25 de março de 2014

Conto Assombrado: Demônio na Sala de Aula


Acabou a força na sala de aulas e os alunos comemoraram a escuridão. Mas uma aluna tinha um plano diferente, realizar a brincadeira do compasso...

Era apenas mais um dia de aula comum. Estávamos na aula de matemática, e a chuva que caía era forte. Ouviam-se trovoadas e viam-se raios de longe. Copiávamos o texto que a professora passava na lousa quando a luz apagou de repente. Logo a gritaria começou. Os alunos pareciam estar feliz pela luz ter acabado.

Enquanto todos faziam algazarra, eu apenas tirei um livro da minha bolsa. Era sobre demônios e exorcismos, e infelizmente não me recordo de seu nome agora. Os garotos começaram a jogar bolinhas de papel no ventilador e as meninas tiveram outra idéia.

- Ei, que tal fazermos o jogo do compasso? – Perguntou uma garota que estava sentada do meu lado.

Sou um pouco anti-social, portanto não converso muito com as garotas da minha sala. Sei o nome de apenas algumas, e esta que falou é a Amanda.

- Boa idéia. Quero só ver os garotos falarem que somos medrosas agora. – Disse outra garota, sorrindo com expectativa.

- O jogo do compasso é bem leve. – Murmurei, mais para mim do que para elas. – A menos que vocês chamem o diabo. E nem temos garantia de que ele vai funcionar.

Elas olharam para mim.

- E você, por acaso sabe como tornar o jogo mais perigoso? – Amanda perguntou com desdém.

- Sim. – Falei. – Quando começarem o jogo, chamem o diabo, e peçam para que ele fique do lado de vocês durante o jogo.

Ela assentiu. Elas se prepararam para começar o jogo. Não tirei os olhos do livro. Até que...

- Ah, meu Deus. – Uma garota que estava jogando gritou. – O que foi aquilo? Que foi que houve? Tem alguém aqui.

Olhei para elas.

- Vocês realmente chamaram o demônio? – Perguntei.

Uma delas assentiu.

- Suas idiotas!

- Só fizemos o que você mandou. – Amanda disse emburrando a cara.

- Eu não mandei nada. – Murmurei irritada. – O que foi que houve? Porque começaram a gritar?

Amanda apontou o dedo trêmulo para uma garota que estava sentada perto da janela. Seus cabelos cobriam-lhe o rosto e ela estava com a cabeça abaixada, de forma a que apenas se via seus cabelos.

A garota pareceu perceber que eu a observava a levantou a cabeça. Seus olhos estavam pretos e giravam nas orbitas. Ela estava possuída.

Senti falta de ar.

- O que exatamente vocês falaram ao compasso? – Perguntei nervosa.

Já havia tido contatos com demônios antes, mas nunca com alguém possuído. Ela se contorcia convulsivamente. Respirei fundo várias vezes.

Amanda abaixou a cabeça, parecendo culpada.

- Nós... Nós pedimos que o compasso provasse que o demônio estava aqui, e para isso dissemos para que ele se manifestasse em uma de nós. – Ela soluçou. – Não era para ter funcionado. Não era. Nós só queríamos provar que era uma farsa

- Vocês pediram para que ele se manifestasse em uma de vocês? Vocês são loucas ou o que? Não podiam ter feito isso. Agora quem tem uma brilhante idéia para tirar o demônio do corpo dessa garota? – Reclamei.

O bom de sempre assistir o seriado Supernatural, é que você já tem uma idéia de como se proteger de demônios. Na teoria eu até saberia prender o espírito que havia dentro do corpo dela, mas na prática... Não havia garantias de que isso iria funcionar. E se não funcionasse, se eu não conseguisse prendê-la, o espírito poderia se revoltar contra nós.

Olhei para a sala toda. Todos prestavam atenção na garota que estava possuída. Até a professora estava amedrontada, eu tive a estranha sensação de que ninguém estava respirando.

Normalmente, o pessoal da minha sala acha que eu sou louca, pois vejo demônios, espíritos, vultos tanto pretos como brancos, e já cheguei a ver, até mesmo o que acho ser anjos. Ah, e é claro, eu também ouço vozes... E às vezes, quando eu estou falando com algum espírito, como só eu vejo, acham que eu estou ficando maluca.

Bem, paciência, não é mesmo? Afinal, não é todo mundo que entende o sobrenatural.

Ninguém respondeu a minha pergunta anterior. As garotas olhavam a menina possuída – aliás, o nome dela é Jéssica – e pareciam culpadas. Então a garota se virou e falou algo para mim, ainda se debatendo convulsivamente, ainda com os olhos girando nas órbitas, ainda assustadora.

- É você que nós queremos, médium. – Ela disse, com a voz grossa. Uma voz que não era dela, mas sim do demônio que a possuía.

Respirei fundo e a criatura continuou:

- Ele quer a sua alma. – Ela se virou para as garotas e sorriu ironicamente. – Cuidado com o que você deseja, seu desejo uma hora ou outra acaba se virando contra você.

Não sei se foi ironia do destino ou não, mas justamente nesse dia eu havia trazido um saco de sal grosso para um experimento de ciências.

Abri-o com uma tesoura qualquer, e fiz um circulo de sal grosso em volta de mim, e dentro dele eu fiz outro. Desenhei um pentagrama, ainda com o sal, ele estava com a ponta, na direção do norte, que é a direção correta para posicionarmos a ponta do pentagrama.

Agora eu só tinha que empurrar a garota para dentro do pentagrama. Era a parte mais difícil.

- Eu não vou entrar aí. – Ela disse, a voz engrossando ainda mais.

- Vai sim.

- Me obrigue. – Ela disse irônica.

Respirei fundo. Como eu iria fazê-la entrar dentro do pentagrama. Eu suava frio. Nunca havia imaginado que iria passar por isso de verdade. É claro que eu já havia imaginado como seria exorcizar alguém, mas fazer isso na prática e bem mais difícil do que na teoria. Além do mais, eu havia sido bem burra desenhando o pentagrama na frente da possuída.

- Empurrem-na para dentro do circulo mágico. – Falei para os alunos da minha sala. Não sei o que me veio à mente. Se não conseguíssemos, provavelmente ela faria uma carnificina aqui.

Por incrível que pareça, eles obedeceram e sem contestar. É claro que estava sendo difícil, imagine um bando de adolescentes da sexta série tentando empurrar uma garota com o demônio dentro do corpo para um pentagrama. Ela se contorcia, se debatia, mas por fim, conseguimos.

Como o pentagrama ficava perto do lugar onde ela estava sentada, não foi preciso muito esforço para levá-la até lá, só para empurrá-la para dentro dele.

Uma vez dentro do pentagrama, ela começou a gritar, se debater e a chutar e esmurrar o ar, como se uma parede invisível a prendesse. Bem, talvez a prendesse mesmo.

Minha respiração estava acelerada. Minha avó sempre me dá água benta, ela é muito devota, e sempre me faz andar com um vidrinho de água benta. Normalmente, ele fica encostado e sem uso na minha mochila, mas hoje eu tinha um uso especial para ele.

Senti meu estômago ficar embrulhado e então derramei a água benta na garota. Parecia que a água estava queimando, juro que posso ter visto até mesmo uma fumacinha branca saindo dela. Ela gritou ainda mais, como se estivesse sendo torturada. A água benta queima a pele dos possuídos.

Então eu abri meu livro justamente na parte em que a minha folha com as palavras do exorcismo estava. Eu as repeti para a garota.

Ela se debateu, esmurrou o ar e gritou blasfêmias. Mas depois acabou cedendo. Quando eu terminei, falando as palavras “Per Dominum, amem” ela se jogou no chão. Lembro-me de ter visto uma fumaça preta saindo dela. O espírito a havia deixado.

Peguei o compasso com que elas brincavam e quebrei-o no meio, joguei água benta, e disse para que uma das garotas queimasse-o depois.

Como se nada tivesse acontecido, eu fui até minha mesa, e guardei minhas coisas na mochila, menos meu livro. Olhei de relance para a garota, que ainda estava deitada no chão, desacordada.

Havia uma energia muito ruim naquele lugar. Mas se o espírito maligno havia ido embora, o certo era que a energia também fosse. Aquilo era estranho. Talvez... Talvez eu tivesse feito algo errado, e a energia continuasse ali. Ou talvez ela demorasse mais um tempinho para sumir.

Ou talvez apenas eu estivesse sentindo que havia algo muito ruim ali. Algumas pessoas são especialmente sensitivas para algumas coisas. Algumas podem ouvir, outras ver coisas vindas do outro mundo. Eu sou privilegiada e posso ouvir e ver essas coisas. Eu sou uma médium. Isso pode ser bom, mas às vezes ruim. Há vezes que eu odeio ter esse “dom”, muitas vezes vejo coisas que me assustam, e me deixam perturbada.

Mas acho que tenho que aceitar e tentar controlar esse dom. Só espero conseguir. Enquanto eu devaneava, ouvi algo que fez meu coração quase sair pela boca.

- Os verdadeiros demônios nunca morrem. – Uma voz grossa disse e então gargalhou.

Respirei fundo e olhei o lugar minuciosamente. Nada. Nenhum demônio. Resolvi ignorar. Jéssica havia acordado, ela não se lembrava de nada, estava confusa e demasiada fraca. Eu estava esgotada também. Exorcizar alguém exige muito esforço emocional.

Eu podia ver a aura de Jéssica, estava normal, como a de todos na sala. A minha aura não era normal, ela é pulsante. É diferente.

Não captei nenhum sinal estranho na sala. Talvez eu só tivesse imaginado. Respirei fundo novamente. Assim que o sinal soou, os alunos foram saindo da sala, um a um, comentando assustados os acontecimentos, a professora havia proibido-os de comentar com todos o que havia acontecido ali. Ficaria só entre os que presenciaram.

Fui uma das últimas a sair da sala, todos me olhavam torto. O pentagrama ainda estava ali, junto com o sal. Assim que sai da sala, posso jurar ter visto uma sombra preta parada perto da janela. Eu estava certa, o demônio não havia saído dali. Talvez nunca saísse.

FIM!

Conto enviado por Vitória Silva. Clique aqui para enviar o seu!


CLIQUE AQUI para ler "10 Relatos da Brincadeira do Copo"
Comentários