18 de fevereiro de 2014

Contos Assombrados: Assistente de Legista



O cadáver de um jovem bonito, másculo, tem um profundo impacto sobre a novata legista Luana, que começa a sentir um desejo incontrolável por ele...

O cadáver jazia sobre a mesa de mármore, coberto por um lençol.

Luana desligou o celular e respirou fundo. Seu primeiro plantão como assistente de legista e acontecia aquilo! Dr. Castro, médico legista responsável pelo IML, acabara de ligar. Tivera um problema com o carro e se atrasaria por, no mínimo, duas horas. Que saco, pensou Luana, mas tratou de dominar sua contrariedade. Tinha de se acostumar a ter muita paciencia e presença de espírito para exercer a função que escolhera.

Sua família e amigos haviam ficado muito contrariados e estranharam muito quando ela decidira ser assistente de legista. Como uma moça podia optar por aquela atividade macabra, passando dias e noites entre as paredes de azulejo do IML, ajudando a abrir cadáveres desfigurados, em decomposição, manchando as finas luvas brancas em vísceras putrefatas e sangue? Luana andou até a janela, mãos metidas nos bolsos do jaleco imaculadamente branco. Sempre quisera trabalhar num lugar daqueles. Estava com 25 anos, e desde muito pequena a morte exercia sobre ela uma misteriosa atração... poderia se dizer uma fascinação. A noite lá frora estava feia, sem lua nem estrelas, prometendo chuva. Bem, vamos ter de esperar, pensou Luana, acabando de chupar um Halls e aproximando-se da mesa, onde o morto parecia não ter a menor pressa em ser necropsiado e depois entregue a funerária, para ser vestido e enfeitado para o enterro. Antes do Dr. Castro aparecer e passar o atestado de óbito, nada disso era possível.

Ao lado, numa cadeira, estavam as roupas e alguns pertences pessoais do morto. Luana passou os olhos pelo RG. Rodrigo W. Júnior, 21 anos. Putz, era mais novo que eu, pensou Luana, sabendo que ali teria de lidar com todo tipo de situação trágica. O rapaz morrera num acidente de carro cerca de uma hora antes. Morte instantânea. Um trovão soou ao longe. Luana vacilou ligeiramente e puxou o lençol que cobria o corpo.

A ferida na cabeça era medonha. Somente isso teria sido suficiente para causar a morte. Os cabelos estavam empapados de sangue, que escorrera em fios escarlates pelo rosto e pescoço. Mesmo assim o rapaz era bonito, notou Luana com deliciosa morbidez, muito bonito. Estava completamente despido, os olhos muito azuis abertos numa expressão atônita.  Era como se ele não acreditasse na própria morte, nem no trágico acidente que a causara.


Luana pensou no desespero da família com aquela perda. E se fosse filho único? Percorreu lentamente, com o olhar, o corpo de Rodrigo. Os olhos cor de safira, a boca entreaberta revelando dentes alvos e perfeitos, a sombra de barba no queixo másculo. A pele branca, macia, o peito largo, coberto de pelinhos dourados que se tornavam uma mata de pelos...entre as coxas. Luana queria, mas não conseguia desviar os olhos. Não pôde deixar de constatar que o rapaz era bem dotado... e que seu membro estava ereto, pronto para a ação, como se a chamasse.

Ela sabia que isso podia acontecer, e a causa era completamente natural. Depois da morte, o sangue acumulava-se na parte inferior do corpo, às vezes produzindo uma ereção.  Um clarão seguido de um estrondo. A tempestade desabaria logo. Fascinada pela beleza de Rodrigo, Luana refletia como era terrível saber que tudo aquilo, dali a poucas horas, seria o alimento apodrecido de uma multidão de vermes. Mais uma vez seus olhos caíram no pênis ereto, grande e bonito como o resto, parecendo estar ainda vivo, cheio do desejo de uma vida em flor, mais uma vida estupidamente ceifada no trânsito. Perturbada, tornou a cobrir o cadáver com o lençol.

Saiu da sala e atravessou o corredor deserto, a cada momento aclarado pelos relâmpagos. Somente havia gente na outra ala do hospital, mas ali só estava Luana, sozinha com Rodrigo. Tão lindo... um príncipe. Entrou no banheiro, acendeu a luz, olhou-se no espelho. Achou que era atraente. Tinha olhos grandes, lábios carnudos e longos cabelos castanhos, naquela noite amarrados numa trança. Seu corpo era bem feito. Ao menos era isso que todos os seus namorados lhe diziam. Rompera com o último dois meses antes. Se ao menos o Dr. Castro chegasse logo, mas Luana sabia que ele ainda iria demorar, ainda mais com aquela chuva.

Em passos lentos voltou para a sala. Era estranho, inesperado, mas estava louca de desejo... os mamilos duros, a umidade indiscreta entre as coxas. Mordeu os lábios. Ah, se tivesse conhecido Rodrigo em vida... mas agora... seria tarde?

A chuva começou a desabar, pesada, no telhado do velho prédio. Luana estava de volta a sala onde jazia o corpo. Remexeu na bolsa, tirou um palito de incenso, acendeu, aspirou longamente a fumaça cheirosa. Rosas. Depois, aproximando-se, tornou a descobrir o corpo de Rodrigo. Ele pareceu-lhe ainda mais bonito, misto de doçura e sensualidade, um anjo adormecido. Luana contemplou-o, o coração aos pulos. Estaria muito gelado? Inclinando-se, colou seus lábios aos dele num longo beijo.

Sim, os lábios dele já estavam gelados, mas ainda assim eram doces, macios... Luana continuou a beijá-lo, a explorar com a língua aquela boca inanimada, mas mesmo assim tão gostosa. Alucinada, começou a despir-se. Jogou para longe o jaleco, o vestido, a calcinha suada pelo calor e pelo desejo. Nua, subiu sobre o corpo de Rodrigo, roçando-se nele, sentindo-o inteiro. Ardia de luxúria, de desespero, queria aquecer seu corpo com o dela, insuflar sua própria vida nele. Seus mamilos roçavam no peito de Rodrigo, arrancando-lhe gemidos de prazer, seu triângulo de pelos mergulhava contra o membro ereto. Sentindo-o todo dentro de si, Luana começou a cavalgá-lo loucamente, sentindo um prazer que nunca sentira antes, tentando não gritar, até que explodiu num gozo intenso, completo, como se houvesse sido atingida no ponto G... lá fora a tempestade desabava com toda a fúria.

Luana acordou sem saber onde estava. Suas mãos roçaram o piso gelado. Estava nua, caída ao lado da mesa onde jazia o corpo de Rodrigo. Perdera a noção do tempo, achou que sonhara, que teria desmaiado. Vestiu-se depressa, querendo saber as horas. Aquilo seria mesmo real? Olhou mais uma vez para o cadáver. Agora seu membro estava flácido e murcho. Dr Castro deveria estar chegando... o perfume do incenso pairava no ar.

De repente Luana sentiu alguém segurá-la pelo pulso. O toque de uma mão firme, mas carinhosa e quente... muito quente. Uma profunda voz masculina soou ali naquela sala, em meio a tempestade.

- Onde você vai Luana? Você agora é minha, minha mulher, para toda a eternidade. Vem comigo, meu amor, minha deliciosa mulherzinha...

Então foi Luana quem ficou gelada como um cadáver! Uma dor aguda trespassou-lhe o peito, enquanto um terror, para o qual não existe nome, a invadiu. E ela caiu fulminada sobre o cadáver de Rodrigo... morta também.

Mestre Edgar Allan Poe, um abraço.

FIM!

Conto enviado por Chiara para o Sobrenatural.Org
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