11 de outubro de 2013

Conto Assombrado: O Misterioso Caso da Menina que Desapareceu



Minha querida Florence** escrevo com a intenção de lhe pedir uma visita. Sei de suas andanças pelo exterior, que sua vida está muito ocupada, mas preciso, aliás, precisamos, eu e meus vizinhos, de todo o seu conhecimento. A propósito devo dizer que "devorei" seu livro, parabéns, você realmente é genial. Estão lhe chamando elogiosamente de "o pesadelo dos fantasmas". Você merece todas as honras. Sabemos que você desenvolveu técnicas assustadoramente eficientes de dedução e lógica para descobrir fraudes de pessoas mal intencionadas que tentam enganar quem acredita em coisas do além. Justamente essa sua capacidade de desvendar fenômenos paranormais se tornou nossa última esperança.

Minha cara, só você pode nos ajudar. Confirmei sua vocação por um senhor muito agradecido que, cordial e espontaneamente, me contou que você conseguiu desvendar o mistério dos meninos que andavam assombrados naquele orfanato. Detalhou que você descobriu a tramoia e o esquema todo do golpe que a cozinheira e o jardineiro queriam aplicar nos donos da casa onde funcionava o abrigo para os órfãos. Então, minha querida amiga, o quanto antes você puder vir ajudar a desvendar mais um mistério, muito ficarei agradecida.

O fato se dá na cidadela onde minha ex-cunhada mora...lembra dela? A espevitada Vanusa? Aquela que tinha uma mania horrorosa de se meter na vida alheia? Pois veio dela a notícia de que uma moça de nome Antônia desapareceu. Antônia é muda e mora em um casebre pobre no final da rua da Vanusa.
Antônia vivia com outros seis irmãos, cada um com um problema de saúde pior que o outro. Ela criou todos sozinha, mesmo muda e analfabeta. Pobre garota. Nunca consegui imaginar o tamanho do sofrimento de ficar órfã aos 16 anos e tomar para si a responsabilidade de criar os irmãos. Mas ela lutou muito e se mantinha relativamente bem até alguns dias atrás.

Na verdade ela não é a primeira a sumir. Pelos meus cálculos já seria a décima terceira mulher desaparecida. Quer dizer, desde que começamos a prestar atenção, pode ter mais. O sumiço de Antônia só foi percebido porque todos sabem da dificuldade daquela família e muitos ajudam como podem, levando alguma muda de roupa, ou comida. Alguns até tentam se aproveitar da pobreza e necessidade da menina fazendo as mais indecorosas propostas. Mas nunca se soube de ela ter aceito prestar serviços, digamos, ortodoxos, para conseguir criar os menores. Nunca se falou nada sobre a garota se prostituir, ou se meter em confusão com drogas e afins. Tomei conhecimento que certa vez o homem que comanda o jogo clandestino na cidadela se interessou em levar a menina pra casa dele, sem pagar salário, numa espécie de apadrinhamento, onde ela prestaria serviços domésticos e eventuais serviços sexuais, com a condição de deixar os irmãos a cargo do Conselho Tutelar. Dizem que ela teria expulsado o homem de dentro do barraco proferindo guinchos e grunhidos.

Como ia dizendo, muita gente colabora com a família, entre elas dona Matilde, que mora ao lado do casebre. Ela foi levar um frango assado para os meninos e encontrou a casa toda trancada. Bateu e ninguém atendeu. Como a casa é bastante velha, ela logo pegou um pedaço de madeira, uma tora de lenha ali de perto, e bateu tanto na parede que conseguiu fazer um buraco no material podre que sustentava a casa. Entrou por ele e encontrou tudo de cabeça para baixo. Os dois bebês menores, choravam copiosamente no berço. Andrey, o segundo mais velho, depois de Antônia, caminhava atônito de um lado para o outro com uma expressão de horror. Os outros três ficaram apenas sentados no chão olhando para a parede, como que hipnotizados de medo e susto.

Dona Matilde demorou para conseguir a atenção dos meninos. Pegou os dois menorzinhos e levou para sua própria casa onde imediatamente providenciou uma roupa para eles. Chamou a filha mais velha para olhar as crianças enquanto voltava a fim de resgatar os outros irmãos.

Levou todos para dentro do banheiro para dar um banho demorado nos meninos encardidos. O horror é que dona Matilde descobriu que eles estavam todos sujos de fuligem e sangue.

Quando a água quente bateu no corpinho deles, começou uma gritaria como se fosse água benta caindo sobre demônios. Foi como se todos deixassem um transe e se dessem conta de onde estavam. Demoraram a aceitar que dona Matilde terminasse o banho.

Minha ex-cunhada foi logo ver o que havia acontecido e quando chegou até a casa, as crianças já estavam limpas e sentadas à mesa esperando a sopa que dona Matilde esquentava no fogão à lenha. A velha estava apavorada. Contou que os meninos não diziam coisa com coisa, que falavam que a irmã tinha ido embora para sempre. Contou sobre o sangue que se espalhou pelas roupas, cabelos, mãos.

Os meninos comeram e foram deitar embalados por um cansaço quase adulto. Pobres crianças minha querida Florence. Pouco depois todos acordaram ao mesmo tempo, aos gritos, chamando pela irmã Antônia.

A polícia foi ao local e não conseguiu descobrir nada. Não há vestígios de fuga, nenhuma roupa foi levada, não há indício de sequestro. A menina é tão pobre e doente que não haveria motivos, não é mesmo? Os pequenos falavam de um monstro vestido em uma roupa de monge, alto e sem rosto. Mas não havia sinal de arrombamento, nem de violência.

As crianças passaram a delirar. Diziam que o sangue era da irmã, que o monstro as obrigou a cortarem ela. Mas não sabiam dizer o que foi feito com o corpo, nem como esfaquearam a irmã.

O delegado desconfia que elas estejam inventando essa história. O que é bastante possível, sabe como são esses meninos, mas eles juram seriamente e com tal veemência que foi obra do tal monstro, que não há como desconfiar deles por mais tempo.

Florence, não há como ter sido alguém de fora da casa, estava tudo trancado, por dentro! As janelas não abriam há anos, a própria dona Matilde já havia conversado com Antônia sobre o perigo da casa não ganhar ar fresco. E a casa estava completamente revirada, destruída mesmo, como se fosse vítima de um furacão. Criança alguma teria força para jogar as cadeiras todas em cima do armário da cozinha. Homem nenhum teria força sozinho para quebrar aqueles móveis velhos e pesados. Para você ter uma ideia, a mesa da sala era de madeira maciça, reaproveitada de uma obra, e foram necessários cinco homens pra carregá-la até lá, foram cinco operários bem fortes, e a mesa simplesmente virou pó. A polícia inclusive conversou com esses cinco homens, que poderiam até terem atacado as crianças, mas todos tinham explicação de onde estavam, tinham testemunhas e foram descartados como suspeitos. Até o homem que certa vez foi expulso por Antônia foi interrogado, mas também tinha provas de sua inocência.

O impressionante que essa destruição toda não fez barulho, nenhum vizinho ouviu nada. Os meninos estão traumatizados. Não dormem mais no escuro, e parece que conversam com alguém que não está lá. E Florence, dona Matilde conta que tem visto luzes onde não há eletricidade e ouvido vozes quando não há ninguém no quarto. Ela acha que as crianças estão querendo assustá-la, mas com que propósito? As pobres criaturas estão apavoradas, só choram e se fecham num mundo delas, mantendo silêncio por horas.

Os dois bebês estão bem, parecem não ter sofrido nada, embora os dois apresentem manchas de queimadura na mesma parte do corpo: abaixo das costelas. São manchas com o mesmo desenho. Parecem queimaduras, mas elas não sentem dor.

As crianças ainda estão provisoriamente com dona Matilde, mas a pobre velha está definhando, parece doente e parece que a qualquer momento vai entrar no mesmo estado catatônico dos meninos.
Com esse sumiço a cidade ficou em polvorosa, não se fala em outra coisa. Aos poucos todos chegaram à conclusão que vez por outra some uma garota na cidade. E fazendo as contas, nos últimos tempos foram 13. Ninguém sabe explicar. Os corpos nunca apareceram, e as desaparecidas nunca deram notícias. O fato é que todas elas sumiram misteriosamente. E fica ainda pior quando os detalhes de cada sumiço são revelados. Todas as testemunhas se lembram de um fato que se repetiu: as manchas nas costelas dos bebês das famílias cujas meninas sumiram.

A cidade está em pânico. Falamos de fantasmas, extraterrestes, serial killer, demônios e de Deus. Seria uma alucinação coletiva, uma histeria? Ninguém acha explicação, nada. Eu estou temendo pelas crianças. Andrey começou a falar em uma língua desconhecida. Juro que nunca ouvi, não é latim, nem italiano, nem francês, ninguém entende o que ele fala. O garoto tem lapsos de memória. Diz coisas que não se lembra de ter falado e, às vezes, conversa e ri sozinho. Entre os irmãos doentes, ele é o que manca, tem uma perna maior que a outra, e Florence, ele está deixando de mancar. Já não usa mais as muletas.

Pobres crianças. Precisamos da sua ajuda. Diga que vem, por favor? O Conselho de Segurança da Prefeitura avisa que tem verbas para sua passagem e estadia, nada de muito luxo, mas agradece antecipadamente se você puder colaborar com esse mistério. Também ofereço com prazer minha humilde casa para sua permanência durante a visita.

Estou bastante preocupada, semana passada mudou para aqui perto mais uma família, com duas meninas menores, e um bebê. Ontem a mãe das crianças saiu correndo de casa, carregando o filho no colo porque o menino estava com uma mancha igual a uma queimadura nas costelas. Ninguém da cidade teve coragem de comentar com ela sobre os desaparecimentos e sobre o caso todo.

Venha Florence, o mais rápido que você puder. Aguardo seu retorno. Um grande abraço fraterno, com admiração e esperança, sua M.R.

Conto gentilmente enviado por Andrea Carvalho

escrito originalmente para o blog “cartas de madame red”

** Florence Cathcart é um personagem do filme “O Despertar” (The Awakening/ Reino Unido 2011). No longa, ela aparece como escritora do livro “Vendo através dos espíritos”. 

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