4 de outubro de 2013

Minha História Assombrada: Alguém morreu e não fui eu

É sabido que muitas vezes, e não raro, a pessoa não se dá conta de que morreu. E mais: passa a coabitar ambientes como casas, ruas, shoppings, igrejas, sem que perceba que ela já não faz mais parte desse mundo. Até aí tudo bem, né? Mas o problema ocorre quando o surpreendido está do lado de cá. Quando o acaso serve de mensageiro da morte.

Há dois anos soube de caso assim. Uma história simples como devem ser as boas histórias. Desta vez não vou poupar o nome da cidade visto que o nome é bonito, místico até e a cidadela é de tal charmosa e elegante que seria um delito não mencioná-la. Falo de Maria da Fé, Minas Gerais, claro. Outro dia me perguntaram porque tudo acontece em Minas Gerais. Eu tenho uma resposta. E qualquer dia, se alguém assim desejar, eu conto.

Fui a Maria da Fé para contar uma história de amor que acabou em tragédia. Não contei. Pelo menos não publicamente. Mas irei contar. Numa outra hora. Em outro lugar. O fato é que lá chegando me deparei com o que passo a narrar agora:

Há uma simpática pousada numa das entradas da cidade. Construída com cuidado, na beira de uma estrada e às margens do rio. Erguida com a força e o suor de um senhorzinho há coisa de 40 anos, foi o ganha-pão da família por muito tempo. Ele, mulher e filhos a construíram a mantiveram com extremo amor e carinho. Casais, especialmente de São Paulo, se apaixonaram pelo lugar: comidinha simples, muitos pássaros, verde a toda volta, enfim. Um paraíso. E também um tédio. Especialmente para quem gosta de aventura. Um jovem a fim de agito deve repensar se Maria da Fé é o melhor destino. Lá é lugar para apreciar boa comida, boa cachaça, cachoeira, azeite (há uma produção artesanal local). Maria da Fé é o charme em pessoa. Ou em cidade. Disso ninguém pode discordar.

Certa vez um casal que estava acostumado a passar feriados e as férias escolares dos filhos por ali, telefonou e falou apenas com a dona da Pousada, dona Lucila, se podia fazer a reserva para 15 dias. Ela concordou. Estava com a voz menos animada do que de costume. Mas procurou mostrar alegria, simpatia, enfim, os ingredientes aos quais os velhos hóspedes se habituaram.

Marcada a data, os hóspedes, um empresário paulista, esposa, três filhos e babá, chegaram no início da noite. Naquele lusco-fusco, sabe? Pois é. Bom. Portão de carros aberto, como era o costume nos fins de semana. Eles entraram gramado adentro, deram duas buzinadinhas (pam-pam) e invadiram. Seu Manel, o proprietário, saiu pelo gramado para recebê-los, e fez sinal guiando o automóvel até a calçada onde deveriam parar o carro. O empresário estacionou diante da porta principal, mas Seu Manoel sinalizou para que parasse alguns metros mais a frente para que coubesse um outro carro que chegaria. O empresário obedeceu. Desligou o carro, abriu a mala com o botão interno, e antes de sair a família já foi recebida por Dona Lucila. Foram os cumprimentos de parte a parte, beijos, presentinhos de Natal, felicitações. A mulher do empresário notou, ao vir o rosto de Dona Lucila, que algo não ia bem. Mas esperou para perguntar dali a um pouco. Longe das crianças. Os empregados levaram as malas para os quartos (dois haviam sido reservados) e o empresário notou que em vez daquele de costume, uma suíte que ficava diante do jardim, o levaram para uma outra, do segundo andar: mais ampla, vista livre para o rio, diante de um pé de Ipê roxo maravilhoso. Ele sabia que o quarto pertenceu ao casal dono da pousada. Mas silenciou. Assim como a mulher, notara o ar triste em seu semblante e a ausência incomum de seu Manoel depois que chegaram: o casal está brigado, pensaram. Manoel, habitualmente, teria ajudado a retirar as malas e brincaria com as crianças. Que não demoraram, ao chegar na sala de novo, a perguntar por ele. Dona Luciola não conteve o choro. Foi abraçada pela mulher. O empresário, consternado, ficou sem ação. Em meio a soluços Lucila contou: Manel me deixou no dia de Natal. Não falei para vocês porque temi que vocês não viessem. Estou mais do que nunca precisando trabalhar. Tenho contas a pagar, despesas que foram feitas pelo Manel e que só foram aparecer agora. Vocês me desculpem...

O empresário a abraçou e tentou consolá-la dizendo que poderia ser uma briga simples, que uma conversa poderia selar novamente a união. Dona Luciola foi clara:

- Ele morreu, Doutor Roberto. Morreu do coração!

O empresário riu. Pensou se tratar de uma pegadinha. Sua mulher também. As crianças idem. Lucila nada entendeu. O empresário foi para o quintal gritando pelo nome do velho brincalhão e fanfarrão que brincava de vovô com os meninos. As crianças foram atrás gritando e fazendo farra. Dona Lucila se irritou e ríspida, saiu e entrou num quarto. A empregada, diante da situação, confirmou que a patroa falava a verdade. E justificou inclusive com a mudança de quarto. Lucila passara a ocupar o mais modestos deles. Aquele que pertencia aos hóspedes solitários.

Empresário e mulher imediatamente refizeram as malas, pegaram as crianças e voltaram para São Paulo.

Me hospedei nessa pousada. Soube da história a partir de um amigo, professor e historiador, muito chegado à família. Cheguei exatamente uma semana depois da partida do casal com os filhos. Depois de ouvi-la e registrá-la, apressei-me em perguntar se o quarto era o tal do segundo andar, diante do rio e do Ipê Roxo. Era. Estava eu hospedado lá no quarto que durante 40 anos abrigou o casal. No quarto de Seu Manoel. Que não apareceu para mim. O que não quer dizer que não estivesse lá. Se eu falar que tive sonhos estranhos e uma sensação esquisita de que era observado o tempo todo enquanto dormia, vão dizer que estava influenciado pela história que soubera. E eu terei que concordar com a hipótese. Deve ter sido isso.

História assombrada enviada por Fábio Lau (publicada originalmente no Sobrenatural.Org)

* Minha História Assombrada trás para você relatos assustadores vividos por usuário do site AssombradO.com.br e Sobrenatural.Org - Veja com estes relatos que o mundo sobrenatural está a nossa volta e pode acontecer algo estranho com qualquer um! Tem algum caso e deseja que ele seja publicado? Então clique aqui.
.
Sugestões da nossa loja oficial, a LojaSobrenatural.com.br
Como Caçar Fantasmas Como Caçar Fantasmas R$ 34,90 Assinantes: R$ 29,90
Copos que Andam Copos que Andam R$ 31,50

Comentários