16 de agosto de 2013

Quem Procura Sempre Acha

Quando era mais jovem, tinha pesadelos e via “coisas ruins” sempre que fechava meus olhos. Isso fez com que eu passasse a temer coisas sobrenaturais com todas as fibras de meu corpo. Porém, quando completei dez anos, as coisas mudaram. Eu já não via coisas em todos os cantos e adorava um bom filme de terror (terror psicológico, não sanguinolento) e passei a ansiar por um contato sobrenatural. Procurava artigos na internet sobre invocação de espíritos e tudo mais, mas as coisas sempre necessitavam de pagamento e sempre que achava algo promissor, havia vários avisos do tipo “Uma vez realizado, não há como voltar atrás” ou “É necessário estar ciente das possíveis conseqüências” então não tinha coragem de ir adiante, afinal, eu queria estar no controle e ter total liberdade para voltar atrás caso assim desejasse.

O tempo passou e eu percebi que, se quisesse ter um contato sobrenatural sem dever nada a nenhum espírito ou coisa assim, teria que ser algo espontâneo, o espírito teria de se revelar à mim, sem ser convocado, invocado, etc... Decidi que teria de ser assim, então, sempre que estava só em minha casa, eu chamava por alguém, dizia que se algum espírito estivesse por perto, que me desse um sinal. Passei um ano sem obter resultado e perdi a esperança. Era mais do que óbvio que eu não possuía o “dom” para ver o lado espiritual, e não havia nenhum espírito interessado o suficiente para se mostrar a mim por livre e espontânea vontade.

Já fazia um tempo desde que havia parado de “caçar” fantasmas, embora ainda ficasse ligado, procurando presenciar alguma manifestação. Na época eu tinha quatorze anos, havia concluído o ensino fundamental e entrado de férias escolares. Minha mãe me disse que iríamos para nosso sítio e eu, a contragosto, aceitei. Fomos para lá na segunda semana de minhas férias e ficaríamos até o ano novo. Este sítio pertencia a meu avô há muito tempo atrás, até que ele vendeu e nós re-compramos. Já havia ido lá muitas vezes e não seria o primeiro ano novo que passaríamos lá, por isso nem esperava que algo ocorresse, mesmo sabendo que havia uma clínica de reabilitação para drogados, na qual tenho certeza que muitos devem ter perecido.

O primeiro dia passou normalmente, foi um dia ensolarado, bem quente, assim como os que se seguiram, e, durante a primeira semana, não aconteceu nada demais, à noite tudo que ouvíamos eram os sons dos grilos e o bater das asas de um ou outro morcego, de modo que a única coisa que realmente assustava era o frio que fazia, nada exagerado, mas como o dia era bem quente, quando a noite chegava, parecia esfriar mais do que o normal.

Ao raiar do quarto dia decidimos que faríamos uma fogueira para nos aquecermos e curtirmos a noite. Passei o dia recolhendo lenha para fazer uma fogueira que durasse bastante, isso me mantinha ocupado e longe do ócio que me consumia sempre que ia para lá. Fui montando a fogueira no lugar onde sempre montávamos em uma clareira que ficava a uns 30 metros da casa.

A noite chegou e, como esperado, a temperatura caiu bruscamente. Chamamos o caseiro para que ele nos ajudasse a acender aquele monte de lenha. Ele veio e ficamos todos, eu, minha mãe, meu pai, o caseiro e sua mulher, conversando lá. Minha mãe até fez pipoca e trouxe umas salsichas e batatas para assarmos. Ficamos até meia noite conversando, até que o caseiro disse que não aguentava mais e precisava ir dormir (afinal, ele sempre acordava seis da manhã e trabalhava o dia todo). Minha mãe não tardou a sair também, alegando que estava muito frio e o fogo já estava baixo demais para aquecê-la. Meu pai ficou mais, até meia noite e meia, quando disse que iria entrar na casa também. Eu disse que ficaria mais um pouco, pois gostava de apreciar as chamas crepitantes consumirem a lenha.

Nada de estranho havia ocorrido até então e eu nem pensava que fosse acontecer, por isso não estava alerta nem atento ao que ocorria a minha volta. Quando deu uma da manhã começou a esfriar, esfriar mesmo, como se tivessem me jogado num freezer ou algo assim. Não estranhei, pois lá fazia frio mesmo, o que estranhei foi que o fogo começou a se extinguir. As chamas foram diminuindo cada vez mais, até ele se apagar por completo. Achei aquilo bem estranho, afinal ainda tinha lenha suficiente para manter o fogo aceso até o raiar do sol. Pensei que talvez fosse o vento, então me levantei, peguei a cadeira na qual estava sentado e fui me retirar. Foi aí que tive uma sensação bem estranha de estar sendo observado. Nunca havia sentido isso, era uma sensação tão intensa que eu tinha certeza absoluta que tinha alguém me observando, na verdade, eu sabia que se eu me virasse, eu veria alguém (ou algo) me observando. Antes de fazer qualquer coisa, respirei fundo, sabia que não deveria ser alguém, pelo menos não alguém que estivesse vivo.

Pensei que talvez fosse melhor sair dali correndo e não olhar para trás, mas minha vontade de ter um contato com o sobrenatural falou mais alto. Soltei a cadeira e me virei lentamente. O que vi não se assemelhou em nada ao que esperava: uma criatura de aparência humana, porém em estado de decomposição, com larvas saindo da cara e etc. Na verdade, o que vi foi a silhueta de um homem, iluminada pelo brilho das brasas, atiçadas pelo vento. Ele estava olhando fixamente para o chão, usava um boné, um casaco com capuz, que estava cobrindo sua cabeça por cima do boné, e uma calça jeans. Era magro e devia medir 1,82m. Aquilo até que me aliviou, até que ele levantou a cabeça e me olhou. Não pude ver seu rosto, apenas uma massa escura, mas sentia que ele me observava. Então comecei a escutar vozes, na verdade eram sussurros que ecoavam pela minha mente. Aquilo me deixou confuso e quando percebi, o homem estava andando em minha direção. Senti que, seja lá o que ele quisesse, não era bom, mas não conseguia me mexer. A única coisa que consegui pensar foi em tentar conversar com ele.

Perguntei o que queria e não obtive resposta, perguntei se ele queria me machucar e a resposta que obtive foi uma dor lancinante em minha cabeça, que durou uns 2 segundos. Ai percebi que precisava realmente fazer algo, me desesperei, mas não podia fugir, estava paralisado, então me lembrei de algo que vivia repetindo para mim mesmo e falei, em um tom raivoso, que se ele me matasse, eu iria dar um jeito de acabar com ele, que se ele achava que podia fazer o que quisesse comigo que sairia impune, estava errado, porque se ele pode continuar na terra como espírito, eu também poderia, e iria caçá-lo e atormentá-lo por toda a eternidade. Falei aquilo com grande convicção, eu realmente acreditava naquilo e aquilo me reconfortou, mas o que mais me impressionou foi que o espírito parou de andar. Comecei a ouvir aqueles sussurros de novo e logo senti aquela dor de cabeça horrível, que dessa vez durou uns 10 segundos, até me fez cair de joelhos, mas quando fui ver o que ele iria fazer, não mais o encontrei.

Depois do incidente conversei com minha mãe e ela disse, muito nervosa, que eu devia ter chamado ela e que aquilo era perigoso demais, já meu pai achou que eu estava apenas brincando, ou então sonhando acordado, mas nem por isso zombou de mim. Não sei o que de fato queria aquele espírito e nem se ele realmente se foi, só sei que, apesar do susto, fiquei satisfeito em ter contatado o outro mundo e ter me safado sem perder nada.
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