22 de abril de 2014

Conto Assombrado: Beastrider - Um Pesadelo Em Duas Rodas!


“Os sinos tocam e a luz do sol se deita para que as trevas reinem. Os anjos se calam enquanto os demônios esbravejam aos ouvidos dos fracos. Seja bem-vinda a tempestade da loucura, o Império do Mal!”

“Não existe dor mais pungente para um pai do que descobrir que o coração de seu filho parou de pulsar, não há agonia maior neste mundo do que saber que amanhã o seu filho não irá estar mais ao seu lado, mas acredito que todos que estão aqui, incluindo minha própria família, duvidem de minha integridade e tenha total convicção de que sou eu o culpado pelo assassinato de minha amada filha. Encontraram-me com a pequena Megan, esfaqueada e coberta de sangue nos braços meus e simplesmente me prenderam, mas qual pai não se torna um cego ao encarnar o desespero de ver sua filha afogada nas ruínas da morte dentro de um berço? Estou errado por ter corrido para abraçá-la e tentar fazer algo? Por fim, deixo claro que mesmo sendo julgado como culpado lutarei até o último suspiro que tiver em vida para provar que ela não foi morta pelas minhas mãos.”

Estas foram as últimas palavras de um homem alcoólatra, bipolar e líder de um clube de motoqueiros após ser declarado culpado pelo assassinato de uma de suas duas filhas, Megan. Adam foi condenado à prisão perpétua pelo crime cometido no natal de 1987 que chocou todos os moradores da pequena cidade onde morava, porém foi diagnosticado vítima da bipolaridade e de outros distúrbios psicológicos, o que resultou em deixá-lo trancafiado em um manicômio judiciário.

Possuidor de uma Harley Davidson turbinada, um modelo clássico chamado Electra-Glide, Adam amava motos e cuidava de sua máquina - que era tão negra quanto as sombras turvas da noite - possivelmente melhor do que de si mesmo, também pudera, aquela joia de duas rodas havia lhe custado os olhos da cara. Era o líder de um clube de motoqueiros desde a adolescência, mas se distanciou de muitas coisas, inclusive de seu clube, após casar-se e ter duas filhas: as gêmeas Megan e Melissa. O grande problema é que quanto mais o tempo passava o seu casamento se tornava um purgatório e n’um momento ou outro as diversidades se transformavam em pesadelos intermináveis, o que fez retorná-lo ao seu vício mais incontrolável: o álcool.

As pupilas dos olhos de Adam agora estão dilatadas e seu corpo está tépido e trêmulo. Queria ele acreditar que aquela visão de dar calafrios em qualquer um não era real, mas o cheiro de sangue cálido dentro do quarto de bebê faz com que tudo que está diante dele seja verídico: Dois berços e em cada um deles há uma garotinha de 10 meses, uma desfruta de um sono tranqüilo e passageiro, mas a outra descansa em paz. Megan agora viaja para o mundo dos mortos enquanto Adam, ainda sem reação alguma, se depara com o quarto de suas gêmeas totalmente destruído. Imagine nesse momento que o quarto é contemplado todo em preto e branco por Adam, porém o berço de uma de suas filhas contém uma cor que contrasta perceptivelmente sobre toda aquela paisagem macabra: o vívido vermelho do sangue de Megan e o brilho daquela faca caída no chão.

Após reaver seu fôlego, Adam consegue enxergar que a janela foi aberta e observa que alguém entrou no quarto através de uma árvore que ficava em frente à sua casa, porém é algo integralmente irrelevante se colocado ao lado da exasperação que circula em suas veias. Em questão de segundos ele vai correr e abraçar seu bebê, talvez sem pensar direito pegará uma faca que estava no chão notando que era sua e que nela estava escrito seu apelido quando motoqueiro – Beastrider – encravado ao longo da lâmina. Por muitas vezes a morte nos espera escondida nas sombras de um canto escuro d’um quarto de criança, o nosso último suspiro sempre desabrocha das ocasiões mais sádicas da vida.

Entre na mente desse homem desesperado e que havia acabado de chegar em sua casa com algumas doses de whisky na cabeça em plena madrugada e acaba se deparando com uma situação lúgubre como essa. Sua esposa, Edwiges, acorda e corre em direção ao mesmo quarto, pois ouviu um barulho assustador e ao encontrar Adam ajoelhado segurando o corpo de Megan n’um braço e uma faca suja de sangue em uma de suas mãos, pensa no transtorno bipolar de seu cônjuge, problema financeiro e claro, no seu alcoolismo desenfreado. Não hesitou em culpá-lo por aquilo tudo e em poucos minutos a polícia chegou ao local do crime, pois foi avisada pelos vizinhos que escutaram alguns gritos estranhos. Os tiras arrastaram Adam para a viatura – mesmo gritando incessantemente que não era o culpado – e o conduziram ao departamento policial pelo crime em “flagrante”. Ninguém deveria procurar outro suspeito sendo que o primeiro indivíduo encontrado na cena do crime se tratava de um maníaco-depressivo.

O tempo passou, na sua alma agora não há luz, nos seus olhos não existe expressão e na verdade a vontade de viver parece ter ido embora de Adam. Entorpecido pelos tormentos de sua memória, ele decidiu se refugiar no canto do pátio de um manicômio onde estava internado e debaixo de uma árvore que ele nem sabia o nome, mas que o cheiro de suas flores lembrava o perfume da morte, relembra todos os dias da tragédia que marcou sua vida. Era durante esse momento que Adam se recordava do caos que sua vida se tornou por ter caído nas garras do alcoolismo:

- Quanta estupidez! Fui vítima daquilo que por muitas vezes foi o combustível para tornar minhas noites mais felizes ao lado dos meus amigos. – sussurrou pra si mesmo o homem que era conhecido por ter muitos, todavia nessa fase de sua vida, estava absolutamente sozinho. Porém, em um dia nublado de outono, n’um fim de tarde qualquer, um velho sem cabelo algum, de terno e óculos escuros encostou-se em Adam e falou:

- Jovem, por que estás pensando em se matar? – disse ele. - O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte. E quem não tem medo da morte possui tudo.

- Como você sabe que estou pensando em me matar? – resmungou Adam. – Só falta você dizer que está lendo meus pensamentos e que...

- Você ia se matar hoje se enforcando com o lençol de seu quarto aqui no manicômio, estou certo? – disse o velho. – Acredito que você não precise se matar, pois tenho uma saída bem menos trágica para toda essa sua angústia.

- E como você descobriu isso seu velho miserável? Acho que após esses 17 anos dentro desse inferno eu devo ter enlouquecido mesmo! – murmurou Adam. – E se ninguém conseguiu me tirar daqui ao longo desse tempo todo, como você me salvaria disso?

- É bem simples! Assine aqui onde está marcado e eu lhe tiro daqui – disse o velho mostrando um papel que estava guardado dentro do seu bolso. – Se você me fizer um “favorzinho” eu posso até levá-lo até o assassino de sua filha, Adam. Eu sei de tudo e também sei que não foste tu o culpado pela morte de Megan.

- Meu Deus! Só pode ser um daqueles sonhos terríveis que não conseguimos acordar de jeito nenhum! – disse Adam.

- Deus? Você disse Deus? – se dobrava em gargalhadas o sujeito esquisito enquanto ajustava seus óculos em seu rosto decrépito. – Deus está sempre ocupado quando o assunto é você!

Depois de uma longa conversa, Adam sentia algum medo e um grande temor ao pensar na probabilidade de aceitar a proposta, mas lembrou-se de uma frase que descrevia muito bem a sua personalidade:

”O medo sempre me guiou para o que eu quero. E porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que eu amo é arriscado.”

Deu duas batidas nas coxas, levantou-se e aceitou assinar o contrato do homem de terno escuro em troca da fuga e o paradeiro do verdadeiro assassino de sua filha, e então aquele velho que aparentava ter um pouco mais de 70 anos, tocou na nuca de Adam e quando ele acordou estava em um cemitério de carros, um ferro-velho totalmente abandonado. Na sua frente uma Harley Dayvidson vermelha com várias chamas aerografadas, o guidão em formato de grandes chifres e o farol ligado, mas o que era estranho mesmo é que a moto parecia de alguma forma ter vida própria. O ancião que em hora nenhuma quis dizer seu nome pediu em retribuição que Adam pilotasse a moto que se chamava Beastrider e o alertou dizendo que a motocicleta só poderia ser abastecida com sangue de mulheres mortas após a relação sexual. Ele também foi bem categórico ao dizer que Adam nunca poderia parar de abastecê-la e que após encher o tanque com a seiva de sete vítimas, a própria moto o conduziria até o verdadeiro assassino de sua filha em forma de gratidão pelo sacrifício.

Vítima por vítima foi sendo feita durante as noites de uma cidade onde as luzes amarelas dos postes faziam com que tudo parecesse estar no seu devido lugar, disfarçando assim os crimes cometidos no ferro-velho onde Adam e sua Beastrider se escondiam para não serem achados pela polícia. Costumavam caçar suas presas nos bares e nas festas da cidade, mas a sétima vítima era especial, então Adam decidiu estacionar a “Beastrider” em uma casa de striptease e procurar o seu derradeiro alvo por ali. Não demorou muito para se encantar com uma garota de aproximadamente 18 anos, loira e de olhos verdes que dançava tão bem que atraía todos os olhares do ambiente. Adam chegou perto dela e após o show dado pela jovem, muita conversa e alguns drinques, tudo ficou bem mais fácil e ele conseguiu convencê-la para ir para até sua casa – Adam chamava um pequeno trailer jogado nos fundos daquele cemitério de carros de casa – para dormir ao seu lado.

As luzes agora se apagam, o trailer está mais escuro do que costumava ser e as roupas estão jogadas no chão. A stripper - que se apresentava como Emily - está montada em Adam delirando através da volúpia do momento. Gemidos, pílulas de ecstase e um respirar cada vez mais forte a cada orgasmo dela sintetizam o momento. Enquanto isso, Adam regava somente o desejo ávido de chegar ao assassino de sua filha, mas dissimulava e atuava bem fingindo até sentir prazer, porém a grande verdade é que em seu coração petrificado, não havia mais espaço para sentimentos fúteis como o prazer sexual.

A garota dormiu e só acordou quando a luz do farol e o ronco do motor da motocicleta sedenta por sangue atravessaram as frestas da janela do pequeno trailer. Pela porta entra o homem que nunca dizia seu nome verdadeiro para as vítimas e que para cada uma de suas presas inventava um pseudônimo, mas a essa altura nada mais faz diferença, pois ambos mentiram seus nomes reais e pelo visto parecem esconder outros segredos dentro do recanto mais obscuro de suas almas. Ele ligou a luz do trailer e em suas mãos havia um taco beisebol na mão. Adam estava sem camisa e com um olhar malévolo, porém o que chamou ainda mais a atenção da stripper foi uma tatuagem no peito dele. Era um desenho de duas bonecas e os nomes “Megan & Mellisa”.

Adam partiu para cima da stripper e falou:

- Você é a minha última vítima! Depois que te matar irei finalmente descobrir quem ceifou a vida da minha pequena Megan! – e sem piedade alguma acertou em cheio a cabeça da garota fazendo com que ela desmaiasse.


O ritual devia ser feito: ele amarrou-a num poste de ferro ao lado trailer, posicionou a moto ligada de frente para a garota e quando chegava com uma faca a menos de um palmo do pescoço da histérica menina que também ganhava a vida saindo com homens que sequer conhecia direito, ela acordou e gritou:

- Pare! Pare com isso, Adam!

- Como você sabe o meu verdadeiro nome? Eu havia mentido para você, sua vadia! – disse Adam afastando a faca do pescoço da menina e com um semblante atônito. – Não importa saber quem sou ou não, sua hora chegou, porém agora eu quero saber o seu nome, vocês, damas da noite, sempre mentem suas identidades. Vamos! Diga-me!

Adam havia se tornado um monstro tão horrível quanto aquele que acabou com a vida de Megan. Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro, pois se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.

Eis que surge uma névoa gélida e insubstancial tão branca que destaca ainda mais as gotas de sangue da vítima que estão espalhadas pelo chão. A inerme stripper deixa com que lágrimas passeiem pelo seu delicado rosto, mas não são lágrimas comuns, elas não são de saudade ou de amor, pois essas fazem sempre muito bem, são lágrimas de revolta, devotadas à tristeza que a vida lhe obrigou a carregar. Os sonhos daquela moça já estavam mortos, seus amores e parentes também. Não era por medo da morte que ela chorava, pois sequer achava motivo para viver, ainda mais agora que uma verdade vinha à tona. Sentia-se enodoada e no limite da realidade, refém de uma tempestade de flashes que se arrastavam pelos corredores sujos de sua memória. A verdadeira causa das lágrimas era a dubiedade de dizer ou não sua identidade para o sujeito ensandecido que se encontrava à sua frente, mas ela respirou fundo e finalmente falou:

- Eu me chamo MELISSA!

E agora? O que você faria se fosse Adam? Mataria sua outra filha para descobrir o verdadeiro assassino de Megan? Condenaria a túrbida e desolada Melissa a viver vagando com suas tantas frustrações e traumas irreparáveis para ser um foragido da polícia ou simplesmente cometeria um suicídio para encerrar com uma vida nefasta onde a trilha sonora são apenas os gritos das almas inconformadas que clamam todos os dias por justiça? Bem, o maior problema do mundo em que vivemos é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão sempre cheias de certezas...

FIM!

Conto enviado por André Nadler Serra. Envie o seu!
Andréi Nadler já fez sucesso aqui no blog com o conto Sacrifício Maldito.


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