23 de agosto de 2013

Um Cadáver Enterrado em meu Quintal


Nos confins de minha mente não existe a paz. Paz que às vezes almejo e busco em meus dias pesados, consumidos pela loucura e pelo medo.

Se quer mesmo saber a verdade, lhe digo que nunca fui bom homem. Abusei da sorte e me atrevi em pecados sujos e devaneios...

Mania essa dos comuns em tentar serem perfeitos... Tadeu era assim, bonito e estudado... Um homem promissor e carismático. E eu o matei...

O que sei da vida é que vivi em um gole só. Bebi até a ultima gota.  Isto é o que sou, e nunca tentei mudar, pois a fuga mais fracassada é tentar fugir de si mesmo.

E como todos os comuns que perdem e ganham, aconteceu com Tadeu, meu inimigo. Um inimigo que um dia foi meu melhor amigo.

Era realmente um sujeito puro e belo... Tão comum... Tão banal que não podia fazer mal sequer a uma mosca. Mas eu fiz um grande mal a ele. Eu o privei do dom de viver.

Foi meu concorrente em muitos dos jogos da vida. Me venceu por tantas vezes que meus calos não me permitiram prosseguir... Era como se eu tivesse quebrado minhas pernas neste caminhar, rezando baixo por um milagre que eu nunca teria. E ele como bom vencedor, nunca se gabou disto... Nunca sequer se sentiu melhor que eu... Era um bom vencedor sim, e eu, um mal perdedor...

Ele me vencia no futebol, nas promoções do emprego, nas escolhas e conquistas... Mas o que ele tirou de mim por ultimo o condenou, e de certa forma, me condenou também.

Estou falando de uma mulher.

No gole trágico da vida, me encantei por Marta. Embora nunca tivesse sido correspondido, sentia esperanças em tê-la para mim.

Marta... Bela moça de cabelos negros e encaracolados... Como poderia ela imaginar que um vencedor e um fracassado a cobiçaria aponto de um esfaquear mortalmente o outro?

Ele a conseguiu mesmo sabendo que eu a cobiçava... Conseguiu fazê-la sorrir, lhe roubou um beijo e ganhou seu amor. E eu, inerte em meus pesares, enlouqueci.

Chorei em desgraça e bebi a vida em um único gole. Determinado, ousei. Me atrevi e tentei contra ele.

Nos tempos de infância Tadeu me defendia dos garotos maiores. Ele sempre teve porte. Era forte e destemido. Era tão comum o Tadeu... Tão tolo e inocente... Tão determinado e seguro de si...

Tadeu me pediu desculpas por conquistar Marta. Deus... Ele pediu desculpas por tomar para si quem eu tanto amava!

A facada foi pelas costas. Seis ou dez, eu não sei... Sei que a ira se apoderou de mim e eu finalmente o venci... Eu venci!

Em ultimo momento, pude olhar dentro de seus olhos. Pude enxergar a decepção, a dor,a derrota... Há...
Ele finalmente enxergava a vida como eu! Finalmente sentiu o que era ser apunhalado pelas costas, mesmo que por um último momento!

O enterrei em meu quintal. Plantei flores sobre sua cova, mas elas nunca vingaram. Deve ser meu azar de novo.

O caminho até Marta ficou livre, mas eu não consegui conquista-la.

Meu pai me disse um dia que um bom perdedor nunca deixa de ser um mal perdedor... Ele estava certo, e embora esta frase ecoasse em mim, eu estava pisando sobre a cova. Pisando sobre a cova do vencedor.

Conto enviado por Julio C. Dosan 
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