6 de agosto de 2013

Fúnebre

Contemplo a foice prateada da morte. Ela talha minhas costas e me faz tremer, me faz sorrir em desgraça, sem me arrepender do que fui um dia.

Pouco sei de mim, pouco sei da vida de outrora. Trago em minha face enfeitada de flores a pesada maquiagem. Ela esconde de meus entes queridos toda a tortura que a vida me fez sofrer.

Não a mais volta... Esta tudo acabado. A morte não se apieda nem dos fracos nem dos fortes.

As lágrimas que respingam em meu corpo nada podem dizer sobre o que fui. Deixo saudades sim, mas eles esqueceram. Sempre se esquecem.

Viver lutando por uma cura não foi meu plano. Não existem esperanças para um homem em fase terminal. A proeza de viver cada último momento me consumiu, me seduziu, me conduziu e me modelou. Me preparou para o encontro fatal.

Sempre fui um mascarado, a doença me corrompeu mas eu tentei ser forte. Caminhei com os saudáveis e me senti tal qual eles. Podre por dentro, sorrindo por fora, era assim todos os dias.

A morte me veio em um dia de verão. O sol escaldante, a água turva do copo, a face esquelética... A foice prateada decepou os meus sentidos. Eu tombei sorrindo, ciente do que fui, ciente do que sou.

A tampa do caixão se fecha. Se pudessem enxergar minha alma... Se pudessem naufragar em meus sentidos... Se vissem alem de meu corpo frio, enxergariam meu sorriso de satisfação. Veriam então que a morte não é tão ruim e nem tão cruel assim...

Conto enviado por Julio C. Dosan
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