8 de abril de 2014

Conto Assombrado: A Descida


Um anúncio publicado no jornal a respeito de uma descida nas profundezas do oceano chama a atenção de duas garotas, que decidem conferir. O que elas vão encontrar lá?

As gotas de chuva fazem barulho na janela de vidro do quarto de Vera. Ela deseja, por um segundo, estar na casa de seus pais, na Califórnia, onde tudo seria diferente, ela pensa.

Não há muito para se fazer em Ubatuba com esse tempo. Na verdade, Vera não gosta de fazer nada que se possa fazer na sua atual cidade.

Ela nasceu nos Estados Unidos, mais precisamente na Califórnia, e veio para o Brasil trabalhar em um projeto social com o qual ela não havia se identificado, mas ficaria por aqui até o final do contrato. Os dias de chuva transformavam a agonia adormecida em um gigante desespero.

Para passar as horas daquela quarta-feira de folga e chuvosa, Vera resolveu sair de casa com seu guarda-chuva amarelo que ela tanto adorava. Era um prazer caminhar na chuva com ele. Entrou no carro e ligou para uma amiga, Larissa, que sempre tinha algo em mente para fazer. Resolveram se encontrar num café de frente para o mar.

Chegando ao lugar, Vera desceu do carro e logo avistou o cabelo vermelho de Larissa se perdendo em meio a fumaça que saía de seu cigarro:

- Oi! – disse Vera se sentando na cadeira à frente de Larissa.

- Você chegou rápido! Esqueço-me que você mora perto daqui – disse Larissa enquanto dava uma longa tragada no cigarro.

- Veja – continuou - eu trouxe esse jornal onde encontrei um anúncio de algo que acho que lhe interessa pelo menos me interessou. O anúncio é minúsculo e eu o achei por acaso, e quando fui procurar da última vez quase não o achei mais, por isso circulei com tinha vermelha, olhe – e entregou o jornal a Vera. O anúncio dizia:

Procurando por algo diferente para fazer? Oferecemos uma descida fantástica a um dos lugares mais profundos do nosso oceano. Nos procure na Livraria Cthulhu.

- Que livraria é essa? – perguntou Vera enquanto chamava a garçonete.

- Eu não sei, nunca ouvi falar – disse Larissa – mas esse nome tem algo a ver com aquele escritor, o H.P. Lovecraft, não?

- Um café com conhaque e um pão de queijo – pediu Vera.

- E que tipo de descida as profundezas é essa? Nunca ouvi falar disso no Projeto, e a maioria das pessoas são oceanógrafos, mergulhadores e afins, que estranho.

- Eu também achei, mas você não acha que deve ser muito emocionante?

- Acho. Assim que terminar meu café vamos pra lá.

Antes de saírem, Larissa se dirigiu ao caixa do café, e com o jornal na mão, perguntou ao atendente se ele conhecia aquela livraria:

- Moro aqui há anos e nunca ouvi falar. Talvez na livraria vizinha daqui eles saibam te responder.

Elas pagaram o que deviam e foram até a tal livraria. Era uma dessas livrarias famosas, sendo assim elas deduziram que lá eles também não saberiam informar, mas resolveram perguntar para uma moça que estava perambulando por lá. Assim que as viu, a moça perguntou:

- Posso ajudar?

- Sim – disse Larissa pegando o jornal de dentro da bolsa. Você sabe onde fica essa livraria? – e mostrou o nome no jornal.

Enquanto a moça olhava o jornal com cara de incógnita, um homem se aproximou delas e disse:

- Posso dar uma olhada?

Larissa mostrou-lhe o nome, e após alguns segundos de silêncio o homem disse:

- Conheço sim. Vou lhes desenhar um mapa.

Larissa olhou para Vera e elas riram discretamente.

O homem era bem baixo, com mais ou menos 1,50 metros de altura, estava todo vestido de preto, muito elegante, usando inclusive uma cartola. Aparentava ter uns sessenta anos e seu rosto fez Vera lembrar-se do seu pai:

- Aqui está. Se seguirem o mapa não tem erro. Vocês devem estar pensando que seria mais fácil eu lhes dizer o nome da rua e do bairro, acontece que essa rua não tem nome, e fica quase fora da cidade. É uma livraria muito antiga, com livros raros.

- O nome é alguma referência ao H.P. Lovecraft? – perguntou Larissa.

O homem riu:

- É sim minha cara.

Quando Larissa foi fazer mais uma pergunta, o homem despediu-se e saiu da livraria.

As duas entraram no carro, e Vera começou a examinar o estranho mapa. Realmente não havia nenhum nome de rua, somente o desenho do trajeto partindo de onde elas estavam. Ligou o carro e pediu a Larissa que desse as instruções.

Estavam quase saindo da cidade, quando Vera, seguindo as instruções do mapa, entrou em uma rua que não parecia ser uma rua, de tão estreita e era sem saída. Olharam no mapa e viram que a livraria era ali, mas não havia nenhuma placa, somente umas cinco casas que pareciam abandonadas. Foi quando Larissa avistou uma placa na porta de uma das casas, e dizia: Livraria Cthulhu.

- É aqui! Vamos.

Abriram o portão, e bateram na porta.

Uma garota da idade delas mais ou menos abriu a porta e disse-lhes para entrarem:

- Você trabalha aqui? – perguntou Vera.

- Ah não, a mulher que toma conta daqui saiu um pouco, não sei onde foi. Vocês vieram por causa da descida?

- Descida? – perguntou Vera olhando para Larissa.

- Ah sim! Viemos por causa do anúncio. É aqui mesmo?

- É sim.

A menina virou- se e sentou-se em uma cadeira com um livro nas mãos, e as duas entraram.

O lugar era pequeno e estava lotado de livros. As quatro paredes possuíam prateleiras empanturradas de livros que pareciam velhos, o lugar parecia mais um sebo. Havia algumas mesas com cadeiras para as pessoas lerem, e Vera sentou-se em uma para folhear um livro que estava em cima da mesa. Logo ela notou que os livros além de velhos e amarelados, eram todos de terror. Um deles chamou sua atenção, pois tinha uns demônios cor-de-rosa desenhados na capa, e o nome era: A casa dos demônios.

- Venha ver – disse Larissa – toda a coleção do Lovecraft.

Ouviram então alguém bater na porta, e a menina que abriu a porta para elas deu um salto da cadeira e foi abri-la. Era outra menina, perguntando também sobre a tal descida. Ela entrou e disse à Vera e Larissa:

- Vocês também vão descer?

- Pretendemos – respondeu Vera.

- Uma amiga minha me disse, que algumas pessoas descem e não voltam mais.

- Como assim? – perguntou Larissa.

- Pois é elas simplesmente somem.

As duas riram e continuaram a caminhar pela minúscula sala com cheiro de mofo. O que a menina havia dito sobre as pessoas não voltarem da descida, estava martelando na cabeça de Vera. E se fosse verdade?

- Larissa, você quer mesmo descer?

- Ah, você não acreditou no que a menina disse né?

- Não, mas esse lugar é meio estranho.

- Não é, é que aqui tem todos esses livros sobre demônios e extraterrestres, o dono deve...

Antes que Larissa terminasse a porta se abriu e o homem que havia desenhado o mapa para elas, entrou:

- Olá! Vejo que meu mapa foi útil – disse sorrindo para as duas.

- Bem – continuou- sou o dono da livraria e também de uma agência que faz passeios marítimos. Esse tipo de “passeio” não é muito divulgado porque não quero que se torne algo muito popular, pois prefiro trabalhar com poucos clientes e cuidar muito bem desses poucos.

- O senhor é dono de qual agência? – perguntou a menina que estava ali antes de todas.

- Da Mar Azul.

- Ah sim – respondeu a menina, já que era uma das agências mais tradicionais por ali.

- Bem, vim pessoalmente para informa-las e responder todas as suas perguntas.

Vera estava pensando por que a menina que disse que algumas pessoas não voltam da descida estava ali. Devia ser mentira, ou ela disse só para assustá-las.

- O custo é de 180 reais, todas descem no mesmo dia em horários diferentes, pois só temos um equipamento. A descida é totalmente segura, vocês descerão dentro de uma jaula, e se quiserem, lá embaixo podem sair. O lugar é maravilhoso e vocês terão 30 minutos para ficaram lá. Amanhã teremos um pequeno treinamento na Praia Vermelha às 8 da manhã, espero vocês lá.

Durante aquela noite, Vera teve dificuldades para dormir. Assim que caía no sono despertava repentinamente de algum pesadelo do qual ela não se recordava. A única coisa que ela se lembrava era de uma música, uma melodia calma que ela nunca ouvira.

O treinamento ocorreu como o esperado, enquanto Larissa mostrava-se animadíssima, Vera se sentia fraca como se fosse dormir. Terminado o treinamento, o instrutor disse:

- Bem, muito obrigado pela atenção de vocês e boa sorte.

Ele parecia um homem triste, parecia que ele carregava 200 quilos nas costas e seu olhar era caído, tinha feições de uma pessoa que se levanta toda manhã esperando pelo juízo final:

- Larissa – disse Vera enquanto Larissa dirigia – você não se importa se eu não descer, não é? Não estou me sentindo bem desde ontem à noite. Sinto-me enjoada, com mal estar, acho que vou ficar doente. Mas vou com você amanhã e te espero subir e voltar. Tudo bem?

- Tudo bem Vera.

Assim como Vera previa, ela realmente estava doente, e dormiu muito mal aquela noite se sentindo febril e com dores no corpo. Teve pesadelos horríveis dos quais não se recordava, mas passou a noite se revirando na cama. Quando finalmente conseguiu forças para abrir os olhos e olhar no relógio, viu que eram 10 horas da manhã e Larissa iria descer às nove.

Larissa dormiu tranquilamente naquela noite, deixando de lado a ansiedade de descer no oceano e ver de perto as mais maravilhosas criaturas as quais ela desde criança via em enciclopédias e programas de televisão. Ela estava um pouco chateada com o fato de Vera não descer com ela, mas tentou não pensar nisso e ligou para a amiga para saber se ela estava bem. Como Vera não atendia, ela pegou um táxi e foi para a praia.

Chegando lá, ela não avistou ninguém e começou a se perguntar se ela havia errado a hora ou o dia da descida, até que avistou um pequeno barco vindo em sua direção e em cima dele estava o dono da agência. Assim que o barco parou, Larissa disse:

- E as outras meninas?

-Ah, primeiro você descerá, e depois voltarei pegá-las – disse o homem, enquanto a ajudava subir no barco.

Era óbvio para Larissa que havia algo errado, e enquanto ela vestia a roupa própria para mergulhar, ouviu o homem conversando com alguém que não era quem dirigia o barco, pois era a voz de uma mulher:

- Com quem estava falando?

- Ah, com minha mulher, gosto de falar no viva voz. Bem, tudo pronto então? É só descer.

Assim que Larissa entrou na gaiola e começou a descer, ela sentiu uma tristeza tão profunda que ela pensou que fosse chorar. Era um sentimento totalmente contrário do qual ela achou que sentiria, ela nem prestava atenção no que estava acontecendo ao seu redor, o vazio que se instalou em sua alma era mais avassalador do que qualquer cenário por mais exuberante que fosse. Enquanto ela descia, seu coração se apertava cada vez mais e ao mesmo tempo ela não sentia mais nada, somente solidão, e foi quando ela notou algo que passou muito rápido por ela.

Ela ficou alerta rapidamente e imaginou que deveria ter sido algum peixe. Assim que seus olhos piscaram ela viu algo passando novamente, e ela notou que não havia nenhum peixe ou qualquer animal marinho por ali. O sangue gelou.

De repente, tudo ficou mais quieto e calmo do que já estava e ela não conseguia ouvir nem o seu próprio coração bater, e foi quando ela se deu conta de que estava sendo observada.

Assim que se virou lentamente para trás, ela viu o dono da agência de viagens ali, flutuando na água e olhando para ela. Na hora ela quase sorriu, pois não entendeu o que ele fazia ali, e foi quando ele abriu a porta da jaula.

Ela saiu, e o encarou para saber o que estava acontecendo, e ele com um gesto, a fez segui-lo até uma fenda em uma pedra, que parecia uma caverna. Ele entrou e ela o seguiu. Não havia nada de estranho ali, apenas algumas algas e uns peixes pequenos, mas Larissa já estava em pânico, pois não sabia como aquele homem ainda respirava embaixo d´água naquela profundidade. Sua intuição lhe dizia para ela voltar naquele mesmo instante, mas a curiosidade falou um pouco mais alto.

Finalmente o homem parou, e na sua frente havia outra pedra com outra fenda, e ele apontou para que Larissa entrasse. Ela fez que não com a cabeça. Ele então sorriu um sorriso compreensivo e amigável, e entrou primeiro. Ela ficou ali durante uns minutos, esperando-o sair e nada, então ela resolveu dar uma espiada.

Assim que colocou a cabeça dentro da fenda, ela sentiu uma pressão enorme a puxando para dentro, e por mais que ela tentasse lutar para não entrar, não conseguiu. Ela girava como se estivesse descendo por um cano, e se sentia tão enjoada que achou melhor fechar os olhos e rezar. Foi quando ela sentiu um baque muito forte na cabeça.

Larissa abriu os olhos, e se viu em terra novamente, mais precisamente em grama, ela estava em um gramado imenso, que não se via o fim, e ela então tirou o capacete. Sua cabeça ainda doía e ela estava muito zonza “ O que é isso?” ela pensava, quando o dono da agência apareceu novamente:

- Olá, vejo que conseguiu.

- Consegui o quê? O que é esse lugar?

- Oras você não vê? Terra, você está em terra novamente.

- Mas eu quero ir embora, chega desse passeio, e não vi peixe algum!

- Essa é sua casa agora. Aquela fenda pela qual você entrou na verdade é uma passagem, mais precisamente um buraco de minhoca. Está aí desde o surgimento da Terra, e nós o usamos para ir e vir.

- Nós quem? – Larissa ria.

- Minha gente. Agora, sem mais perguntas, você está aqui para servir.

- O quê?

- Você não voltará mais. Precisamos de gente para nos servir, e vocês humanos são perfeitos. Você vai se encontrar com muitos por lá. Agora chega de conversa.

O homem bateu palmas duas vezes e uma cápsula surgiu magicamente em meio àquele campo. Ele a fez entrar a força, e os dois sumiram.

De volta à superfície, Vera ficou horas e mais horas na praia à espera da amiga que nunca voltara. Ela foi até a livraria, e havia somente uma mulher que disse não saber nada sobre viagens às profundezas do oceano. Vera então foi até a agência de viagens, mas lá ninguém conhecia o tal dono. Ela tentou encontrar o jornal com o anúncio para levar na polícia, e não o encontrou. Foi até as bancas para ver se achava algum, mas nada, o dono da banca disse que todos daquele dia haviam sido vendidos.

Vera ainda tem pesadelos e precisa de pílulas para conseguir dormir....

FIM!

Conto assombrado enviado pela leitora Ana Laura Cardoso. Envie o seu!
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