26 de novembro de 2013

Contos Assombrados: A Bruxa do Cristal


Descendo uma estrada atrás de uma pequena serra, nas cercanias da minha cidade, existe um descampado íngreme e verdejante, margeando um tranquilo rio - onde descansa um antigo moinho que lembra uma cabana velha - e que se tornou o principal responsável pela lenda que acabrunha tal insólita paisagem.

Muitos falam de uma tal bruxa que fica a vagar por aqueles meandros malditos, sobretudo à noite e pela manhãzinha, quando a neblina do rio é especialmente densa e misteriosa.

Corre que a Azamora vem ai! - gritam os pais aos filhos pequenos, na tentativa de amedrontá-los.

Quem fez isso? -Foi a Azamora! -responde um engraçadinho qualquer, para se livrar da pergunta...

E assim fica - Azamora pra cá, Azamora pra lá - de boca em boca. Até que um dia, coisas estranhas começaram a acontecer...

Luzes estranhas eram vistas no céu, como mães do ouro ou boitatás, do nosso folclore - que de folclore não tem nada, (e isso é só uma observação), gritos medonhos e finos ouvidos na distância perto do rio, e vultos enormes e negros rasgavam a noite, vez ou outra.

Logo, um morador mais atuante, reuniu todos na porta da velha igrejinha, na esperança de achar um otário (corajoso) pra ir ver se a origem dos boatos tinha razão de ser. Como sempre fui ota... corajoso, e necessitava mostrar a minha macheza para a Rosinha - filha maravilhosa do João boca de cavalo, dono de uma chacarazinha perto de casa - candidatei-me, na certeza de que outros se candidatariam também, e eu então, não seria o escolhido. Seria apenas lembrado como "um dos cara corajosos que se candidataram"...
Dois minutos depois, e eu já estava me dirigindo com um arsenal anti-bruxas para a margem do rio - sim, isso mesmo, ninguém se candidatou a tal sandice, como era de se imaginar. Cederam-me totó, como companhia, o até então mais bravo cachorro da cidade – rezava a lenda – mas a braveza dele durou só até avistar-mos a primeira bruma da tarde e o fantasmagórico moinho através da neblina... depois disso, não vi mais totó...

Desci combalido o morro que terminava na margem do rio, estava devidamente armado de uma enxada, rastelo, dois chuchos (coisa de chuchar - enfiar - em alguém), algumas pedras, um isqueiro que descobri depois estar sem gás, e uma imagem de santo expedito.

Nem bem cheguei, e um dilacerante grito de horror, saído sei lá de onde, congelou a minha alma e expulsou a imagem do santo do papel no qual estava impressa, tão mais rápido quanto o raio que acabava de cortar os céus sobre a minha cabeça.

Como correr? Eu estava perdido na neblina, e só enxergava a maldita cabana! Eu tinha de entrar sob pena de ser alvo mais fácil ali fora do que lá dentro. Eu estava agindo mais ou menos como faz um avestruz que enfia a cabeça na areia, e fica com o resto do corpo todo pra fora. Assim, sem muitas escolhas, atravessei a porta da insossa choupana, cruzando o limiar entre a razão e a insanidade, se é que eu já não o tinha cruzado. Pois é, eu estava dentro da casa de Azamora, torcendo para que ela realmente não passasse de uma lenda, e qual não foi a minha surpresa, quando dou de cara com uma maldita bruxa de estilo "tradicional" bem na frente do meu nariz! (A maldita nem deixou eu ter tempo de ter esperanças). Estilo tradicional, entenda-se: velha, corcunda, gagá, roupa preta, vassoura, cabelo de milho, nariz comprido e verruguento... Papagaio! Vai ser azarado assim no inferno – pensei com propriedade - e do jeito que entrei já dei meia volta pra sair. Mas, cadê a porta que eu tinha acabado de atravessar?!

Azamora deu um risinho, daqueles que fazem você engolir seco e pedir pra morrer depressa só pra não ver o que vai acontecer depois. Quer dizer, analise a situação: preso, dentro de uma cabana pulguenta, com uma mulher horrível (acho que era mulher, mas não colocaria a minha mão no fogo), as mesas e prateleiras cheias de ratos e baratas vivos, e cabeças e órgãos humanos empalhados, e, se eu já não estivesse ficando louco, fazendo discretos movimentos, como se ainda lhes restassem um quê de vida!... Inclusive, de pronto, identifiquei uma das cabeças como sendo a do Marivaldo, que todos pensavam ter ido virar jogador de futebol na capital, e pra quem eu devia 5 reais.

Seja bem vindo, minha criança! - Falou a bruxa - Já que entrou de livre vontade em minha casa, por que não puxa uma cadeira e se senta?

A única cadeira em condições de ser usada naquela bagunça toda era a que sustentava a cabeça de Marivaldo! Acho que foi meio no impulso, ou no pavor mesmo, que resolvi atender ao pedido da bruxa, no receio de contrariá-la e tentei agir o mais naturalmente possível...

Peguei a cabeça de Marivaldo, cuidadosamente, e coloquei-a no chão.

Cadê os meus 8 reais? -Me cobrou de primeira. E ainda com os devidos juros.

- Depois falamos disso. -Ri sem graça. Isso lá era hora pra uma coisa dessas?!

A bruxa me serviu uma bebida - o que gentilmente eu dispensei - e se aproximou de mim, amistosamente:

- Você é corajoso, ou burro demais pra vim aqui - disse ela, balancei a cabeça sorrindo, pois não entendi se aquilo havia sido uma pergunta ou uma afirmação...

Ela continuou:

O que acha que vou fazer com você agora?

Engoli seco de novo. Mas respondi:

- Me... me deixar sair, e ir embora pra casa?...

Ela enfiou a mão no decote , e puxou alguma coisa redonda do soutien! Nessa hora eu desejei estar no lugar de Marivaldo, ou empalhado, mas logo mudei de idéia, quando percebi que não passava de uma bola de cristal...Ufa!

Ela a colocou em cima da mesa, e disse:

- Observe. Observe atentamente...

Comecei a ver um grande vale onde cresciam, como se brotassem do chão, imensos cristais de quartzo! Eram brancos, rosas, azuis, vermelhos, etc. Do tamanho de um homem, até maiores que uma casa! Era uma região desolada, tomada pelos cristais, e de onde até mesmo as nuvens do céu procuravam afastar-se, e isso criava um enorme círculo no azul do céu sobre os cristais. No meio do vale, havia um único ser vivo, uma rosa azul maravilhosa!

Traga-a para mim, e te libertarei. - disse Azamora.

Era isso, ou virar um eterno e macabro enfeite pendurado na parede da bruxa. Mais ou menos como viver no Brasil...

Azamora cuspiu no fogo que crepitava em sua velha lareira, e a este ato, abriu-se numa explosão, um portal que me levaria direto ao vale de cristal.

E lá estava eu. À entrada daquele estranho lugar, e imbuído de uma ingrata missão da qual sequer fazia ideia do desfecho, embora a minha imaginação fosse suficientemente fértil para poder imaginar.

O vale começa por diminutos cristais, que iam aumentando à medida que se entrava mais para dentro. Primeiro, do tamanho de homens, e depois, tão grandes quanto casas! No início da caminhada, o vale era até bonito, mas com o tempo, e quanto mais se penetrava naquela densa floresta de pedras, a coisa se tornava realmente sinistra... Os grandes cristais se entrecruzavam sobre a minha cabeça, formando um grande teto ou cúpula, que dificultava a passagem da luz por sua superfície translúcida. Isso jogava todo o ambiente numa penumbra multicor bizarra e claustrofóbica. Mas a coisa ficou feia mesmo, quando encontrei, na junção de dois caminhos, figuras humanas semi-cristalizadas, com sorrisos satisfeitos, imortalizados no rosto pétreo daqueles que tocaram nos cristais. Algo, ou alguma coisa, fizera com que tocassem naquelas pedras... e percebi que isso não era uma coisa muito inteligente de se fazer. Visivelmente, os cristais sugavam a energia vital daqueles que os tocavam, e me pareceu que mesmo um leve esbarrão seria o suficiente para condenar para sempre alguém que por ali se aventurasse a passar.

E então, ainda perdido em meus pensamentos, eis que um grande cristal ao meu lado se acende, como se fosse uma imensa tela a reproduzir uma perfeita imagem tridimensional!

Ahh...sim... caminhava em minha direção, uma bela imagem da doce Rosinha, com todas as características da realidade, até mesmo o perfume que ela usava alcançou o meu apaixonado nariz... Era ela sim... Ainda mais maravilhosa! E não fui eu, afoito em sua direção, para abraçá-la e beijá-la, quando, de tanto apanhar e sofrer na mão dela, lembrei que jamais a Rosinha verdadeira iria me dar alguma bola, ou mesmo caminhar com tanta sensualidade e com os braços erguidos, reclamando um abraço!

Claro, era uma armadilha, e à minha hesitação, o cristal brandiu e urrou, e uma estranha mão saiu de dentro dele tentando me agarrar, que o mesmo se partiu em mil pedaços bem pequeninos!

- Parabéns, criança! - era a voz de Azamora, que surgiu do nada.  - Você conseguiu, e venceu o teste do cristal. Agora, traga a rosa azul para mim!

A bela flor estava a poucos metros de mim. Crescia impávida e altiva, de pétalas robustas e brilhantes, de um azul difícil de descrever.

Assim que a colhi, fui automaticamente transportado de volta para o velho moinho, casa de Azamora.

Cadê os meus 10 reais?! -Outra vez fui cobrado pela cabeça de Marivaldo, mas dessa vez preferi ignorá-lo.

A bruxa avançou afoita em minha mão, e arrancou dela a bela flor que eu trazia. Mergulhou as pétalas da rosa num pequeno cálice com água quente, e tomou!

E não é que aquele asqueroso ser se transformou, lentamente, numa linda e bem abençoada mulher diante dos meus olhos! Uma verdadeira modelo de dar inveja a qualquer mulher que se julgue fantástica sob este céu, das cataratas do Iguaçu até as montanhas do Himalaia, passando também por Bombaim, Praga, Tóquio, Atlantis, Belo-Horizonte, Cidade do cabo (não, Cidade do cabo, não) e qualquer outra cidade que uma fértil imaginação possa conceber!

Você está livre, e a sua cidade também! - disse Azamora.

E dizendo isso, partiu feliz, disse-me que iria tentar a sorte na cidade grande, num tal programa de televisão chamado big bode, ou pingue-pongue, ou algo assim...

De fato, algum tempo depois, pareceu-me tê-la visto apresentando um programa de entrevistas, mas não dei maior atenção ao caso.

Quanto a Marivaldo, deixei sobre a mesa os 10 reais da minha dívida, que na verdade eram cinco, mas devido a alta do mercado de ações e dos juros exorbitantes, assim como o aumento do salário mínimo, viraram 10.

Três anos depois, lembrei-me de que ele não tinha mais braços e nem pernas, e voltei à velha cabana para deixar o dinheiro mais perto da sua cabeça... mas ele já tinha atravessado meio cômodo com a língua, e no exato momento em que cheguei, ele escalava com certa dificuldades o pé da mesa, e ainda proferia palavrões escabrosos usando o meu nome, e decidi voltar pra trás, mas não sem antes parabenizá-lo por semelhante habilidade. O que tempos depois encontrei-o juntamente com totó, juntos num circo, fazendo os números da cabeça que anda sozinha e do desaparecimento, respectivamente.

Quanto a Rosinha, desisti dela... sabe né... beleza não põe a mesa... e no mais, na correria de Azamora, ela deixou um pequena pétala da rosa cair no chão........

E, claro, eu a peguei.... e a dei como um delicioso chá para Josefina tomar... ( Josefina era a menina mais feia do bairro, quiçá da cidade! Porém, era um doce de pessoa, e me amava em segredo... e isso era o que importava).

Hoje, vivemos no principado de Mônaco, e sou sustentado por Josefina, que adotou um nome mais condizente com a sua atual beleza, e vive de passarela em passarela, ganhando rios de dinheiro. E me amando... não mais em segredo!

Conto assombrado enviado gentilmente por Jeff London. Tem algum conto e deseja ver ele publicado aqui no blog AssombradO.com.br? Então clique aqui!
Comentários