18 de março de 2014

Contos Assombrados: A Mansão

Um ladrão invade uma mansão e descobre no porão um vampiro adormecido em seu caixão! Ele tenta fugir, mas já era tarde, porque ele tinha alguns planos para o convidado...

Acobertado pela sombra das murtas ele pulou o muro da nobre residência. Caminhou como um felino pelas gramas do jardim, esgueirando-se por entre os coqueiros, ipês e “limpa-garrafas”. Pelo que observava há dias não havia cães por ali, porém era preciso estar atento. Mais alguns passos e chegou-se a janela. Para sua surpresa estava aberta, podendo avaliar o interior da casa. A penumbra permitia vislumbrar uma sala muito ampla com poucos mobiliários e grandes quadros adornando as paredes. Resolveu entrar. Pulou a janela e foi esgueirando-se por entre as cortinas. Os móveis aparentavam ser bem antigos. Sofás e cadeiras torneadas, vasos coloridos e de diversos tamanhos davam um tom modesto e elegante ao ambiente.

O interior da casa não fazia jus a sua fachada. Por fora a casa era exuberante e isso o atraíra. Avistou a escadaria e subiu. Vários quartos com camas altas e acolchoadas, outros quadros pelos corredores, sem luxo ou qualquer objeto valioso. A casa passou a ser objeto de curiosidade. Seria impossível não haver nada ali que pudesse levar. Os cinzeiros eram de madeira trabalhada, os lustres já desgastados mostravam a despreocupação do dono. Olhou atrás dos quadros atrás de um cofre. Nada !

Desceu as escadas. Cozinha com panelas de ferro ou cobre. Poucos objetos. Provavelmente o residente era homem e morava sozinho. Não demonstra o gosto feminino, os cuidados com a limpeza, embora a casa não se mostrasse suja. Já pensava em sair quando percebeu uma outra porta próxima as escadarias. Tentou abrir, mas percebeu estar trancada. Com habilidade incrível e um objeto pontiagudo a destravou. A escuridão no interior era total. Procurou uma lâmpada, um interruptor mas nada encontrou. Voltou à cozinha e em uma das gavetas da prateleira localizou várias velas de andiroba.

Uma escada levava para as profundezas da casa. A luz bruxuleante da vela gradualmente revelava o novo espaço. Muito amplo. Mesa de madeira, cadeiras, prateleiras com livros, potes de barro, pequenos baús. Sobre a mesa alguns livros que pela capa demonstravam ter muitos anos. Olhou atentamente ao seu redor e sua decepção atingiu o auge. A um canto uma grande caixa de madeira. Aproximou-se e movido pela curiosidade a abriu. O coração disparou acelerado, enquanto um frio ártico dominou seu corpo. Deitado, com as mãos cruzadas sobre o peito, um corpo aparentemente modelado em cera, com o rosto arroxeado, veias rubras percorrendo a face e um odor putrefato mantinha-se em repouso. Afastou-se quase petrificado. Mirou as escadas e correu, buscando rapidamente a janela pela qual penetrara na casa.

Saltou a janela num lance. Correu, tenso e apavorado, em direção ao muro, sendo porém surpreendido no meio do caminho pela estranha figura. Estática, de olhar penetrante, fitando-o. Congelou-se. O que era aquilo? Vencendo o tremor nas pernas, pulou o muro sem olhar para trás. No meio da rua o monstro o olhava, agora com um sorriso irônico, mas sem mover-se. Pensou em correr, mas sentiu os braços fortes o segurarem. Ele olhou aterrorizado para aquele ser e nada mais viu.

Despertou nu sobre a mesa no porão da casa. Rapidamente reconheceu o lugar. Instintivamente o explorou em busca da caixa que abrigava aquela coisa estranha que o perseguira e capturara. Lá estava ela. Fechada, provavelmente estando ele adormecido. Subiu cuidadosamente as escadas, mas encontrou a porta fechada. Procurou ao redor algo que pudesse utilizar para abri-la. Nada! Procurou suas roupas ou algo com que pudesse se cobrir e nada encontrou. Era prisioneiro.

Sentiu-se enjoado, como se tivesse comido ou bebido algo amargo. A nuca doía muito, assim como seus músculos. Sentou-se em uma das cadeiras e passou a olhar as prateleiras. Os livros eram bem antigos e escritos em uma língua que desconhecia. Levantou-se e os folheou em busca de imagens ou algo que revelasse seu significado. Apenas letras e letras, nenhuma figura. Abriu um dos potes e recebeu uma baforada de um pó de odor fétido. Os baús tinham pequenos ossos, pedaços de pele, folhas e cascas de vegetais que não conseguiria identificar.

Estava com fome e sede. Precisava sair dali. Todos os seus anos de roubos e furtos lhe deram muito sangue frio, auto-confiança, segurança, mas estava sendo desafiado. Aquela coisa iria acordar em algum momento e ele precisaria estar longe quando acontecesse. Porém, uma sonolência incontrolável o foi dominando, caindo no chão frio e úmido do porão.

Novo despertar. Ainda estava vivo. Mais uma vez vasculhou cada espaço em busca de saída, forçou a porta. Sua visão estava turva, entendeu que poderia estar sendo drogado. Mas como? Não havia comido ou bebido o que quer que fosse! Só então notou que sobre a mesa estavam dispostas várias frutas, água e vinho. A fome o impediu de pensar. Rapidamente avançou e devorou o que havia. Tomou muita água, estava sedento.

Com o passar do tempo, alternando entre a alimentação de frutas, desmaios e tentativas frustradas de escapar pensou em matar aquele ser que o mantinha preso. Talvez desmontando uma cadeira poderia matá-lo a pauladas. Ele deveria continuar adormecido, embora nunca o tivesse visto enquanto ali estava e não se atrevera a abrir a caixa.

Com o pé da cadeira na mão, abriu a caixa pronto para golpeá-lo. Ele não estava lá. Aproveitou o instrumento para arrombar a porta. Sem sucesso. Tentou de todas as formas abrir a porta. Mais uma vez retrocedeu inconformado. Segurou o choro na garganta, gritou, pedindo pelo amor de Deus que alguém o ouvisse e socorresse. Um profundo silêncio permanecia.

Resolveu simular um desmaio. Deitou-se no chão, de olhos fechados e pôs-se atento ao seu redor. Não demorou para que a porta se abrisse e algo descesse pelas escadas. Sentiu a mão muito suave percorrer seu corpo como se estivesse sendo admirado. O sopro quente em seu pescoço demonstrava que o ser estava muito próximo, pronto para beijá-lo talvez.

Em um golpe rápido introduziu a lasca de madeira no peito da criatura. Um urro ressoou pelo porão. Ele fora certeiro. Levantou lançando para o lado a figura horrenda, sangrando abundantemente. De pé observando a agonia percebeu que ela estava gradativamente retomando a forma humana. A beleza da mulher era estonteante, rara, atraente, encantadora.

Afastou-se buscando vê-la com maior clareza. Cabelos negros, a estaca entre seus seios, seu corpo escultural. O que estava acontecendo ? Perguntava-se sem obter qualquer resposta lógica. Aquilo somente acontecia nos filmes e romances de ficção. Agachou-se e acariciou seu rosto. Era deslumbrante. Sentiu-se como se estivesse ardentemente apaixonado. Deveria chamar a polícia ? A ambulância? Estaria ela realmente morta ?

Retomando a sanidade olhou a porta e disparou em fuga. No meio da sala ouviu o choro de um bebê. Perdido em pensamentos e como que atraído por um ímã subiu as escadas, sinalizado pelo choro encontrou o bebê sobre a cama, recém acordado. Com uma estranha lógica acreditou ser seu filho. Cenas começaram a burbulhar em sua mente, visualizando cenas onde, durante seus desmaios, entregava-se ao prazer com a mulher do caixão, na sua forma mais bela, ao mesmo tempo em que a alimentava com seu próprio sangue.

Ele seria Victor e cuidaria dele como um rei. Um rei vampiro.

FIM!

Conto escrito por Geraldo José Sant´Anna. Enviei seu conto!

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