8 de agosto de 2013

O Monstro da Garagem



Todo dia ela saia para trabalhar no mesmo horário. Acordava cedo, invariavelmente com sono, com aquela vontade de ficar na cama mais cinco minutinhos. Aliás, assim fazia: colocava o celular pra despertar e o tal “soneca” ficava tocando até que não dava mais pra adiar. Banheiro, xixi, banho, roupa, sapato, cabelo, batom, café e chaves. Pronto. Estava preparada para enfrentar a rotina da repartição.

Naquele dia, como em tantos outros, seguiu o ritual, mas acabou derramando café na blusa nova e até fazer a troca, já estava atrasada.

Morava no terceiro andar de um prédio de 10 andares. O elevador velho e gasto lutava com engrenagens enferrujadas que além de serem lentas, faziam um barulho infernal.  Preferiu correr escada abaixo. Quase tropeçou nos primeiros degraus, mas finalmente chegou até a garagem, que estranhamente estava toda no escuro.

– Ah meu pai, e agora? Pensou em voz alta. Ficou parada.

A garagem era gigantesca. Mantinha uma iluminação pálida eternamente funcionando. Nem uma brecha de sol ou qualquer luz entrava por lugar algum. Não tinha janelas, nem portas. Os portões de entrada e saída abriam e fechavam por ordem de um controle remoto, que ela deixava dentro do carro.

Entre a escada e seu carro havia inúmeros obstáculos: a parede dos elevadores, as pilastras de sustentação, a ordem caótica do estacionamento. Ela precisava de luz.

Nem uma lanterninha, nada. Ah, já sei, o celular!”, falou consigo mesma. Deu alguns passos procurando na bolsa que levava a tiracolo. Bolsa grande, cheia de necessidades femininas: pente, maquiagem, absorvente...e nada do celular que se perdia entre tanta coisa.

Parou de andar. Procurar o celular no escuro, naquela bolsa que mais parecia um buraco negro, não estava dando certo. Praguejou:

– Merda.

Foi ai que ouviu um barulho estranho vindo lá do outro lado da garagem.

– Tem alguém ai? Gritou. Ei estou aqui perto da escada, tem alguém? Socorro, falou em tom de brincadeira.
Nenhuma resposta. Apenas um farfalhar como se alguém amassasse um papel.

– Ei, você...chamava já não achando tanta graça da escuridão e do silêncio que não respondiam nada.

– Finalmente! Exultou sorrindo ao puxar o celular da bolsa. Acendeu a lanterninha que havia lá. Na verdade um aplicativo que ela insistira em instalar. Uma luzinha que dava para pelo menos iluminar o caminho sem tropeçar até o carro.

Mais uma vez um barulho. Mais um papel amassado.

Apurou o ouvido.

– Ei! Chamou corajosamente mais uma vez. Estava começando a ficar com medo e congelou de pânico quando pode ouvir que alguém estava correndo em sua direção.

Levantou o celular com a luz fraca à sua frente, girou para todos os lados e não conseguia ver nada nitidamente. Apenas sombras. Gritou mais uma vez e ninguém falou nada.

Estava inquieta com aquilo. O coração já disparava. Nenhum vizinho desceu as escadas, ninguém chegou pelo elevador. E a luz não voltava.

Tomou o caminho até seu carro, que ficava um pouco afastado dali. Conseguiu fazer as manobras para se desviar das pilastras e dos veículos mal estacionados. De longe avistava o carro. Apressou o passo e mais uma vez o barulho. Desta vez estava perto dela. Não vinha mais do outro lado da garagem, mas de logo ali atrás. Mais uma vez ela parou. Estava suando frio, girou o celular novamente para todos os lados. Mal respirava. Neste momento a luz do aparelho apagou. Nervosa tentava religar a luz fraca, os dedos tremiam, deixou o celular cair.

– Merda, merda, merda, repetia sem parar. Tateou o chão e pode sentir o celular. Pegou e finalmente conseguiu acender a luz novamente.

Levantou devagar tentando ouvir os ruídos. Jogou a luz para frente e pode ver escondida atrás de um carro uma sombra que não estava lá antes. Não sabia se saia correndo ou ia em direção a tal sombra. Decidiu ir até a sombra. Iluminou o cantinho entre a parede e o velho carro da vizinha do 405. E foi ai que viu. No princípio pensou que fosse um animal, ou uma criança, e conforme foi se aproximando seus olhos pareciam não acreditar. Ela estava em pânico. Viu que na verdade era um monstro saído dos piores pesadelos dela.
Gritou e quase deixa o celular cair novamente. Girou em direção ao seu carro e saiu correndo. A criatura tinha uma espécie de conjunto de sete pernas e patas. Disformes. Como se uma pessoa se contorcesse em uma manobra circense e os pés e mãos ao contrário servissem de sustentação. A monstruosidade tinha uma boca larga cheia de dentes afiados. A pele não era humana, era brilhosa, gosmenta, cheia de feridas. Cada passo que dava era como se todos os ossos se quebrassem ao mesmo tempo. Era uma criatura horrenda. Parecia ter sido revirada do avesso.

Enquanto ela corria para o carro, a bestialidade tomava velocidade atrás dela. No começo se moveu lentamente, emitia um som gutural. Aos poucos foi evoluindo para uma corrida e chegou a ficar próximo aos calcanhares da mulher. Corria freneticamente, se jogando entre os corredores e os carros.

A mulher gritava, o monstro gritava mais ainda. Finalmente ela conseguiu abrir a porta do carro e se jogou lá dentro. Por pouco, muito pouco a criatura não entrou com ela. A fera se espatifou na porta do carro. E ficou furiosa. Ia contra o carro com garras e dentes, tentava quebrar os vidros, babava de ódio. Ela lá dentro sem ação, no escuro, sem fôlego, estava descontrolada e ainda gritava. Foi então que num momento de lucidez ligou o carro. Deu ré, bateu em outros três veículos e foi em direção a saída da garagem. O monstro caiu no meio do caminho, ela passou por cima. Sentiu o baque quando esmagou aquela pele nojenta.

Conseguiu apertar o controle remoto para sair do estacionamento. Lá fora o dia estava claro e normal. A vizinhança se preparando para pegar ônibus, outros passando e estranhamente a vizinha do 405 chegava no prédio pela outra pista acenando de dentro do carro. Um sorriso enigmático.

– Mas, como ela saiu? Eu estava sozinha na garagem. Ela não passou por mim...como pode? Quer dizer, e aquele monstro? O que era aquilo? Se perguntava.

Ela estava atônita. Estacionou de qualquer jeito assim que se acalmou. Ainda dentro do condomínio, do outro lado do edifício, desceu do carro e vomitou. O porteiro correu para ver se ela estava bem.

– Sim, estou bem. Eu acho. Aliás, eu preciso de ajuda sim. Lá na garagem, lá dentro, eu acho que eu matei...eu matei...atropelei....

– O quê?  Perguntava nervoso o porteiro.

– Não sei o que era. O senhor pode me acompanhar? Estava escuro, não tem luz lá.

– Não sei o que a senhora está falando. Eu acabei de vir de lá e não tem problema nenhum com a energia. Inclusive a senhora saiu de lá pelo portão, não foi? Ele funciona com energia elétrica, tentava explicar o porteiro.

– Como? Eu não estou louca, dizia ela mais para si que para o funcionário incrédulo.

Foram os dois em direção a tal garagem. Pegaram o elevador na portaria, desceram ao subsolo e quando a porta do elevador se abriu lá estava a garagem intacta, iluminada, movimentada com a vizinhança dando seus bons-dias e manobrando seus carros mal estacionados. Ela saiu do elevador apavorada.

– Mas o que é isso? O que está acontecendo?

Foi em direção à própria vaga e tudo estava como deveria estar.

Correu até a parte onde atropelara o monstro e lá não havia nada. Sequer uma mancha de sangue no chão.

– Mas eu vi, eu ouvi...eu...ah, meu Deus, chorava a mulher desconsolada.

– Calma. A senhora precisa de ar. Vamos subir, falou o porteiro.

Não, eu preciso achar...mas achar o quê?”, pensou ela.

– Está bem. O senhor se importa de me deixar ver o filme do circuito de segurança? Pedia, quase implorando.

– Vou chamar o síndico.

Foram os três para a sala pequena onde ficava a parafernália da segurança. Olharam a fita, e sim, lá estava ela descendo a escada. Todas as luzes acesas. No filme ela parou, mexeu na bolsa e pegou o celular. Estranhamente colocou o aparelho na frente dela mesma como se iluminando o local que já estava iluminado.

Foi em direção ao carro, parou em frente à vaga vazia da vizinha do 405 e saiu correndo. Entrou no carro rapidamente, como se tivesse em pânico (estava em pânico!) deu partida e os três carros em que havia batido não estavam lá. No filme as câmeras mostravam uma moradora num ato comum indo em direção à saída e abrindo o portão normalmente.

–Só isso? Perguntou o síndico.

– Não, espera, não tinha luz, e sim, eu vi, vi um animal, um monstro... estava atrás do carro do 405. Vocês têm que acreditar em mim, suplicava.

Mas agora nem o carro aparecia na filmagem, nem o monstro. O porteiro e o síndico se olharam. Não estavam acreditando em uma palavra do que ela dizia.

Ela começou a chorar. O síndico a acompanhou até a casa dela, arrumou um copo com água e perguntou se ela queria que chamasse alguém. Ela só conseguia chorar, estava desorientada. Respondeu que não precisava avisar ninguém. Não tinha mesmo ninguém para chamar. Deitou-se no sofá e adormeceu entre lágrimas. O síndico foi embora, fechou a porta devagar imaginando o que aquela coitada tinha bebido logo pela manhã.

Ela acordou com o apartamento envolto pela escuridão. Olhou no relógio e viu que eram três horas da tarde. “Só três horas? E tão escuro...” foi esse o seu primeiro pensamento.  O segundo pensamento foi que estava faminta. Levantou do sofá deu dois passos em direção ao interruptor para acender a luz quando do corredor veio um barulho estranho, como se alguém amassasse uma folha de papel...

FIM

Conto enviado gentilmente por Andrea Carvalho
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