25 de fevereiro de 2014

Conto Assombrado: O Sacrifício Maldito (Nasce um novo Serial Killer!!!)

Uma família feliz vivendo em sua pequena propriedade rural onde tinham um milharal. Infelizmente, o destino quis que uma tragédia acontecesse, trazendo vida a um novo serial killer: "O Espantalho".

“Quando a maldição se torna real, as asas negras da morte fazem sombras aos que vivem!”

Em alguma cidade pacata e enigmática de um interior qualquer - 1983.

Parecia ser um final de semana qualquer em que Jacob Turner e seu filho Noah - de apenas seis anos - ficariam juntos, enquanto sua esposa iria à cidade vizinha ver a mãe que se encontrava debilitada por um câncer que a consumia em uma velocidade incrível. Aquele dia nublado e aparentemente comum entraria para sempre na história daquela afável família.

Jacob era o tipo de homem que você pode chamar de caipira. Trabalhava vendendo tratores e outras máquinas agrícolas, era o dono de uma pequena fazenda e mantinha em frente a sua casa um grande milharal que usava na sobrevivência de sua família. Ele era um grande fã de Johnny Cash e duas de suas maiores jóias eram uma vitrola antiga herdada de seu pai e sua coleção de vinis de Cash, que pareciam até nunca terem sido usados de tão intactos que estes materiais estavam.

Era fácil observar o amor incondicional que Jacob sentia por seu filho, pois mesmo exausto e debilitado pelo esforço de um dia árduo de trabalho, ele ainda guardava energia para contar histórias todas as noites para o seu pequeno Noah adormecer. O Sr. Turner era um homem de aparência vil e semblante um tanto quanto soturno, não aparentava gostar da idéia de ser alguém extrovertido e sociável, preferia ter como espelho o seu falecido pai, que o alertava sobre o os ditames vitais, sempre exaltando a arte de introspectividade dizendo: "O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura...".

Era uma manhã de sexta-feira quando a Srª Turner avisou que estava se arrumando para partir rumo ao hospital, pois sua mãe teria sido internada em estado crítico. Durante a tarde, já sozinho com o filho, Jacob resolveu sentar-se em sua velha cadeira de balanço na varanda da casa enquanto deixava a agulha da vitrola sutilmente se arrastar pelos seus discos do Johnny Cash e propagar as belas canções que lembravam sua infância, ao mesmo tempo em que o seu filho se divertia correndo milharal adentro com o avião feito de madeira pelo próprio pai.

Noah corria em meio às fileiras da plantação quando se deparou com um ser esquisito, era outra criança, todavia estava mais pálido do que o normal e o seu olhar parecia um tanto quanto taciturno e inquieto. O menino, detentor de uma aparência mórbida e um olhar que suscitava calafrios, supostamente devia ter a mesma idade que Noah. Ele correu rumo ao outro lado das fileiras, acenou para ele - Noah observara que as mãos do menino estavam sujas de sangue - e gesticulou para que ele o seguisse. Sumiu repentinamente. Noah, curioso por nunca tê-lo visto pelas redondezas, o perseguiu até chegar ao centro do milharal, onde se deparou com o cadáver de seu gato de estimação - o Snuggles - que havia sumido há alguns dias atrás. Ao aproximar-se do cadáver do felino, Noah sentiu um vento frio lhe atravessar o corpo e ouviu um leve sussurro que falava "quem segue aos que já se foram, se ajoelha aos pés da morte...".Seguidamente, Noah desmaiou e foi brutalmente alvejado por bicadas de um bando de corvos vorazes, e enquanto gritava por socorro, teve seus olhos arrancados pelos pássaros negros que naquele momento ceifavam a vida de um garotinho que mal sabia se defender, um menino que sonhava em ser fazendeiro como o seu pai. Os gritos emitidos por Noah esgueiravam-se pelas fileiras no exato momento em que a chuva começava a cair. Se Deus existe, seria essa chuva lágrimas pela tragédia que ali acontecia? Triste coincidência morrer em um milharal.

Enquanto isso, Jacob havia ido à garagem da casa para testar algumas máquinas agrícolas que haviam sido consertadas no dia anterior. Entre um ronco e outro dos motores, Jacob ouviu seu filho gritar. Logo veio a angústia e um forte aperto no coração se fez presente; foi questão de segundos para a sua boca secar e ficar como chão árido do deserto, aquele sentimento voraz e vil escorria pela garganta, parecia furar como uma agulha cada ventrículo do seu coração. Ele invadiu o milharal gritando desesperadamente e após correr a esmo por alguns minutos, ficou diante de uma cena chocante: seu filho já desfalecido e sem um dos olhos em debruçado numa poça de um sangue que exalava inocência, enquanto vários corvos arrancavam as entranhas do menino. Jacob atacou os corvos com sua espingarda e o único deles que conseguiu acertar, rasgou em pedaços com as próprias mãos, sem uma gota de piedade. Logo após, jogou-se por cima do corpo frio e sem pulsação do filho. Chorou como nunca havia chorado antes e ficou estático por um breve tempo, segurando as mãos frias e sem vida de Noah, enquanto vinham em sua mente incontáveis lembranças dos bons momentos com seu filho. Ali nascia um trauma insuperável.

Ainda enxugando as lágrimas, o Sr. Turner levantou-se, partiu em direção à sua casa e ligou para a mulher, que ao saber da tragédia o culpou por toda a desgraça e só voltou para buscar algumas roupas e claro, despejar alguns insultos para o marido. Depois disso, ela nunca mais foi vista, nem mesmo por sua mãe, que morreu sem vê-la novamente.

A polícia, que chegou à fazenda praticamente junto com a mulher de Jacob, chegou até a levá-lo à delegacia e oferecer suporte, mas ele - que não parecia querer abrir a boca - apenas negou o auxílio e partiu. Abatido e profundamente inconformado, sentia que agora a loucura habitava naquela residência onde outrora havia sido o refúgio de uma família feliz. Olheiras, unhas grandes e sujas e a barba mal feita davam-lhe a impressão de que ali já não existia mais um homem, mas sim uma besta selvagem. Talvez pelo acesso de culpa por nunca ter colocado espantalhos em seu milharal, Jacob começou a se vestir como um e vagar pelo milharal durante as madrugadas seguintes. Até que um dia, em meio à suas andanças pelas fileiras, encontrou uma jovem da vizinhança chorando, completamente ensanguentada. Observando escondido pelo milharal, ouvia a moça sussurrar durante o choro: - Deus, quanta dor! Não sabia que um aborto doía tanto! Acho que vou morrer... - Camuflado entre tantas folhas, Jacob observara aquilo com a pupila dilatada e algo esquisito começou a circular em suas veias após ouvir a palavra “aborto”. Aproximou-se imperceptivelmente, não só por cuidado como também porque a dor não permitiria que a jovem percebesse sua chegada. Jacob parecia estar possuído e só conseguia pensar em como aquela moça teria coragem para desperdiçar a vida de um filho. O gosto de ácido que o medo traz se propagava em sua boca. Através do labirintos oblíquos de sua mente, o Sr. Turner estava inconformado, pois tudo que ele queria era o seu pequeno Noah de volta e ver alguém matando sua própria cria, era algo inadmissível. Movido pela revolta, atacou a moça e a enforcou, assim a conduzindo aos sombrios portões do Hades.

Algo realmente devia ter dominado o corpo de Jacob; seu olhar agora era frio, o seu semblante se tornara plenamente maligno. Caminhou até o celeiro, buscou um saco de estopa que se encontrava em meio ao feno que por ali espalhava um cheiro bem agradável, porém não notado pelo homem desalmado que havia se tornado, voltou tranquilamente e pôs o corpo da vítima e o feto dentro daquele grande saco, e arrastou-o até o galpão. Jacob começou a empalhar a adolescente e em seguida a transformou em uma espécie de espantalho, usando algumas roupas antigas suas.  Quando observou que seu rosto havia ficado extremamente deformado graças aos arranhões que tinha recebido - e sentindo uma estranha repulsa vendo a sua face desfigurada - instintivamente retirou o feto da sacola, pois tinha lhe ocorrido uma idéia: fazer uma máscara com o feto e depois aprimorá-la com a pele de outras mulheres que cometessem o mesmo erro daquela jovem: Ali nascia "O Espantalho".

O sorumbático Sr. Turner de alguma forma já estava morto - não fisicamente, mas a sua alma não habitava mais em seu corpo - e agora só restava a certeza de algo maligno residia em sua mente. Um conjunto de perturbações e a memória do que havia acontecido naquela madrugada deixava o "Espantalho" cada vez mais sedento por sangue, a vontade de criar mais espantalhos com os cadáveres de mulheres da região era incontrolável.

Certa vez, uma fita antiga foi encontrada e levada até o departamento policial local. Nos 20 minutos de gravação, o “Espantalho” surgia em meio às sombras dos fundos de um quarto, dizendo:

"A grandeza dum espírito está na pluralidade e plenitude da sua sensibilidade. Todo o vasto espírito é sempre um tanto santo e outro tanto demoníaco. Todo o artista exagera ou dilui, aviva ou simplifica. As palavras nos permitiram elevar-nos acima dos brutos; mas é também pelas palavras que não raro descemos ao nível de seres demoníacos"

A seqüência disso foi uma verdadeira barbárie; o Sr. Turner, obviamente transtornado por todo o ódio do mundo, atacava uma vítima e arrancava seu útero. Enquanto as atrocidades eram realizadas, o Espantalho sorria exageradamente enquanto o sangue espirrava em seu rosto. O vídeo que evidencia os últimos momentos daquela mulher se tornou ainda mais popular quando a fita com esta gravação sumiu dos arquivos da delegacia.

O tempo foi passando, garotas da região desapareciam ininterruptamente, e a quantidade de espantalhos no milharal do Sr. Turner aumentava de forma esporádica até que um dia, desconfiados com todos os acontecimentos sinistros, moradores invadiram a casa da família Turner, depois de alguns vizinhos se incomodarem com o mau cheiro que emanava de lá, e se depararam com um corpo em estado de decomposição. Ao lado esquerdo do corpo uma carta manchada de um sangue coagulado onde Jacob assumia a culpa pelos desaparecimentos das jovens e relatava toda a sua insanidade, e ao lado direito, uma Bíblia aberta numa página onde havia o seguinte texto marcado:

"A mim pertence à vingança e a retribuição. No devido tempo os pés deles escorregarão; o dia da sua desgraça está chegando e o seu próprio destino se apressa sobre eles." Deuteronômio 32:35

Um assassino? Uma lenda? Não se sabe, o que nos resta de fato é a certeza de que precisamos ter cuidado com aqueles que não sabem lidar com grandes perdas. E quando a loucura faz da mente do homem a sua morada, viver se torna uma maldição, um delírio de uma febre que nunca irá passar, apenas mais um sacrifício maldito.

Esta foto foi a inspiração de André Nadler Serra para escrever este conto. Ela faz parte do seu novo CD que será lançado em breve.
Conto de terror enviado por André Nadler Serra. Enviei o seu também!
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