17 de junho de 2014

Conto Assombrado: O Tempo dado aos Mortais

Ele era um chefe viciado em trabalho e em humilhar os funcionários. Até que um dia tem um encontro com um "cliente"... Excelente conto que faz a gente refletir o que estamos fazendo de nossa vida. Você não vai conseguir parar de ler :)

Todos na sala estavam ansiosos. Ênio, o gerente, apelidado “O psicopata corporativo” por seus funcionários, havia convocado uma reunião minutos depois do horário de entrada. Oito pessoas foram chamadas, incluindo Ramon, que parecia o mais nervoso de todos.

- O que você acha que é ? - perguntou ele a William, o analista de sistemas.

- Não faço ideia - cochichou este - ele estava com aquela cara de que vai ferrar alguém. Acho que não deve ser coisa boa.

- Nunca é coisa boa quando vem dele - murmurou Ramon.

A porta abriu com violência. Ênio entrou bufando como um animal que alcança sua presa após a perseguição.

- Alguém aqui esta descontente com a empresa ? - rosnou ele com tom de voz elevado - porque se alguém estiver, peça demissão.

Todos abaixaram a cabeça trocando olhares discretos. Ênio continuou.

- O horário de entrada é as nove horas. Não nove e cinco, ou nove e dez, ou nove e quinze - disse enquanto fuzilava a todos com o olhar.

- São mesmo um bando de irresponsáveis, um bando de crianças - desferiu um soco na mesa. Mirava cada rosto esperando que alguém se manifestasse. Todos estavam chocados. Limitaram-se apenas a expressões de incredulidade e espanto - Ênio voltou-se para Ramon - você, na minha sala, agora - e saiu batendo a porta.

-  Droga - Ramon se levantou como quem vai para o matadouro.

- Vai ficar tudo bem - confortou William. Ramon não tinha tanta certeza. Ninguém tinha.

***

Ramon entrou na sala de Ênio esperando o pior. Não imaginava o que ele queria. O psicopata estava de costas atrás de sua mesa, olhando pela janela com as mãos na cintura.

- Feche a porta e sente-se - ordenou  - Ramon se sentou acuado. Já havia entrado naquela sala por diversas vezes nos últimos oito meses. Nunca saia dali sorrindo, e cada vez mais pensava em procurar outro emprego. A idade atrapalhava um pouco, mas era necessário, ou enlouqueceria trabalhando para aquele nazista. Tinha dois filhos, e só por causa deles ainda não tinha jogado tudo para ar.

Havia na mesa do crápula dois porta retratos. Um com sua esposa - ou ex-esposa - e seu filho. O outro trazia uma foto dele em uma cama com faixas sobre a cabeça. A mulher estava ao lado sorrindo, mas não o filho. Todos sabiam da historia. Ele tinha sobrevivido a um sério acidente de moto.

Arrebentou-se contra uma arvore. Estava embriagado ao sair de uma festa.

Sobreviveu para infernizar algumas vidas por mais algum tempo.

Ênio sentou-se, deu um longo suspiro e ficou encarando Ramon, tempo suficiente para ser desagradável. Então abriu a boca.

- Você não trabalha depois do horário, é isso mesmo ? - inquiriu ele.

- Bem,  eu posso trabalhar, sim, depois do horário - respondeu Ramon hesitante.

- Então porque ouvi você dizer que não trabalha e acha um absurdo quem trabalha ? - sua voz se elevou. Ramon se lembrava da ocasião em que tinha dito algo parecido, embora não exatamente aquilo. Imaginava que Ênio o tivesse ouvido escondido, como costumava fazer.

- Ênio eu...

-  É senhor Ênio para você.

-  Eu.. hã. O que eu disse é que todos tem trabalhado até depois do horário e nunca tivemos nenhum tipo de reconhecimento. Nem hora extra, nem dias de folga. Todos temos uma vida fora daqui...

- O negocio é o seguinte - Ênio interrompeu. Se levantou quase num pulo. Em segundos seu rosto estava a poucos centímetros do de Ramon - vocês serão recompensados no tempo e da forma que a empresa determinar e...

- Ênio por lei... - Ramon tentou se defender.

- É senhor Ênio para você - berrou. Seus olhos pareciam querer saltar sobre Ramon - você quer
falar sobre lei ? Sobre direitos ? Então vá procurar os seus direitos. Limpe o lixo da sua mesa. Quero você fora daqui até a hora do almoço ou vou chamar a segurança. Acha que pode colocar meus funcionários contra mim ? Acha que conhece as leis ? Por um momento Ramon se imaginou caindo sobre Ênio e o enforcando com a gravata. Então começou a ouvir a voz do canalha cada vez mais distante, como num sonho. Sentia a cabeça pesada, o coração acelerado.

Até um simples pensamento como levantar-se e sair parecia difícil articular. Não se sentia nada bem. Ênio continuava a vomitar ameaças e impropérios. Não conseguia mais ouvi-lo, mas só podia ser isso, pela expressão do rosto e os gestos.  Ramon tentou se levantar.

Parecia ter conseguido. Então a sala começou a girar como um carrossel, alternado entre a porta de saída fechada e a visão de Ênio, que agora lembrava Hitler fazendo um discurso. A luz diminuiu gradualmente até escurecer de vez. Ramon perdeu a consciência.

***

Mais um dando chilique – Ênio pensou quando viu Ramon sendo levado para o ambulatório. Por um momento achou que o infeliz tinha tido uma ataque cardíaco fulminante, mas fora apenas um esgotamento mental, conforme a notificação do medico da empresa. Os curiosos haviam se aglomerado na porta. Alguns ajudaram a carrega-lo. Todos olhavam para Ênio como se este o tivesse matado. Era ridículo, pensava ele. Havia muito estresse na empresa e isso era de certo modo necessário. Ênio era pago para fazer as coisas andarem e chutar traseiros, se necessário. Se alguém não suporta estresse que mude de emprego, ou mesmo de profissão, dizia para si mesmo no silencio de sua sala.

Imaginava o que todos  estavam pensando. O sem sentimento, o carrasco, ou qualquer coisa assim. Dane-se ! Não importava para ele.

O que importava era que ele era responsável por aquele departamento - uma importante engrenagem de uma máquina maior - e ela deveria funcionar de forma primorosa. Se, para isso, os elementos errados tivessem de ser expelidos, que assim fosse. Era a lei natural das coisas e ele desejava cumprir seu papel. Não importava o que os outros pensassem. Eles não entendiam. E, na opinião de Ênio, nem precisavam entender. Ele entendia. Eles precisavam apenas obedecer.

- O Sr. Richard ligou - a voz suave de Lílian, a secretaria, o trouxe de volta à realidade.

Seu perfume encheu a sala. Tinha 37, 38 anos. Loira, um corpo perfeito. Estavam tendo um caso a alguns meses.

-   Seu filho também -  ela continuava a falar, gesticular e sorrir. Não precisava fazer muito para provoca-lo. E ela sabia disso.

- O que ele queria ? - Ênio perguntou.

- Seu filho ?

- Não, meu filho não. Richard - ele se levantou e fechou a porta.

- Ele quer uma reunião... - Ênio a abraçou e a beijou. Ela retribuiu por alguns segundos, então começou a resistir suavemente.

- Alguém pode ver - disse ela entre um beijo e outro - a gente tem bastante tempo hoje a noite. Ênio deu um ultimo e demorado beijo e a deixou. De fato haveria bastante tempo logo após a ultima reunião.

O dia seguiu sem maiores problemas. Ramon ficaria dois dias em casa e Ênio teria que substitui-lo. Pensava na possibilidade de substitui-lo de vez. Decidiu esperar sua volta e manda-lo embora dias depois, quando as coisas esfriassem. Contrataria alguém de fora. Uma mulher, talvez.

Ele desceu até a sala de reunião sozinho no elevador. Arrumou o cabelo no espelho. Alguns fios estavam ficando brancos mas o charme permanecia. 45 anos. Não se sentia com 45 anos.

***

Apos as 19 horas o departamento estava deserto. Um exercito de mesas e monitores de computador. O único som vinha do ar condicionado.

- Esses safados aproveitaram que eu estava em reunião e deram no pé - Ênio resmungou.

Até mesmo Lilian tinha ido embora. O que ela havia dito sobre Richard ? Pelo que ele lembrava, Richard viria até aqui. Ou eu deveria ir até o escritório dele ? Sempre fora organizado. A memoria não era das melhores mas ainda funcionava. Talvez a discussão de manhã o tivesse afetado mais do que ele imaginava. Ligaria para Lilian de sua sala. Aproveitaria para descobrir porque raios ela não o havia esperado. A alguns metros da sala, percebeu que alguém o aguardava. Richard por certo. Não conhecia o cara pessoalmente, mas só podia ser. Trocaram vários e-mails na ultima semana. Precisavam mesmo conversar sobre o projeto dele.

Quando entrou na sala, viu um homem aparentando ter 55, 60 anos. Estava vestido informalmente e parecia bem a vontade enquanto segurava um dos porta retratos de Ênio, aquele que trazia sua mulher e filho.

- Senhor Richard - cumprimentou, um pouco incomodado por vê-lo mexer em suas coisas.

- Boa noite, senhor Ênio - respondeu ele sem tirar os olhos do retrato.

- É um prazer conhece-lo pessoalmente. Acho que vamos precisar rever os prazos do seu projeto. Só assim teremos condições de atender as alterações que senhor solicitou - Ênio apertou a mão do homem enquanto forçava o mesmo sorriso enlatado que usava em reuniões com superiores e em confraternizações da empresa. Deu a volta na mesa e se sentou  - pensei que eu iria até o senhor e não pensei que fosse hoje.

-  Não, Ênio. Posso chama-lo apenas de Ênio, não posso ? - ele recolocou a retrato onde estava e acomodou-se na cadeira.

- Como quiser.

- Na verdade eu viria até você. Sou sempre eu quem vai até as pessoas na hora certa. E, sim, o dia é hoje mesmo - Ênio estranhou a resposta. Ele estava sendo cínico ? porque ?, pensou.

- Você tem uma bela família - comentou Richard  - parece um homem ocupado. Imagino que não os veja com frequência.

Ênio não estava interessado em falar sobre a família. Na verdade, o quanto antes pudesse despachar aquele homem seria melhor. Ainda queria se encontrar com Lilian. Porém, tinha mesmo que resolver algumas coisas com aquele distinto senhor e não faria mal se conversassem um pouco.

- Essa é minha ex-mulher e esse é meu filho. 

- Se separou a muito tempo? - Perguntou ele.

- Faz um ano. No começo foi um pouco difícil, mas agora esta tudo bem.

- Encontrou outra pessoa - arriscou Richard, sorrindo. Aquele interesse na vida pessoal começava a incomodar Ênio.

- Na verdade... sim - Respondeu, tentando parecer natural.

- Deixe-me adivinhar: é a secretaria não é ? Ela é muito bonita - o homem exibia um sorriso malicioso.

- Bem eu... na verdade saímos algumas vezes apenas e... um momento por favor - Ênio sacou o celular do bolso e fingiu atender a uma chamada.

- Sim, já estou subido... acho que 30 minutos... Eu sei, eu sei. Pode deixar. Guardou o celular. Parecia que Richard tinha acreditado

- Senhor Richard, me desculpe. Não tinha certeza se o senhor viria hoje. Tenho uma reunião com
Um dos diretores em meia hora.  Podemos marcar um almoço qualquer dia desses para conversarmos mais - Richard apenas balançava a cabeça, sempre com o mesmo risinho nos lábios.

- Que tal definirmos um novo prazo para o seu projeto e...

- Claro... o projeto - interrompeu Richard em um tom que beirava a zombaria, parecia mesmo querer irritar Ênio, e estava conseguindo - o trabalho em primeiro lugar, não é mesmo? E que se dane o resto !

Ele disse isso mesmo ? Enio pensava que não tinha ouvido direito. Se perguntava se aquele homem teria algum problema mental leve, ou algo parecido. Quem sabe apenas tivesse tido um dia ruim e não estava sabendo lidar com isso. De qualquer forma, Ênio decidira ser o mais profissional possível. Enquanto pensava como responde-lo, Richard continuou

- Antes de definirmos um novo prazo, posso lhe fazer uma pergunta?

- Fique a vontade - Ênio tentava relaxar.

- A secretaria.. - Richard se inclinou com se esperasse ouvir um segredo - ela é boa de cama?

Ênio sentiu um arrepio subir da barriga até o topo da cabeça. Que raio de conversa era aquela ? Com quem esse imbecil pensa que esta falando ?

- Senhor Richard, acho melhor conversarmos em outra...

- Porque continua a me chamar de Richard ? - o rosto do homem assumiu uma expressão sombria.
Ênio o encarou por alguns segundos.

-  Quem é o senhor, então?

O homem se levantou devagar. Ficou parado encarando com expressão séria. Ênio sentia o ar pesado. Algo estranho estava acontecendo. Cada segundo passava lento, frio, solene como o sino de um campanário anunciando a hora em que algo deveria acontecer.

-  Eu sou o fim do tempo que os homens tem nessa terra... - respondeu o homem com a voz mais grave do que a normal. Seu rosto começou a se transformar, passando de uma versão bizarra daquela que Ênio tinha encontrado em sua sala até se tornar algo hediondo. Algo que nenhum ser humano deveria ver.  - Eu sou o arauto para o outro lado...

Suas roupas haviam dado lugar a uma longa túnica negra, a principio desproporcional ao corpo, mas que depois começou a se ajustar a medida que a criatura crescia.

 - O meu nome não importa. O que importa é o que vim fazer.

Ênio estava petrificado enquanto esperava acordar daquele pesadelo grotesco.

O ser se aproximou e tocou seu ombro. Ênio caiu sobre os joelhos. Não conseguia mover-se Não mal tinha forcas respirar.

- Por favor - sua voz era débil. Quase inaudível

- Se tem algo a dizer, sou todo ouvidos - disse a criatura com voz gutural.

- Por Favor - suplicou Ênio mais uma vez.

- Talvez você ache que não deveria ser agora. A grande maioria acha. Mas isso porque muitos são como você - ele olhava em volta da sala enquanto falava - O seu mundo se resume no que acontece entre essas paredes. Negligenciou aqueles que o amavam...

-  Por favor.. por Deus - Ênio continuava implorando.

- Por que fala Nele agora? Você sempre O desprezou. Mesmo quando Ele lhe deu uma segunda chance, você atribuiu tudo ao acaso. Eu só vou onde Ele manda.  Não posso ir além. Estou aqui porque essa é a vontade Dele.

Grossas correntes saíram por debaixo da túnica do ser. Serpentearam pelo ar até se enrolarem firmes ao pescoço de Ênio.

- Você já teve todo o tempo que precisava. Toda chance que merecia ter. Agora e hora de ir.

Ele apontou para a parede ao lado da mesa. Um ponto de luz apareceu e cresceu até tomar toda a extensão da parede, revelando uma estrada tortuosa e escura.

 - As pessoas que te amam, não são muitas devo dizer, mas elas o amam. São aquelas que você desprezou, vão chorar por você. Vão se perguntar onde você esta. Se é um bom lugar.

Ele se inclinou até seu rosto ficar a poucos centímetro do de Ênio.

- Considerando a vida que você levou, acho que sabe para onde esta indo.

 Ele voltou-se para o portal e passou por ele arrastando Ênio atrás de si.

***

Na manhã seguinte, Ênio seria encontrado pelo pessoal da limpeza. A noticia se espalharia depressa: ataque do coração. Sua secretaria ficaria inconsolável por alguns dias. Pelo menos até a entrada do novo gerente, que se tornaria o novo amor da vida dela. No departamento, a vida continuaria como sempre. A grande máquina da rotina diária seguira funcionando, agora com alguns funcionários respirando aliviados.

O filho de Ênio, o mesmo que esperou o pai chegar por incontáveis noites até ser vencido pelo sono, percebeu algo enquanto olhava a lápide de seu velho. Mesmo com pouca idade, entendeu que aquele traço separando as duas datas, o nascimento e a morte de seu pai, representavam toda a vida dele. Breve e rápida.

Decidiu naquele momento que viveria sua vida de modo diferente. Daria importância ao que realmente importava, se lembraria que chegara a esse mundo sem nada e iria embora dele sem nada levar.

Acima de tudo, teria cuidado com o tratamento dado a seus semelhantes e o legado que deixaria para o mundo. Usaria com sabedoria o tempo dado aos mortais.

“E no mesmo instante, feriu-o o anjo do Senhor, porque não deu glória a Deus, e comido de bichos, expirou” Atos 12:23.

Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” Lucas 12:20

FIM!

Conto de terror enviado por Paulo. Envie o seu também!
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