivo. Ela desceu as escadas correndo e foi a oficina de Sergio com os testes nas mãos:

- E agora, hein? Eu estou sonhando, imaginando isso aqui também? Veja você mesmo... E então é outro delírio meu?

Diante dos exames Sergio não sabia o que dizer estava confuso e também emocionado, finalmente seria mesmo pai, abraçou a esposa com força:

- Meu Deus, Claudia! Você está mesmo grávida...Estou tão feliz, querida!

- Agora você acredita em mim? Acredita?

- Querida...Esquece esse assunto ta bom? A gente precisa marcar uma consulta pra você, pra ainda hoje.

O médico comprovou a gravidez de Claudia, disse que estava tudo bem com ela e a criança. As semanas iam se passando e apesar de estar tudo bem com a gravidez, Claudia não conseguia esquecer o conselho do “anjo”, o que será que ele quis dizer com aquilo? Ela tinha quer proteger o filho... Mas do que? Ela não tocava no assunto com Sergio, tentou falar com ele sobre isso varias vezes, mas ele não a levava a sério, por fim começou a ficar nervoso pela insistência de Claudia no assunto.

Ela estava agora entrando para o terceiro mês de gestação, mas os enjoos agora eram freqüentes e a incomodavam muito, numa tarde ela sentiu tontura também e se deitou um pouco, ajeitou o travesseiro e se cobriu ate os ombros, ainda estava tonta, sua cabeça doía, os olhos estavam pesados... Logo pegou no sono e em seguida começou a sonhar, no sonho ela estava exatamente como agora, deitada e coberta ate os ombros, ela sentiu o corpo enrijecer, suas pernas ficaram duras, petrificadas, conseguia se mexer só da cintura para cima e estava suando frio...Tentava se levantar e não conseguia, viu então alguma coisa levantar a ponta do lençol com o qual estava coberta e entrando por debaixo dele, viu o volume da coisa se movimentando e deitando sobre ela, sentiu a coisa encostar a cabeça em sua barriga, o toque da coisa era viscoso, gelado...Tremendo e chorando Claudia começou a levantar o lençol, viu então o que era aquela coisa...Era a mulher que ela vira no espelho do banheiro, o rosto transmitia ódio e amargura, os olhos em vermelho vivo, a pele morta e ressecada e exalava um cheiro de carne podre, o grito de pavor ficou entalado na garganta de Claudia, por mais que tentasse não saía voz alguma, parecia ter ficado horas presa nesse pesadelo, depois de muito tempo se contorcendo e tentando gritar, ela sentiu que estava acordando, porem não teve coragem de abrir os olhos, continuou deitada, o coração acelerado e a respiração ofegante, muito devagar ela mexeu as pernas, depois os braços, levou as mãos ate a barriga, começou a se levantar devagar, ficou sentada na cama algum tempo...Só depois que viu que ela conseguia se mover, que não tinha ninguém em cima dela foi que ela começou a reunir coragem de abrir os olhos, ficou de pé, levantou a cabeça e abriu os olhos de uma vez, o rosto da mulher estava tão perto do dela que Claudia pôde sentir seu hálito podre, o nariz da mulher estava a milímetros do seu, a mulher então colocou a mão na barriga de Cláudia, na mesma hora ela sentiu uma dor lancinante, olhou pra baixo e viu a mão da mulher alisando sua barriga, mas sentia como se a mão tivesse atravessado sua carne e se movimentasse dentro dela, sentia a mulher despedaçar seu bebê, dessa vez ela conseguiu gritar, gritou tão forte que fez sua garganta doer ao mesmo tempo sentiu algo quente escorrer em suas pernas, estava perdendo muito sangue, bolhas e mais bolhas, a mulher sorria cheia de fúria e prazer. Sérgio entrou assustado no quarto, quando viu o estado de Claudia chamou a ambulância imediatamente, mas já era tarde. Pouco tempo depois o médico comunicou a perda do bebê, segundo ele foi um aborto espontâneo, Sergio ficou desolado não só pelo bebê, principalmente por Claudia ele sabia como ela reagiria quando soubesse.

Quando ela acordou Sergio estava ao seu lado, segurou sua mão e a beijou.

 - O meu bebê... Ele está bem não está?

 - Querida, por favor...Tenta se acalmar, o médico disse que... Que você teve um aborto espontâneo e...Querida... você... Você perdeu o bebê. Mas ele disse que está tudo bem com você e eu tenho certeza que...

- NÃO! É MENTIRA! EU NÃO PERDI MEU BEBÊ, ELE NÃO MORREU, NÃO MORREU! EU O SINTO AQUI AINDA, ELE ESTÁ DENTRO DE MIM, É MENTIRA SUA!

Claudia ficou tão descontrolada que precisou ser sedada. Quando recebeu alta não disse uma palavra ao médico nem ao marido, foi pra casa em silêncio absoluto, foi direto para o quartinho do bebê, ajeitou algumas coisas e foi se deitar, dormiu o resto do dia e teve sonhos com o filho, era um menino lindo e esperto. Acordou já à noite com um cheiro forte tomando conta do quarto, novamente o homem estava lá de pé ao lado da cama.

- Você! Porque você não veio me ajudar quando aquela mulher estava aqui? Porque Deus deixou isso acontecer comigo?

- Deus não tem nada a ver com isso, Claudia! Quando eu falei com você pela primeira vez, eu disse pra você ficar atenta, não disse? Disse que seu filho precisava de proteção, não foi?

- Era disso que você estava falando? Era daquela mulher que eu tinha que proteger o meu bebê? Eu... Eu não consegui, não protegi meu filho...Ela me fez perder meu bebê, ela o matou.

- Não, não era sobre ela que eu estava falando, ela é apenas uma alma atormentada, não pode fazer mal a ninguém, você só a vê por que você tem um dom muito especial, mas aquilo é só um espírito, você não precisa temer espíritos...

- Então eu tinha que ter protegido meu filho do que? De quem?

-Por que você está usando a palavra “tinha”? Você TEM que proteger seu bebê.

- Mas eu perdi meu filho... O médico me disse que foi um...

- Não Claudia, o médico não te disse nada! Quem te falou que o seu filho morreu, foi seu marido, mas você sabe que não é verdade, não sabe? Você ainda sente seu filho dentro de você.

- É verdade... Eu... Eu sinto sim, eu...

- Pensa Claudia, o seu marido sempre esteve contra você, ele nunca acreditava em nada que você dizia, sempre te acusava de estar inventando, delirando, imaginando coisas... Ele nunca te apoiou, nunca! Ele pensa que você é louca, ele não acreditou quando você disse que estava grávida, ele nunca quis esse filho, ele quer que seu filho morra. É dele, é do seu marido que você precisa proteger o seu filho.

Dessa vez Claudia não falou com Sergio sobre o "anjo", aliás, não falava com ele sobre nada, ficava o tempo todo só observando e lembrando... Era mesmo verdade, Sergio nunca acreditava nela, falava como se ela fosse louca... Ele por outro lado fazia de tudo para se reaproximar da esposa, mas era tudo em vão.
Já se passara quase dois meses desde o aborto e Sergio não pode deixar de notar que a barriga de Claudia estava cada vez maior, ele dizia que queria levá- la ao hospital, fazer uns exames, ver o por que disso está acontecendo...Mas a resposta dela era sempre a mesma:

- Lógico que minha barriga está crescendo, eu estou grávida.

Ele não sabia mais o que fazer, Claudia não parava de acariciar a barriga, falava com o bebê, comprava roupinhas, fraldas... Ela estava olhando para o berço e Sergio ficou observando a esposa, ela cantarolava musiquinhas de ninar e alisava a barriga, depois disse em voz baixa:

- Não fica triste não, filhinho! O papai não te quer, mas eu sim...A mamãe te quer muito e eu não vou deixar o papai te fazer mal, vou te proteger dele.

Sergio desceu as escadas pensativo, pegou o telefone e ligou para o médico de Claudia contou tudo que estava acontecendo detalhadamente, o médico disse que pareciam ser sintomas de gravidez psicológica e também depressão, aconselhou que ele a levasse ao hospital imediatamente. Sergio sabia que ela não aceitaria, já tinha falado com ela varias vezes sobre isso e ela sempre se negou a ir, mas agora ele sabia que era a única coisa que ele poderia fazer para ajudar a esposa, tinha que leva- la ao hospital de qualquer maneira.

- Querida...Eu estava pensando e...Eu acho que ainda falta comprar algumas coisas para o bebê... Nós poderíamos sair agora e fazer umas compras, o que você acha?

- Por que isso agora, Sergio? Você não vive repetindo que nosso filho morreu? Você não diz sempre que eu perdi o bebê e que não estou grávida?

- Eu... Eu estava enganado, querida! Me desculpa, ta? Eu não sei por que estava falando essas coisas, mas agora eu sei que estava errado. Por favor, vem comigo!

-É verdade? Você está falando sério, de verdade?

- Claro, claro que é verdade. Eu estava enganado... Eu quero sair com você agora, vamos comprar um monte de coisas para o bebê.

Claudia se arrumou rapidamente e os dois saíram, mas não demorou muito tempo para ela perceber que tinha alguma coisa errada.

- Pra onde você está me levando, Sergio?

- Fica calma, meu bem! Já estamos chegando, ta bom? Não se preocupa, está tudo bem.

Quando Claudia reconheceu o caminho do hospital, ficou histérica, agressiva:

- Você mentiu pra mim, você mentiu! Você quer matar meu filho, quer matar meu bebê!

Claudia gritava, chorava e o agredia de todas as maneiras que conseguia, o estapeava, arranhava, mordia, puxava seu cabelo...

- Eu não vou deixar você fazer isso, não vou! Eu vou proteger o meu filho, você não vai fazer mal a ele, eu não vou deixar. Me leva pra casa, agora! Me leva pra casa!

Sergio estava apavorado, chorava por ver a esposa naquele estado, sabia que devia levá- la ao hospital, já estava tão perto... Mas ela estava descontrolada, teve medo do que os médicos poderiam fazer se ela chegasse lá daquele jeito, poderiam querer interná- la naqueles lugares de gente louca... Resolveu que o melhor seria levá- la pra casa e quando ela estivesse calma arrumaria outro jeito ou talvez marcaria uma consulta em casa mesmo pra ela.

 - Ta bom, querida! Tudo bem, eu vou te levar pra casa, se acalma, por favor! Nós vamos pra casa.

Quando chegaram Claudia ainda estava transtornada, foi direto para o quarto e trancou a porta, andava de um lado para o outro e murmurava coisas sem sentido, ouviu então uma voz grave e fria dizer o seu nome, ela parou de repente e procurou de onde vinha a voz, não viu nada nem ninguém, mas a voz continuou:

 - Chegou à hora, Claudia... Você tem quer proteger seu filho.

 - É você? É o anjo? Por que eu não estou te vendo agora?

 - Você só precisa me ouvir e ouça com atenção, você precisa escolher, Claudia! Escolher quem vive... Seu marido ou seu filho, mas se seu marido viver, ele matará seu bebê, tirar ele de você, é isso que ele quer...Você disse que protegeria seu filho...Então faça isso. Faça isso agora.

Claudia desceu as escadas devagar, Sergio estava sentado no sofá de cabeça baixa e chorando, ela passou silenciosamente e foi á oficina de Sergio, a primeira coisa que viu foi um machadinho ao lado de algumas madeiras, o segurou com força e voltou a sala escondendo o machadinho nas costas, ficou parada atrás do sofá olhando para o marido, ele se virou, ela ergueu o machadinho, ele se levantou rapidamente, mas já era tarde demais, ela o golpeou com toda força do seu corpo, ele caiu com o machadinho cravado na cabeça. Ela foi ficou olhando o corpo do marido se contorcendo no chão:

- Eu não vou deixar você matar meu bebê, não vai tirar ele de mim, vou proteger meu filho - Repetia sem parar aos gritos. 

Ela se abaixou e começou a puxar o machadinho, precisou de muita força para conseguir retirá- lo, quando conseguiu, ela o golpeou novamente, dessa vez no peito, depois nos braços, pernas...Quando terminou só havia sangue e pedaços do corpo de Sergio espalhados pelo chão, os vizinhos ouviram os gritos histéricos de Claudia e chamaram a policia.

Claudia foi presa em flagrante e depois encaminhada para uma penitenciaria psiquiátrica, já estava presa há quase um ano, sua barriga estava cada vez maior, estava agora sentada no canto de um quarto acolchoado, segurava a barriga com força, oscilava e murmurava baixinho:

- Eu vou proteger meu filho, o anjo disse que eu tenho que proteger meu bebê...

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Conto de terror enviado pela leitora Tamora. Envie o seu também!
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