15 de abril de 2014

Conto Assombrado: O Espelho


Curtindo a vida livre em seu novo apartamento, garota começa a experimentar fenômenos estranhos que culminam com um acontecimento no grande espelho que existia no seu quarto...

Josie ainda sentia a incrível sensação de independência. Após dois meses morando sozinha, acostumou-se a chegar em casa e encontrar apenas o ninguém a sua espera.

Era solitário, apesar disso, amava seu novo lar, mesmo com todos aqueles estranhos ruídos.

O apartamento velho passou a possuir um aspecto habitável depois da reforma. Contudo, Josie não teve orçamento para reforçar a antiga estrutura do local, muito menos para uma adequada dedetização. Com certeza, os barulhos provinham da falta de reparos, apenas não conseguia entender os motivos dos estalos vindos de seu maravilhoso e novo espelho que cobria, quase por completo, a parede de seu quarto.

Josie, linda como qualquer outra mulher de 21 anos, gostava de apreciar o reflexo de seu corpo escultural e a beleza de sua face.

Na noite de estreia de seu terceiro mês morando sozinha, a jovem acordou repentinamente devido aos sons em seu quarto.

O barulho, vindo do teto, podia ser comparado ao rastejar de uma criança obesa, locomovia-se lentamente, descendo, de forma desordenada, a parede de Josie.

A garota paralisou-se com o novo som. O suor quente devido às noites de verão tornou-se frio a ponto de congelar sua espinha. Enquanto tentava recuperar os movimentos de seus braços e pernas, o rastejar parou tão de repente quanto começou.

Bichos. Bichos escrotos que vivem na escuridão.

Preciso dedetizar este lugar.

Preferiu pensar em baratas gigantes, ratos monstruosos e outros bichos, cujos nomes não faziam jus a sua imaginação, a pensar que outra coisa poderia estar dentro de suas paredes, morando por ali, andando pelo quarto, observando-a dormir.

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Mais um mês se passou e Josie acostumou-se com o leve rastejar que, por algum inusitado motivo, sempre iniciava às 3h45 e terminava às 03h50 da madrugada.

Naquele mesmo mês a dedetização foi feita, assim como mais uma reforma, que consertou alguns vazamentos e reforçou pilares roídos e arranhados.

Nem o homem, nem seu sócio da consertos e reparações, conseguiram explicar as marcas de garras e vestígios de sangue no que restou daqueles podres pilares. O estranhamento gerou medo nos parceiros pedreiros que logo quiseram terminar seu trabalho.

Eles insistiram nas garras, mas Josie, no fundo de sua alma, sabia que aquelas marcas eram feitas por mãos. Delicadas mãos de uma mulher com unhas cumpridas, grossas e sujas. Uma mulher com quem sonhava desde o primeiro dia da mudança.

Alguém de quem se deveria temer. Um vulto sem rosto.

Os homens, antes de correrem para fora do lugar, avisaram a contratante que ela encontraria vários cadáveres de insetos por todo o apartamento durante uma ou duas semanas, devido a dedetização.

Mais um mês se passou sem que Josie encontrasse qualquer vestígio de rato ou outro bicho morto em seu lar.

Talvez tenham fugido pelas janelas, pensou. O que ela sabia é que os reparos tinham dado resultado, os ruídos haviam cessado.

Pena que apenas por um breve período de tempo.

***

Em mais uma noite de calor e suor, o rastejar voltou, às 03h45 da madrugada.

Acordou novamente assustada.

Aos poucos, percebeu que o som estava diferente e o mais bizarro foi ele parar um minuto antes das 03h50.
Josie esperou até o horário habitual e como nada aconteceu, aprontou-se para voltar ao seu insistente pesadelo com àquela mulher, mas foi surpreendida novamente.

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Às 03h52 o rastejar asqueroso passou por uma metamorfose, era como se aquela pequena criança obesa, tivesse crescido e aprendido a andar, ou melhor... aprendido a correr.

O barulho ensurdecedor tornou-se tão forte e agudo que a cada passada, os móveis e a cama em que Josie estava deitada tremiam. O som iniciou-se no teto, acima da cabeça da garota e passou, como um lince atrás de sua presa, até a outra extremidade, desceu pela parede do espelho e se pode não apenas ouvir, mas sentir, dois pesados e desumanos socos lançados contra o grandioso objeto.

Alguém quer entrar.

Josie levantou aterrorizada a ponto de enxergar seu reflexo trincado.

Escutou uma voz doce e suave que a chamou de volta para seu pesadelo favorito.

Desmaiou no chão, em frente ao vaidoso e eivado espelho.

***

Grossas e troncudas árvores nuas balançavam com a ventania.

Sentia frio.

Ao fundo, avistou, em meio a macabra e escura paisagem, uma casa.

Precisava de abrigo. Precisava correr para longe da calma e paciente voz que ecoava por todos os cantos daquele tenebroso lugar.

Quanto mais se aproximava, menos podia enxergar as curvas da casa. Parecia que Josie havia adquirido uma forte hipermetropia em menos de 5 minutos.

Entretanto, a verdade era outra, a morada era disforme e amolecida.

Tinha vida.

Dançava a balada dos ventos e gritava como se estivesse em êxtase, queria sua nova inquilina. Queria Josie.
No meio daquele ciclo de terror, a cada passo que a garota dava para trás, a casa expelia sangue pelas portas e janelas entreabertas, manchando de vermelho a bela camisola de seda branca que Josie vestia.
Volte Josie, volte para mim.

Gritava sangue, chorava sangue, dançava sangue.

As vozes doce da mulher e estridente da casa misturaram-se até ensurdecerem a pobre sonhadora ensanguentada.

A garota correu o mais rápido que pôde e se deparou com a dona daquele lugar.

A mulher vestida de viúva, ao contrário de Josie, trazia vermelho apenas em suas longas, pontudas e firmes unhas. Em um único golpe, agarrou os longos e negros cabelos da menina assustada e a puxou com força, por entre as colinas.

Sangue escorria pelas têmporas da vítima, aos poucos, Josie era escalpada e a dor tornava-se cada vez mais intensa, mas não o suficiente para fazê-la desmaiar e voltar à realidade.

A mulher de preto sabia disso, não queria que sua menina despertasse. Ria descontraidamente, alheia a dor que causava na pobre.

Chegou aonde queria chegar e com uma força descomunal puxou para cima os doídos e pouco cabelos que ainda restavam presos à Josie, até que ela ficasse completamente em pé.

Colocou-a em frente a um grande e flutuante espelho, fazendo-a olhar a si mesma numa mistura de branco e vermelho. Próximo às têmporas, seus fios de cabelo separavam-se da pele.

A visão era terrível, Josie perdera toda sua beleza facial. Só havia feiura, proveniente do medo e do desespero.

"Olha para você querida. Em breve essa será seu novo lar. Em breve, essa será você."

Ao proferir a última frase, a mulher despiu-se de seu véu e mostrou a face monstruosa de uma velha, com dentes pontudos e rosto cortado. Seu lado esquerdo era ainda mais disforme, a pele queimada fervia em bolhas de pus e sangue. Seu sorriso, repuxado para cima, fora feito por meio de um corte permanente, que também expelia uma mistura de sangue esverdeado.

A mulher não possuía o olho esquerdo. Tudo o que se podia enxergar, eram vermes saindo daquele fétido e escuro buraco.

A casa quer brincar com você, Josie.

E eu quero sair.

A inocente garota gritou de desespero, queria ir embora daquele lugar o mais rápido possível.

Sem tempo para pensar, Josie acreditou que se sentisse uma dor forte e aguda, seria capaz de acordar daquele eterno pesadelo.

Enquanto a viúva ria insanamente, Josie segurou firme uma de suas mãos e fincou, contra sua própria barriga, a pontuda unha da mulher.

Mais sangue encharcou a camisola da garota e uma dor lancinante acometeu a região do abdômen, aos poucos seus olhos começaram a fechar.

Estava morrendo em seu sonho, para acordar na vida real.

Garota estúpida! Volte para cá! Garota estúpida!

Eu vou comer você viva! Estúpida!

Finalmente, despertou.

***

Meses e mais meses se passaram, Josie não dormia, Josie não comia.

A privação de sono foi sua ruína.

Tornou-se louca, proferia histórias malucas sobre seu espelho no trabalho e com os amigos. Logo perdeu o emprego e as pessoas passaram a evitá-la.

A falta de dinheiro tornou nula a possibilidade de Josie fugir daquele terrível lugar chamado lar.

Passou a gastar suas economias em café, energético e doses de adrenalina, presente em certos tipos de drogas.

Quanto mais debilitada ficava, mais fortes, medonhas e insistentes eram as batidas, das 03h45 às 03h50 da madrugada.

O espelho rachava a cada dia mais.

Para pagar as drogas, Josie vendeu praticamente todos os móveis. Entretanto, por algum motivo, não conseguia livrar-se da cama, muito menos movê-la de lugar.

Passou a dormir no chão da sala e mesmo assim era capaz de ouvir os sons de odiosos socos contra o espelho, que também jamais conseguiu vender, devido às rachaduras.

Com a falta de dinheiro denegriu-se até o ponto de vender seu anoréxico corpo. O problema é que ninguém queria fazer no chão da sala, tinha de entrar no quarto nas horas de humilhante trabalho.

Porém, nunca marcava horário no período das 03h45 às 03h50 da madrugada.

***

Um ano se passou e nada mudou, a não ser a aparência de Josie.

Ficava cada vez mais doente; cada vez mais fraca, de corpo e alma.

Em seu aniversário de 22 anos, a pobre garota fez sexo com cinco homens diferentes e conseguiu dinheiro suficiente para que pudesse ficar drogada por uns três dias.

Só que dessa vez, ela quis comprar comida de verdade e um bolo de aniversário no lugar das drogas. Afinal, só se faz 22 anos uma vez na vida.

Fez um belo jantar para si mesma, com direito a vinho, purê de batatas, risoto e um grande pedaço de carne; o bolo era feito de nozes, com cobertura de caramelo.

Comprou até velas para soprar na hora de seu nascimento.

Por um breve momento, acreditou que as coisas poderiam melhorar e desejou ter seus pais por perto, pena que haviam desaparecidos há muitos anos, seus corpos, jamais encontrados.

Josie, ainda criança, havia sido a única sobrevivente.

Até então.

***

Após o farto jantar, a menina deitou-se no chão para descansar antes da meia noite, horário em que cortaria seu bolo.

O cansaço tomou conta de seu corpo e a comemoração final passou despercebida.

Às 03h45 da madrugada, Josie acordou desorientada, mas pôde perceber que estava sendo arrastada por algo ou alguém.

De repente escutou uma doce e familiar voz.

Parabéns a você...

Nesta data querida...

Muitas felicidades, Josie...

Muitos anos de...

Josie olhou para cima, e enxergou a figura da viúva rindo descontroladamente, sem proferir a última frase da tão conhecida música de aniversário.

Gritou, mas ninguém veio salvá-la.

Não tinha forças para lutar contra àquilo.

Finalmente, sucumbiu à condição de vítima.

Como presente para você guardei o melhor garfo e a melhor faca de sua nova casa.

Está na hora, de me deixar viver a vida que você não foi capaz de lutar. Nunca foi tão fácil comer a alma de alguém.

Arrastada até a cama, Josie pôde ver a ruptura que havia em seu espelho, suficientemente grande para que uma pessoa atravessasse-o com facilidade. La dentro, podia enxergar a casa aclamando seu nome, ouvir o vento lamuriento e sentir o cheiro daquele mar de sangue.

A mulher colocou-a abruptamente na cama, e, com partes resgadas de seu velho vestido, amarrou a jovem.
Tirou do bolso o garfo e a faca de prata, começou, então, a deliciosa tarefa de comer Josie, iniciou o banquete pelo pé, para que a garota sentisse e visse ser comida viva por completo.

O gosto era tão bom que a viúva logo largou os talheres para passar a morder a carne como um animal faminto e feroz.

Os gritos eram cada vez mais fortes, mas ninguém socorreu a garota, era como se ela não existisse mais.
Josie não desmaiou em nenhum momento daquele jantar.

***

Saciada, a viúva deixou o quarto para que a menina agonizasse de dor e sentisse uma mera e falsa esperança de que tudo não passara de mais um pesadelo.

Parabéns a você, meu amor.

Após alguns minutos a mulher voltou com o bolo que Josie comprara, as velas estavam acesas. Colocou o bolo em cima do corpo sem pele da aniversariante.

Retirou, uma por vez, as 22 velinhas de aniversário de cima do bolo e pingou a cera no corpo ensanguentado da garota sem epiderme, até que parassem de pé.

A dor fora insuportável.

Um lindo bolo humano.

Você deveria desejar feliz aniversário para mim também, garota. Afinal, só se faz 22 uma vez na vida.

Josie finalmente compreendera.

A viúva riu novamente e soprou todas as velas.

Seu desejo foi proferido em voz alta. Queria ser Josie para todo o sempre.

Após isso, libertou das amarras o que restou daquele pobre corpo e a empurrou para dentro do espelho como oferenda.

A troca estava completa.

Sangue novo e vida nova haviam sido oferecidos ao espelho e Anne, agora, Josie, ganhou, novamente, a oportunidade de viver o que lhe fora retirado há tanto tempo.

A grande rachadura foi se fechando tão rapidamente que, em segundos, emudeceu os gritos da oferenda.
Todo o ritual, que pareceu uma eternidade, durou apenas cinco minutos. Às 03h50 da madrugada, mesmo horário em havia sido pega pelo espelho, Anne apreciava seu novo corpo. Nunca enxergou tão bem quanto agora, depois de 70 anos presa em outro mundo, voltou a ter dois olhos.

Amanhã, pela manhã, o espelho já consertado seria vendido e a antiga Josie poderia tentar escapar daquele mundo, sucumbindo as maldades de seu novo eu.

Poderia tentar escapar daquele mundo de dor e agonia formado de reflexos daqueles que jamais queremos enxergar.

FIM!

Conto assombrado enviado pela assombrada leitora Larissa M. Arten. Envie o seu também!

Cena do filme "Constantine" onde o demônio Mamon tenta passar por um espelho de seu mundo para o nosso...
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