2 de outubro de 2013

Contos Assombrados: Lua Cheia


O dia estava acabando, o sol já estava para se esconder por trás da montanha quando Dona Maria percebeu que o querosene tinha acabado e só restava um pouquinho em um dos candeeiros da casa. Dona Maria rapidamente pegou o garrafão que estocava querosene, pegou uns trocados que lhe restava e foi ao encontro de seus filhos Carlos e Isaque que brincavam de bolinha de gude no terreiro enquanto seus dois cachorros deitados olhavam como se o tempo ali não ocorresse.

Dona Maria chegou à área coberta da frente da casa e avistou Carlos e Isaque brincando, fazendo um gesto com uma das mãos enquanto a outra segurava o garrafão gritou.

- Meninos venham cá!

Os dois como se estivessem combinados responderam juntos.

- Já vamos mãe!

Dona Maria pediu para Carlos e Isaque irem até à cidade comprar querosene e fez várias recomendações:

- Vão rápido por que vai escurecer e hoje é noite de “lua cheia”!

Com um olhar mais sério recomendou:

- Não brinquem no caminho para não se atrasarem e cuidado com o garrafão se não vai ficar no escuro a noite toda.

Antes que os dois saíssem correndo Dona Maria lembrou!

- Olha o dinheiro, não deixem que peguem de vocês?

Carlos pegou o garrafão e Isaque os trocados da mão de Dona Maria e andando com presa seguiu o caminho rumo à cidade que ficava a uns sete quilômetros de sua casa. O caminho era conhecido por todos e quem vivia na região sabia de histórias que aconteciam neste trajeto, muitas pessoas tinham medo de passar ali à noite, principalmente na “baixada”

Ao chegar à cidade Carlos e Isaque encontraram seus colegas de escola que foram logo convidando para bater uma bolinha e por coincidência faltava dois jogadores para completar os times, seis jogadores para cada lado e o goleiro. Como os dois não perdiam uma pelada, ficaram apreensivos, mas com a insistência dos colegas resolveram jogar apenas uma partidinha e logo recomendaram, é só uma partida porque temos que comprar o querosene para nossa mãe e voltar antes de escurecer. Um dos colegas com sorriso e alegre respondeu:

- Valeu é só um joguinho rápido!

- Tem que ser rápido se não vamos tomar uma surra de nossa mãe - respondeu Isaque o mais quieto e pensativo dos irmãos.

O jogo começou e no decorrer da partida o tempo foi correndo rápido, mas os gols iam saindo e os dois nada de lembrar-se de suas obrigações, estavam se divertindo como os colegas e a noite vinha surgindo de uma forma mais negra, cobria a serra e matas tão sombria que os pássaros prevendo algo procuravam em bandos um lugar para ficar.

Carlos em um momento que ia chutar a bola colocou o pé sobre ela e observou que o tempo tinha mudado rápido, olhou o horizonte de uma ponta a outra com um pressentimento de que alguma coisa não ia sair bem ou iam enfrentar perigos no caminho ou levar uma bela surra por se atrasar com o querosene que abastecia sua casa para mantê-la com luz durante a noite.

Isaque ao perceber a intenção de seu irmão saiu correndo e pegou o garrafão foi se despedindo de seus colegas e começou a andar em direção a bodega de seu Antônio para comprar o querosene. Carlos se juntou a seu irmão e apresando o caminhar comentou com Isaque:

- E agora Isaque, vamos chegar tarde o que a mãe vai dizer!

- Ela vai dar uma bronca em nós se não der uma surra – respondeu Isaque.

Após a compra do querosene os dois começaram a caminhar com muita presa para casa, quando estavam saindo da cidade encontram um homem no caminho, meio esquisito já difícil de identificar pela escuridão que fazia. O homem com voz rouca e grave falou algumas palavras que eles não entenderam e isto fez com que apressassem o passo na direção de casa.

A “lua cheia” ainda não tinha aparecido, pois ela nascia por trás da montanha e sua claridade não contribuía ainda para mostrar o caminho que já estava difícil de ver entre as sombras das árvores e ramos de matos que pareciam que estavam fechando o caminho quando suas folhas balançavam com o vento.
  
A noite chegou de vez e o medo começou a rondar, Carlos estava inquieto e Isaque começava a olhar por todos os lados como se estivesse vendo alguma coisa. O barulho dos insetos aumentava e o voo do bacurau traçado veloz e silencioso assustava. Logo à frente o lugar conhecido por todos como “baixada” era assustador, no final da descida tinha um pé de juá que fazia uma sobra negra. O medo era predominante, Carlos se aproximou de Isaque quase pegando em sua mão falou já tremulo:

- Isaque como está escuro, parece mais escuro que outros dias!

Isaque muito assustado e com os olhos arregalados respondeu:

- Carlos acho que hoje nós não vamos chegar em casa!

Neste instante uma coruja “rasga mortalha” sobrevoa suas cabeças e emite seu canto descrente e sonoro, silenciosa passou sob os dois deixando um piado sinistro, como um agouro. A “lua cheia” não aparecia, estava escondida atrás da montanha, parecia de propósito, até parecia que estava sendo segurada ou estava negando sua luz de prata para Carlos e Isaque.


Em meio à sombra negra do juazeiro Carlos e Isaque não sabiam o que fazer se iam em frente ou se retornavam correndo para cidade e deixava sua mãe sem querosene à noite toda. Mas isto não podia acontecer, seu pai não estava em casa, suas irmãs eram novinhas e sua mãe ia ficar no escuro sozinha.

Criaram coragem e começaram a descer ao encontro ao medo na “baixada”. Cada vez que desciam parecia que as árvores ficavam maiores e mais fechadas, o escuro já predominava seus olhos já não viam com precisão, iam por instinto.

Na parte mais densa da escuridão Carlos olhou para dentro do mato e distinguiu dois olhos brilhando, os olhos se destacavam na escuridão, iam ficando maiores em sua direção, Carlos tremeu de medo e alertou Isaque:

- Isaque olha aqueles olhos grandes ali!

Isaque virou de vez na direção onde Carlos apontou e virou aqueles dois olhos enormes vindo em sua direção. Ficaram paralisados, as pernas não atendiam, não tinha como correr, ficaram tremendo e de olhos arregalados expandindo as narinas horrorizados.

Existia uma fera em meio à penumbra. Sua sombra apresentava comportamento esquisito, estranho, alto, magro, com aparência doentia, orelhas e unhas anormais, corpo excessivamente peludo.

Agora não tinham como sair daquela situação, à fera que já se encontrava presente já os segurava pelas mãos, dava para sentir seu corpo frio, sobrancelhas escuras e cerradas, o bafo mal cheiroso de sua boca, sua saliva escorria e espalhava gotas que caiam sobre o rosto e corpo de Carlos e Isaque.

Sentiram que era agora eram uma caça, uma presa fácil na mão de uma fera que rosnava e que mataria com fúria, estraçalhava um ser vivo sem dó, sem piedade, não imaginavam qualquer saída. O pavor tomou conta e Isaque sentiu escorrer um liquido quente descendo sua perna, não era sangue, era sua urina quente que o medo lhe fez liberar sem seu consentimento.

Em meio à escuridão Carlos e Isaque acuado observavam a fera que dava voltas esfregava o nariz como se fosse sentir e definir seus cheiros, o sabor de suas carnes frescas e quentes. Por um momento a fera parou e olhou para a montanha. Neste instante começou a apontar um pouco de luz no cume mais alto, era a “lua cheia” que apontava. A fera ergueu-se e emitiu um esturro, fungou e começou a ficar inquieta como se notasse ou sentisse a presença de algo ou alguém.

Sua agitação tornou a situação mais complicada, a fera começava a ser definida pelos poucos raios de prata emitidos pela “lua cheia”, dava para ver seu tamanho e sentir sua força, agora o medo virou pavor e o pavor fazia Carlos e Isaque sentir o gosto de sangue em suas gargantas como se suas entranhas fossem perfuradas por garras.

A fera se preparou para atacar, a “lua cheia” emitia mais raios e a penumbra começava a se desfazer, Carlos segurava o garrafão de querosene como se ainda fosse entregar para sua mãe para que ela pudesse espantar o medo noturno de sua casa e proteger seu irmão e irmãs. A fera neste momento apertou com força e abriu a boca emitindo um rosnado intenso, quando Carlos e Isaque se sentiram perdidos e iam se entregaram a morte ouviram um estampido de um tiro de espingarda acertando a fera que soltou um grito tenebroso invadindo toda mata do sertão. O cachorro jupí latia e tentava morder sua perna tentando ajudar Carlos e Isaque sem sucesso.

Em um momento de fúria Carlos e Isaque foram jogados no chão no instante que foi dado o segundo tiro. Carlos em sua queda soltou o garrafão que ficou na linha do tiro. O tiro pegou em cheio no garrafão saindo uma faísca que atingiu a fera causando um incêndio em seu corpo peludo, que saiu correndo na mata entre chamas, urrando e gemendo espantando os pássaros noturnos que aguardava a “lua cheia” para emitir seus cantos em sua homenagem.

Meio atordoado Carlos ouviu um grito:

- Carlos, Isaque vocês estão ai!

Ainda sem noção Carlos responde:

- Estamos?  - Pai é você!

Seu Antônio abraçou seus filhos e ficou feliz de ter chegado a tempo de salva-los de algo que não sabe dizer o que era. Sabe que de agora em diante não vai deixar seus filhos saírem à noite e tão pouco passar por aquele lugar onde muita gente já tinha visto coisas estranhas e seres esquisitos que pouco sabia descrever.

Perto dali uma fera rosnava e agonizava aguardando dentro de um galinheiro o cantar do galo e o amanhecer do dia para desfazer sua mutação, sua maldição. Agora teria que explicar as queimaduras que tinha em seu corpo e manter em segredo sua grande sina....

FIM!

Conto escrito por Leo Bargom. Originalmente publicado no site Sobrenatural.Org no novembro/2012
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