18 de fevereiro de 2014

Contos Assombrados: Assobios Noturnos

Ele foi advertido por seu amigo que não era dia de entrar na caatinga para caçar, pois a Comadre Fulozinha estava na área, mas ele disse que não acreditava em lendas e saiu mesmo assim...

Luís Gomes estava em sua cadeira de balanço na varanda, Jupy o melhor cachorro de caça da região estava deitado no terreiro, Jacaré e Pirele seus parceiros de caça andavam por perto aguardando algum chamado de seu dono. A tranquilidade foi interrompida por João Soares que chegou equipado para uma caça noturna e foi logo convidando Luís Gomes para á caçada.

- Luís, vamos caçar hoje, pela lua acho que vai ser uma boa caçada. – Diz João Soares animado e sorridente.

- Engano seu João, hoje não é noite de sair pra caçar. Se for caçar você não vai pegar nada por que esta noite a Comadre Fulozinha não vai deixar ninguém pegar nada. – Diz Luís Gomes tentando desmotivar João Soares.

- Que história é essa Luís! Você acredita nisso! Eu nunca vi nem ouvi esta tal de Comadre Fulozinha, isto vocês caçadores antigos criaram para nos assustar e pegar as melhores caças para não serem superados por nós caçadores mais novos. – Diz João Soares tentando provocar Luís Gomes.

- João esta história é verdadeira, não provoque a Comadre Fulozinha e te aconselho a ficar em casa hoje. – Diz Luís Gomes tentando conter a euforia de João Soares.

- Obrigado por seu conselho, mas hoje eu vou sair pra caçar, já que o senhor não quer ir pelos menos empresta os cachorros, garanto que um tatu eu trago para o senhor. – Diz João Soares confiante em sua caçada.

Luís Gomes faz um pequeno assobio e seus três cachorros aparecem abanando o rabo e com a língua pra fora demostrando alegria ao serem chamado por seu dono. Luís Gomes determina a seus cães que sigam João Soares, os três obedientes seguem mata adentro.

Após alguns minutos Luís Gomes levanta-se assustado de sua cadeira de balanço quando ouve um longo e assustador assobio vinda da mata escura. Corre para o curral para ver seus cavalos e os encontram com suas crinas e rabos cheio de nós e tranças. Preocupado ainda tenta chamar João Soares emitindo gritos altos que acaba acordando sua mulher e filhos, nada consegue o deixando mais preocupado.

Luís Gomes orienta sua mulher e filhos a ficarem dentro de casa e não sair pra nada, não obedecer qualquer chamado, nem o dele. Pega suas coisas que sempre leva para caçar e sai apressado mata adentro na tentativa de encontrar João Soares e seus cães.

Mais um assobio longo é emitido agora sendo seguido com o coro de corujas e bacuraus que ajudam a assombrar as matas do sertão. Luís Gomes sente seus pelos arrepiarem e isto demostra que Comadre Fulozinha está irritada com alguma coisa.

Luís Gomes corre mata adentro tentando encontrar João Soares, o escuro dificulta sua missão. Apesar do calor do sertão a noite apresenta-se fria e um vento de zumbido estranho açoita as grandes árvores fazendo de seus galhos grandes braços que tentam chegar ao chão.

Um lamento estranho vem em direção de Luís Gomes, a mata escura dificulta sua visão. Luís Gomes engatilha sua espingarda, coloca o joelho direito no chão, aponta a arma e aguarda a vinda de alguma coisa de dentro da mata que remexe os galhos confirmando sua vinda em grande velocidade.

O lamento fica mais próximo, Luís Gomes se prepara para abater o bicho que vem em sua direção quando aparece seu cachorro Pirele com o corpo envolvido em cipós que o chicoteava sem pena. O cão passou por Luís Gomes sem perceber sua presença e seguiu correndo em direção de sua casa deixando seu lamento ecoar por toda a mata escura.

O silêncio volta a prevalecer na caatinga escura do sertão, tudo parece ter terminado quando toda calma é interrompida por um longo e arrepiante assobio. Luís Gomes prevenido coloca sobre um tronco um pedaço de fumo em rolo e aguarda por algum novo sinal, novamente o silêncio é interrompido por gargalhada tenebrosa que ecoa na mata escura.

Luís Gomes corre em direção da gargalhada ansioso e com muito medo. Após alguns metros de corrida, chega diante de dois grandes angicos envolvidos por grandes ramas de arius. O lugar é tenebroso e assustador, um longo assobio é emitido, agora bem mais baixo, como se tivesse distante. Luís Gomes fica apreensivo, pois de acordo com seu conhecimento quanto mais distante se mostra o assobio mais próximo se encontra a Comadre Fulozinha, é uma forma de enganar caçadores.

Preparado e com medo, Luís Gomes começa a andar em volta dos angicos tentando encontrar alguma coisa. Uns galhos começam a se mexer como se alguém estivesse tentando se soltar, isto sendo confirmado ao se deparar com seu cachorro Jacaré todo amarrado nas ramas de ariu. Luís Gomes solta seu cachorro que sai em disparada a caminho de casa e continua a procurar João Soares. Antes de completar a volta nos angicos, o encontra com braços e pés amarrados por cipós, seus braços abertos em forma de cruz, suas roupas arrancadas em farrapos, seu corpo estava todo cortado com riscos verticais e transversais que minava sangue e escoria nas ramas de ariu e folhas dos angicos.

Luís Gomes enquanto observava João Soares tentava achar um jeito de tirá-lo daquela situação. O vento frio começou a soprar mais forte, como se algo estivesse auxiliando, um longo assobio surgiu, agora bem baixo, como se quem o fez estivesse muito distante. Luís Gomes pressentiu algo próximo e virou-se de repente quando avistou seu cão Jupy se aproximando bem devagar.

Como se estivesse observando uma caça para agarra-la, Jupy caminhava lento, de olhos fixos em seu dono. Uma imagem turva começou a aparecer ao lado do cão, João Soares preso nos cipós arregalou os olhos sem poder gritar, pois Comadre Fulozinha tinha calado sua voz.

Luís Gomes tentou chamar seu cão, mas este não o reconheceu, parecia enfeitiçado. A imagem foi ficando nítida e foi revelando uma cabocla de longos cabelos negros andando ao lado do cão Jupy. A morte parecia ser a única saída, a situação estava a favor daquela mulher misteriosa que surgia sem falar qualquer palavra, seu profundo olhar dominava qualquer homem ou fera. Repentinamente tudo parou, toda caatinga ficou em silêncio, tudo e todos ficaram sem emitir qualquer som, nem uma folha caia no chão. A natureza parecia estar sob seu domínio.

Luís Gomes e João Soares ficaram as esperas da atitude da mulher misteriosa com olhos esbugalhados. Esta ordenou que os cipós largassem João Soares, este desceu devagar até chegar ao chão ficando ao lado de Luís Gomes. A cabocla de cabelos longos e pretos vagou em volta dos dois sem tomar qualquer ação. Após alguns segundos que pareciam horas, a mulher misteriosa parou, olhou-os fixamente e falou:

- Eu cuido desta mata e aqui. Só caça o animal que eu quiser e o dia que eu quiser. Domino toda a caatinga e se não tiver oferendas nenhum caçador vai sair vivo daqui. Este cão é o único que não açoito em noites longas, pois ele vem me fazer companhia para não esquecer que já fui como vocês.

Sendo observado por Luís Gomes e João Soares a misteriosa mulher continuava sua história:

-Quando muito jovem me perdi nestas matas e homens maus antes de vocês me encontraram, mas em vez de ser salva, fui estuprada, enforcada e enterraram meu corpo entre as raízes e folhas mortas dos grandes angicos, um pajé que invocava espírito viu tudo e me fez voltar à vida na promessa que eu tomasse de conta desta mata após sua morte. Desde então, ando por todo lugar tomando conta.

- Por que o assobio longo e arrepiante? – Pergunta Luís Gomes querendo saber deste mistério.

- Quando fui presa e violentada à única forma de pedir socorro foi emitindo um assobio, mas não chegava longe o suficiente para alguém ouvir, apenas um cão e o velho pajé conseguiu ouvir, mas nada puderam fazer, por isto hoje eu posso assobiar na intensidade que eu quiser, ainda poço me transformar no animal que quiser para confundir cães e caçadores em toda caatinga em noites de lua cheia.

- O que vai fazer com a gente, vai nos matar? – Pergunta João Soares assustado de olhos aflitos.

- Nada vai acontecer com vocês até amanhecer o dia, vocês devem contar esta história para que outros não desafiem a minha existência e respeite a mata. – Diz Comadre Fulozinha em tom suave.

- Amanhecer o dia! Como assim? Ainda é meia noite, podemos chegar a nossa casa daqui a pouco. – Diz Luís Gomes meio aflito.

- Vocês partirão desorientados e durante toda a noite vão vagar ouvindo os rumores e temores da caatinga para que respeitem e só venha aqui de novo com oferendas e em noites que eu autorizar. – Disse Comadre Fulozinha sumindo imediatamente do local.

Luís Gomes e João Soares começaram a andar sem rumo na mata escura, de vez em quando ouviam um latido de Jupy, mas não o encontrava, o único jeito foi aguardarem o fim da noite para voltar pra casa e esquecer por um bom tempo de caças e aventuras.

FIM!

Conto enviado por Léo Bargom para o Sobrenatural.Org
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