7 de janeiro de 2014

Contos Assombrados: Curva da Morte

Parecia uma noite qualquer, um fim de inverno que antecede a primavera. Eu e três amigos estávamos voltando de uma festa, uma noite clara com lua cheia e clima confortável, duas horas da madrugada, apesar do cheiro de bebidas e o desconforto da possível ressaca do dia seguinte, tudo perecia bem. Em um opala preto, quatro portas, ano 78 seguíamos pela via Estrutural, pista que dá acesso à DF 001 para Brazlândia. Quando entramos na DF 001 sentimos um alívio que acontece quando estamos no caminho certo para chegar em casa e descansar. A sonolência e o cansaço tomavam conta de todos, tentei não adormecer para garantir nossa chegada sem acidente. Quando passamos próximo ao Parque Nacional de Brasília, no quilômetro 90 da DF 001, o tempo começou a ganhar um aspecto diferente, começou a ficar nebuloso e a esfriar. Quanto mais andávamos mais o tempo se fechava e a neblina ficava mais densa, o frio parecia não ser real para o mês, porque próximo à primavera o calor é predominante nessa região.

Quando começamos a nos aproximar da BR 080 onde fica a "Curva da Morte", a neblina era tão intensa que não víamos quase nada. Achei estranho e tentei acordar os bêbados sonolentos que estavam comigo. Após uns sacolejos, Vila acordou assustado com a escuridão, preocupado sacolejou Zete, este com os olhos esbugalhados com a escuridão que se encontrava ficou em pavor. Zete tentou acordar Tiele que se encontrava no banco de trás, mas este só encostou-se na porta lateral do carro e ficou em seu sono profundo. Com a intensidade da neblina, o medo foi tomando conta da gente, acelerei o máximo para tentar sair da escuridão, mas não podia arriscar. A neblina ficava cada vez mais densa e parecia que a gente não saia do lugar. Quando chegamos próximo à curva, apareceu um foco de luz dentro da neblina e esta nos guiou. Quando chegamos perto, em meio a luz tinha um vulto de uma pessoa.

A luz ficava em sua volta, era brilhante e quanto mais a gente se aproximava mais claro ficava em meio à neblina, e o vulto ficava mais nítido. Não tinha controle sobre a velocidade do carro, pois estávamos indo direto para a luz sem qualquer domínio. Quando o vulto foi ficando nítido, observamos que se tratava de uma mulher, o brilho em sua volta mostrava que estava com um vestido branco, com detalhes em renda, um vestido que não se encontra em loja, vestido de noiva feito por encomenda, coisa de tia ou mãe caprichosa para um casamento especial. Cada vez mais próximo, o medo tomava conta, o arrepio dos cabelos, o frio tocava os ossos, olhos esbugalhados, sem palavras, só olhares tensos e assustados. Em um movimento lento a mulher levantou a mão, como se pedisse para parar, ficamos sem saber o que fazer: Parar? Tentar acelerar? Sair dali de qualquer forma?... Havia poucos segundos para tomar a decisão. Mas qual?

Ao ficar diante da tal mulher, esta levantou a cabeça, seu rosto apareceu entre seus cabelos longos e pretos, mostrando seus olhos grandes e tristes e os fixou em nossa direção. O que fazer? Como fazer? Qual a saída? O medo era enorme, a neblina intensa, o frio, o arrepio, movimentos limitados como se ficasse preso na tristeza dos olhos dela, tudo girava, tudo acontecia em segundos, em um movimento de alta defesa ou de reação instantânea consegui continuar acelerando o carro, passamos da mulher, mas o carro não conseguia desenvolver velocidade. Em certo momento sentimos que a deixamos para trás, mas quando olhei pelo espelho interno do carro ela estava sentada no banco de trás, entre meus amigos, de braços abertos como se fosse abraçá-los, gritei tentando avisá-los, mas parecia que eles não a viam. Meu amigo do banco de passageiro conseguia vê-la e tentava pular do carro, eu tentava puxá-lo de volta.

Por instantes o desespero tomou conta de todos nós, até o sonolento acordou procurando o que estava acontecendo e começou a falar coisa com coisa. Suas palavras estranhas saiam sem controle: “Quando passar por aqui sempre dê carona quando solicitado, nunca deixe alguém na beira da estrada no frio”, “Se não parar eu entrarei e seguirei viagem, é só olhar o espelho interno que estarei em sua companhia”, “Se parar poderá seguir viagem em paz, pois considero uma carona”. 

De repente saímos da neblina, o céu estava claro com uma lua enorme e muitas estrelas, o tempo voltou ao normal e o clima confortável. Tudo estava como antes, menos meus amigos que estavam com uma expressão de que nada tinha acontecido, tentei falar sobre o assunto, mas nada os faziam lembrar-se do ocorrido, apenas diziam: "Você bebeu muito e ainda confiamos você dirigindo. Isto que nos deixa com medo".  

Muitas são as histórias da curva da morte, acidentes, carros saindo da estrada, sonolência repentina, neblina, aparições de animais repentinamente na pista... mas o que é estranho, é que todos os envolvidos nos acidentes esquecem o que realmente aconteceu ou não sabem quem causou o acidente. Então, ao passar nestas rodovias que se encontram na curva da morte, fiquem atentos entre a DF 001 km 90 e a BR 080 km 02. São em noites enluaradas, ou às vezes chuvosas, quentes ou frias. Não tem uma noite determinante em si, somente o inesperado. E que todos tenham uma única certeza: isto ainda não parou de acontecer.

Conto gentilmente enviado por Léo Bargom e publicado originalmente no Sobrenatural.Org
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