28 de janeiro de 2014

Contos Assombrados: Cão Negro

Ela e o irmão voltavam da escola no fim da tarde. Eles seguiam pelo caminho de sempre, uma estradinha de terra e cascalho que cortava plantações de soja, pinheiros, eucaliptos e mata nativa. A estrada estava deserta. Quando chegaram ao começo de uma baixada, onde os pinheiros altos e frondosos encobriam a luz crepuscular e deixavam o ambiente carregado de lugubridade, ouviram um ruído vindo de uns arbustos do lado direito. Estacaram. Nada viram. Continuaram. Não deram dez passos quando ouviram outro ruído, agora vindo detrás deles. Pararam e se viraram. Havia um cão negro sentado, a olhar para eles. O animal era desproporcional e medonho. Seu corpo era grande. Sua cabeça era pequena e pontuda. Seus pelos eram compridos e desgrenhados. Sua boca com dentes amarelados estava entreaberta, num esgar macabro. Seus olhos eram vermelhos e vidrados. O sangue dela gelou, um arrepio percorreu sua espinha, sua boca ficou seca. Ela e o irmão trocaram olhares com o cão durante alguns segundos. E durante esse tempo, a brisa que soprava parou, o ar ficou frio subitamente e todo o rumor de grilos, cigarras e outros bichos cessou. Quando a situação chegou ao limite do suportável, o cão fez um meneio com a cabeça, como se dissesse "vão". O irmão e ela se viraram lentamente e começaram a andar com passos calculados. Após alguns metros, ela olhou por cima do ombro direito. O cão havia desaparecido. Os dois apressaram a marcha. Avistaram a casa onde moravam com os pais e mais dois irmãos menores antes do sol se pôr. Silenciosamente, eles fizeram um pacto para não falar sobre o ocorrido. Durante o jantar, o pai comentou algumas vezes sobre como a noite estava estranha, silenciosa. Terminada a refeição e a arrumação da cozinha, todos foram para a sala para rezar o terço. No meio de uma das orações, um barulho fez todos se sobressaltarem. O crucifixo que ficava acima do móvel da TV tinha caído. Todos acharam estranho, pois não havia corrente de ar. A mãe colocou o crucifixo no lugar e eles continuaram com as orações. Quando finalizaram, foram dormir. Ela acordou com um sussurro em seu ouvido esquerdo. Olhou para o lado onde ficava a cama do irmão. Ele não estava lá. O pequeno relógio que ficava num criado-mudo marcava três horas e estava parado. Um impulso a fez sair da cama e andar pela casa. O silêncio era absoluto. Chegou à cozinha. O relógio que ficava na parede do fogão a lenha também marcava três horas e também estava parado. A porta da área de serviço estava entreaberta. Ela pensou no irmão e saiu. Guiada por uma sensação de angústia, seguiu pelo caminho que levava à área onde ficavam uma pocilga, um curral e um celeiro. O portão do celeiro estava escancarado. Ela entrou. Pés pendiam e balançavam suavemente. Ela olhou para cima. Seu irmão estava enforcado. O choque a fez desabar por dentro. Ficou paralisada. Um vulto a despertou do torpor. O cão negro estava sentado a seu lado. Ele olhava para corpo. De repente, virou a cabeça e a encarou com aqueles olhos vermelhos. Vermelhos e vidrados.

Conto assombrado enviado pelo leitor Gustavo Guedes, que se inspirou em fatos reais para escrevê-lo. Envie o seu também!


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