13 de agosto de 2013

A Noite dos Mortos-Vivos

Peguei no sono novamente. E mais uma vez fui sugado para um mundo de trevas e medo. Como das outras vezes, fazia frio. Um nada que machucava a alma. Não sei se estava de olhos abertos ou fechados. A escuridão era tamanha que tanto fazia enxergar ou ser cego. E eu ali novamente. Mas onde é ali? Estou perdido no silêncio. Um vazio infinito. Medo. Pavor e solidão. Uma solidão tão dolorida, que só restou chorar. Fiquei paralisado, como que suspenso no ar. Tentei ouvir alguma coisa, qualquer coisa. Nada.
Até que ao longe ouvi um sussurro. Tentei falar, mas minha voz não respondeu. Fiquei  naquele breu o que pareceu uma eternidade. Aquele limbo estava me matando. Se eu pudesse sentir mais alguma coisa além de medo seria meu suor. Tenho certeza que escorria por todos os poros do meu corpo. Corpo? Eu não sentia meu corpo. Nadava no nada.

Quando o mais puro terror tomou conta de mim, pensei que iria morrer sufocado. Não havia ar. Puxei uma respiração que imaginei ainda ter e não veio. Sufoquei. Entrei em completo surto e acordei.

Acredito que gritei ao acordar. Naquele ônibus noturno, pequenos pontos de luz iluminavam o interior do veículo. O carro chacoalhava de um lado para o outro numa velocidade acima do razoável. E ninguém acordou. Somente eu. Ou pelo menos eu não ouvia ninguém. Como tentava me recuperar do maior medo que já havia passado na vida, nem percebi que ao meu lado, o banco antes ocupado por um menino chorão, estava vazio. A mãe do garoto já tinha tentado de tudo para acalmar a criança. Cantou, brincou, brigou, e por fim meteu uma mamadeira nas mãos do menino, que gordo, se engalfinhou naquilo. Nem a mãe, nem o garoto estavam por ali.

Sequei o suor da testa, tentei arrumar os cabelos que despenteados deveriam estar dando a impressão de que eu era um maníaco endiabrado. Se fosse  possível um espelho, eu veria a própria face da morte em meu rosto. Minha língua seca grudou no céu da boca. Meus lábios estavam rachando. Minha roupa amarfanhada exalava o cheiro forte do medo. Limpei a garganta e olhei ao redor. Não só os bancos ao meu lado estavam vazios como os da frente e os de trás. Levantei subitamente com o susto de não ver ninguém. E o pavor mais uma vez tomou conta de mim. Eu estava sozinho naquele ônibus. Sozinho? Imediatamente fui procurar o motorista que não estava lá. Me vi em alta velocidade em um ônibus desgovernado dirigido por ninguém. Quase gritei. Corri até o volante na tentativa de colocar o carro no rumo, mas só consegui derrapar e bater com força nas rochas que ladeavam a estrada. Com forças não sei de onde, deixei o ônibus em linha reta. Aos poucos os freios foram parando aquela enorme máquina vazia. Apenas a lua dava cor à estrada. Escuridão que também tomava conta de mim. Quando finalmente estacionei não tive reação. O que havia acontecido? Onde estava todo o mundo? Andei por entre os bancos e só vi os objetos pessoais dos passageiros, alguns largados de qualquer jeito. Tão de qualquer jeito que muitos se quebraram. Alguém levara todos embora? Mas como? Foram todos abduzidos? Não, seria uma explicação muito fora da imaginação coerente de um homem letrado como eu.

Desci do ônibus e fui andando estrada à fora, sem escutar uma alma. Estava frio. Ato contínuo, me encolhi. Um peso caiu sobre mim, como se mil corpos sentassem em meus ombros. Andei devagar, olhando para todos os lados. Apressei o passo,  ensaiei gritar, chamar alguém, mas foi inútil. O ar estava rarefeito e os sons prejudicados. Ao longe vi uma luz tremulante. Uma tocha? Sim. Fogo. Corri em direção a ele. Nem percebi que saia da estrada e me embrenhava numa floresta fechada. O mato alto batia em minhas pernas. Feridas se abriam. Lanhos não muito profundos deixavam um pequeno rastro de sangue por onde eu passava.

Fui em direção à luz sem ao menos raciocinar. O fogo se aproximava e percebi que não era apenas uma tocha, mas várias. Muito próximo do clarão que as chamas formavam parei minha corrida. Tomei fôlego, minhas pernas doíam, meus braços, meus ossos, músculos. Tudo em mim parecia moído. E a dor era excruciante. Respirei e olhei com mais atenção ao que se passava na clareira. E ai eu morri. Ou praticamente. Todas as pessoas que se perderam no ônibus estavam ali, mas não eram mais humanas. Não se podia chamar aquilo de humano. Eram uma espécie de mortos-vivos.

Desligados do mundo, alheios, sangrando, babando, machucados e imóveis. Seguravam as tochas e olhavam o além com olhos rasos, furados, carcomidos, mortos.

– Meu Deus, eles estão mortos, pensei comigo mesmo. Até o menino chorão. Depois de alguns segundos eternos, desnorteado  fui andando para trás devagar, sem nem respirar, sem fazer barulho, sem ao menos piscar. Eu não conseguia ter pensamentos coerentes. Tudo que se passava na minha mente era que tinha que voltar para a estrada, para o ônibus. Precisava ir embora dali e me salvar.

Zumbis. Como? Por quê? E por que não eu? Não entendia. Andei de ré até uma distância que julguei suficiente para começar a correr sem ser notado. Mas o azar fez com que eu pisasse forte em um galho velho. Foi o suficiente para um de aqueles monstros encontrar meus olhos. Em nossa troca de olhares eu gelei. Senti todo o ódio, medo, fome, crueldade que tomava conta daquele corpo. E ele gritou. Na verdade o monstro grunhiu. E todos eles olharam em minha direção.

Corri. Corri como nunca, como um louco. Corri como se corre da morte. Sentia aquelas bestas nos meus calcanhares. Bati em árvores, pisei em poças de água e lama. Lágrimas molhavam meu rosto já sujo de terra daquela maldita floresta. A noite parecia estar ainda mais fechada. Cheguei à estrada. Fui em disparada em direção ao ônibus e ao chegar na porta do carro ela estava fechada. Empurrei com toda a força que ainda achei em meu corpo. Uma daquelas mãos cadavéricas conseguiu me alcançar. Eu lutei para jogar longe aquele saco de ossos, mas não consegui. Estava desesperado, até que num chute abri a porta e cai ensandecido me esparramando pelo piso. Fechei a porta de qualquer jeito. Empurrando com força enquanto os dedos daqueles mortos insistiam em lutar. Finalmente a porta trancou.


Pulei para o banco no motorista e tentei desesperadamente dar a partida, mas a bateria estava gasta. Girei a chave e nada. Continuei tentando. Um mar de gente semiviva rodeava o ônibus. De todos os tamanhos, idade, sexo. Batiam famintos nas janelas. Quase rosnavam. Se jogavam nas laterais do ônibus e se desfaziam em podridão. Uma janela quebrou. Meu pânico só aumentava e finalmente o motor resolveu funcionar. Sai em alta velocidade. Atropelei o que vinha pela frente. O menino chorão explodiu no vidro da frente.

Sangue escorria pelos vidros. Eu precisava sair dali. Dirigi quilômetros cegamente tendo a lua para iluminar meu caminho. Perto de uma estalagem, um hotel velho, parei. Mas um sentimento de alerta já tomava conta das minhas decisões. Desci do ônibus com cautela. Corri para trás da parede dos fundos do prédio, e espiei pela janela. Ninguém. Entrei pela portinhola protegida por uma tela e atrás do balcão de atendimento encontrei uns óculos e uma bíblia caídos no chão. Quem quer que por acaso estivesse por ali tinha abandonado tudo e rapidamente. Ou se escondeu ou virou monstro.

As luzes estavam acesas o que facilitou minha busca por explicações, comida, qualquer coisa. Encontrei uma garrafa de água pela metade e rasguei minha garganta ao engolir em grandes goles o que restava.
A sala da recepção do hotel era minúscula. Um corredor escuro se abria logo ao lado da máquina registradora. Todas as portas fechadas. Eu não queria saber o que havia atrás delas. Mas precisava. Na primeira porta que abri encontrei um quarto completamente sujo de sangue. Respingos de restos humanos caiam do teto. Sangue pingava e um cheiro de podridão tomava conta do lugar. Fechei a porta imediatamente, com náuseas difíceis de controlar.

Fui para o outro quarto e o único cheiro era o de mofo que já estava lá antes mesmo de se pensar na existência de mortos-vivos. No terceiro quarto, também vazio, só olhei de relance. Ao fechar a porta ouvi lá dentro um som abafado. Um baque surdo. Meu coração acelerou de tal forma que veio até a boca. Abri novamente a porta e acendi as luzes. “Tum”. De novo aquele barulho dos infernos. Fui até o guarda-roupa lentamente. Como que esperando que pulasse lá de dentro o maior e mais sanguinário dos monstros de todos os tempos.

Quando minha mão encostou na maçaneta do armário, novamente o “tum”.  Pulei e olhei para trás. Vi um rosto me encarando. Gelei. Demorei a perceber que era a minha própria figura refletida em um espelho. Eu estava sujo de sangue. Tomado pelo medo. Voltei a me concentrar no armário. Num fôlego só abri a porta e lá estava ela. Uma menina de pouco mais de oito anos, encolhida e abraçada a um urso velho e encardido. O barulho era ela tentando abrir a porta.

Nos encaramos e ela chorava. Me inclinei diante dela e menti:

- Vai ficar tudo bem, disse calmamente.

Ali mesmo eu fiquei. Esqueci de ver o último quarto no final do corredor. Tranquei a porta frágil do quarto onde estava. Escorei uma cadeira na tentativa de dificultar o que quer que forçasse a entrada.  Puxei a menina de dentro do armário. Tentei secar as lágrimas dela, mas ela não deixou. Perguntei se estava sozinha e ela não respondeu.

O banheiro imundo de secreções ainda humanas e cheirando a mijo tinha toalhas encardidas penduradas. Peguei uma daquelas e limpei meu rosto. Lavei meus olhos, minhas mãos. Eu estava muito machucado e sujo.

A menina sentou em uma das camas e estava em estado de choque. Eu não ouvi mais nada. Nem lá fora, nem aqui dentro. Revistei o quarto todo, e achei estes papéis na pequena escrivaninha do canto. Escrevo neste momento minha história, sentado no chão, sem saber se alguém vai conseguir sobreviver a isso tudo. Esta noite eu preciso esticar minhas pernas, curar minhas feridas, mas não posso cair no sono. Se eu dormir corro o risco de parar mais uma vez naquele local onde mora o medo. Onde flutuei sem ar na escuridão. Se bem que agora não faz a menor diferença. O medo está aqui comigo. Lá fora escutei um grito abafado. Eu e a menina nos olhamos e decidimos em silêncio deixar pra lá. Estamos cansados, famintos, em pânico. Somos um nada. Nos encolhemos. Ela na cama e eu aqui no chão. Vamos ficar assim até o dia amanhecer. Ai pensaremos no que fazer.

FIM

Conto enviado gentilmente por Andrea Carvalho

* Este texto foi classificado num concurso e está em um e-book.para ter acesso ao e-book é só clicar aqui

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