22 de julho de 2014

Conto Assombrado: Aquela Casa

Ele criou uma fixação pela casa que ficava em frente a seu apartamento e queria muito comprá-la. Só que a família que morava lá não estava disposta a vender...

Foi num dia nublado e chuvoso que eu a vi pela primeira vez, em sua pose imponente e inatingível. Não sei por que aquele momento foi o escolhido para esse encontro, pois eu passara tantas vezes por ali sem notá-la. As gotículas de chuva escorrendo pelo vidro das janelas, a cor de creme das paredes fazia-a parecer mais pálida que o de costume, a ponta triangular do telhado desafiando o céu. A partir desse dia aquela casa nunca mais deixou meus pensamentos.

Eu me imaginava dentro dela, andando pelos corredores, abrindo as portas, tocando as paredes, me unindo a ela e fazendo dela meu lar. Era uma casa muito antiga ao se observar sua estrutura e arquitetura, mas pouco fazia diferença esse fato, eu a queria, mais do que qualquer coisa no mundo eu a queria. Me demorava mais que o normal ao passar de carro por ela, para minha sorte seus muros não eram mais altos que uma criança, na verdade apenas uma cerca me separava da casa dos meus sonhos.

Nos dias em que não ia trabalhar, estacionava o carro do outro lado da rua e ficava a observá-la por horas e horas a fio sem, no entanto, me satisfazer. Morava uma família de três pessoas ali e nenhuma delas parecia digna de possuí-la, o homem da casa chegava tarde do trabalho, a mãe e a filha voltavam de seus respectivos compromissos sempre à tardinha, confesso que faltei ao trabalho só pra aprender mais sobre eles, queria saber que tipo de gente habitava meu lar verdadeiro. Quanto mais eu via, mais indignado ficava, eles não cuidavam dela como deveriam, mal passavam o dia dentro dela lhe fazendo companhia, sempre ocupados demais para arrumarem os trincos enferrujados nas portas, limpar as janelas e cuidar do jardim, era uma abominação. Jurei que quando ela fosse minha jamais a deixaria.

Para minha sorte eu trabalho na prefeitura então tenho acesso às escrituras de todos os imóveis da cidade. Eu descobriria tudo sobre aquela casa. Como eu já sabia, ela era uma residência antiga, o dono original havia morrido há muitos anos e seus herdeiros a venderam, atualmente ela pertencia a Alberto Rodrigues, ele trabalhava como publicitário, o que me pareceu uma profissão suja para a casa, eles a haviam comprado há uns oito meses e com certeza não iam querer vendê-la assim tão cedo, mas eu precisava tentar.

Fui até a casa, bati palmas em frente ao portãozinho e esperei. Meu coração aos pulos por estar tão perto dela. Era um sábado e pelo que eu sabia a família Rodrigues estava em casa. O homem saiu com um olhar intrigado no rosto, o cumprimentei gentilmente, queria passar a melhor impressão que podia. Ele me deixou plantado do lado de fora do portão e nem sequer respondeu o meu desejo de bom dia. Sujeito muito mal educado. Assim mesmo lhe fiz uma proposta irrecusável pela casa, ele me disse que ela não estava à venda, eu insisti e aumentei a oferta, eu não tinha tanto dinheiro, mas arranjaria, não importa o que eu tivesse que fazer. Ainda assim, ele recusou e ficou me encarando como se eu fosse um louco, por fim eu desisti e fui embora com o orgulho ferido e com lágrimas brotando nos olhos.

Quanto mais eu pensava naquela casa mais insuportável ficava morar naquele apartamento ridiculamente inferior em que eu vivia. Eu passava os dias pensando, tentando encontrar alguma maneira de resolver meu problema. Se alguém pudesse ler minha mente certamente pensaria que eu era portador de uma monomania assustadora, mas era só um sonho meu, a minha casa dos sonhos, se eles a vissem poderiam me culpar por desejá-la? Acho que não.

Em uma madrugada insone eu fiz algo de que me envergonho tremendamente, mas eu não pude evitar faze-lo, era mais forte que eu. Levantei-me peguei o carro e dirigi até ela, eu sabia que seus residentes estariam dormindo à uma hora daquela. Pulei o pequeno muro me certificando de que não seria visto por ninguém. Estar daquele lado me fazia sentir uma emoção indescritível. Eu saboreei cada sensação, passei os dedos pela parede úmida e fria, toquei o vidro das janelas, me recostei na porta, estudei cada centímetro da sua estrutura. Quando voltei para minha casa o dia já amanhecia e eu não conseguia para de sorrir, eu queria aquela casa e agora sabia que ela também me queria.

Passei o dia num misto de tristeza e alegria radiante, me sentia feliz por ter estado tão perto dela e deprimido por não poder tê-la para sempre. Minha vida não era completa, meus dias apáticos se eu não a via, não sabia o que fazer e estava a ponto de tirar minha própria vida se não me fosse permitido possuí-la.
Qual foi a minha surpresa ao pegar o jornal numa manhã de terça-feira e ler as manchetes na segunda página, pois na primeira havia a notícia do assassinato de um político importante, e lá estava ela, aquela casa que me assombrava e nublava minha mente me impedindo de pensar em outra coisa. Quase tive uma síncope ao ler a matéria, lágrimas escorriam descontroladas pelo meu rosto recém desperto.

A família Rodrigues havia sido brutalmente assassinada. Algum louco entrara na casa sem arrombar nenhuma porta ou janela, rendera de alguma forma a família, talvez os ameaçando com uma arma. Posicionou o homem no chão com a cabeça entre a parede e o batente da porta e bateu com ela tantas vezes na cabeça de Alberto que ela virou uma massa disforme de carne e ossos esmagados. A mulher tentou se esconder inutilmente no banheiro, mas o louco a encontrou e a afogou na pia. O autor dos crimes só podia ser um doente, porque a menina de apenas dez anos tentara fugir pela janela do quarto, mas foi quase atorada ao meio por ela, quando essa foi fechada sobre seu corpo magro e infantil.

A matéria acompanhava as fotos e depoimento dos vizinhos, que não tinham visto ou ouvido nada de suspeito na noite das mortes, quem quer que tenha cometido tamanha atrocidade foi rápido e silencioso o bastante para passar despercebido.

É desnecessário dizer que o caso comoveu o público e foi explorado à exaustão pela mídia nacional e até mesmo internacional. No entanto a polícia não conseguiu encontrar sequer um suspeito. Ninguém que conhecia a família tinha motivo para matá-los e como nada havia sido levado da casa a hipótese de latrocínio foi dispensada. Era um beco sem saída. Com o passar do tempo a notícia foi esfriando e sendo substituída por novas tragédias.

Nem consigo descrever o quanto tudo foi glorioso para mim, os outros podiam não suspeitar desse fato, mas eu sabia a verdade. Foi ela que os matou. Aquela casa os matou por mim. Depois de tirá-los do caminho eu e ela só precisamos esperar algum tempo para nos unirmos. Não podia sido melhor para mim que uma chacina tivesse acontecido ali, isso reduziu o preço do imóvel significativamente. Agora eu estou com ela.

Eu ando pelos seus corredores, cuido de cada centímetro dela, abro e fecho suas portas, conserto o que está quebrado, limpo o que está sujo. Ela é minha e eu sou dela, agora e para sempre.

FIM!

Conto de terror enviado pela leitora Sabrine PadilhaEnvie o seu também!
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