10 de julho de 2013

A Mulher do Algodão

Por Léo Bargom

Segundo dia do horário de verão, segunda-feira, dia que a movimentação para ir ao trabalho é mais lenta, pois no domingo todo mundo estica um pouquinho e esquece que no dia seguinte tem que ir trabalhar uma hora mais cedo.

Quem tinha que trabalhar cedo deveria chegar uma hora antes na escola, os primeiro chegavam ás cinco horas da manhã. Ainda estava muito escuro e uma intensa neblina encobria toda cidade, a movimentação na rua era muito pequena, poucas pessoas cumpriam o horário.

Lucimar estava andando apressada na rua ainda escura e a neblina dificultava sua chegada à escola. Lucimar era a primeira a chegar, sempre chegava e tudo ainda estava escuro.

Neste primeiro dia de horário de verão então estava pior que os outros dias, além de muito escuro ainda estava com muita neblina, mesmo perto ainda não se enxergava a escola de tanta neblina e escuridão.

Lucimar ao chegar ao portão da escola estranhou, o fim daquela noite estava diferente, a neblina em volta da escola estava mais intensa e mais densa.

As luzes da escola estavam quase todas apagadas. Lucimar entrou com um pouco de receio e medo. A porta de acesso à escola estava semiaberta, não estava aberta como sempre era encontrado, o silêncio dentro da escola não era comum, pois os vigias sempre estavam se preparando para ir embora ao fim de seus turnos.

Um pouco de medo fez Lucimar entrar com receio e bem devagar. Quando Lucimar chegou dentro da escola observou que os dois vigias estavam no pátio ainda escuro e com muita neblina.

Por precaução ficou algum tempo parada observando os vigias. Estranhou que nenhum deles se virou para vê quem tinha entrado na escola, tão pouco falou um bom dia como era de costume.

O silêncio em toda escola fez Lucimar ficar apreensiva, tudo parecia diferente, aquele fim de noite do segundo dia de horário de verão estava muito esquisito, nada estava normal.

Durante todo tempo que estava na escola não chegava mais ninguém, isto fez Lucimar aumentar seu medo. Para quebrar um pouco o gelo que estava no lugar naquele momento Lucimar tentou falar com os vigias:

- Bom dia? Com foi o plantão? – Diz Lucimar tentando fazer com que os vigias a percebesse.

Lucimar ficou aguardando uma resposta, mas nada ouviu, nada aconteceu, o silêncio prevaleceu. Parecia que ninguém tinha falado ou ninguém ouvia suas palavras.

Percebendo que algo estranho estava acontecendo Lucimar começou a tremer de medo, seus olhos agora estavam mais atentos e seu corpo pressentia algo, pois seus pelos estavam todos em pé.

Mesmo com medo Lucimar aproximou-se dos vigias e ao chegar bem perto observou que os dois estavam olhando para alguém na neblina densa do pátio como se estivessem escutando algum recado ou alguma mensagem.

Lucimar com muito medo tentou puxar um dos vigias pelo braço, este se virou vagarosamente e com os olhos em estado de pavor falou com uma voz estranha e rouca:

- Você chegou antes da hora, ainda é muito cedo?

- Não é não? Começou o horário de verão, já são seis horas? – Diz Lucimar explicando o motivo de está ali naquele horário.

- Não? Ainda é muito cedo, volta mais tarde! – Diz o vigia voltando seu olhar para a neblina, como se alguém o chamasse.

- Vocês estão muito estranhos, já é manhã e vocês estão olhando a neblina e parece que não estão em si, alguma coisa está acontecendo! – Diz Lucimar demostrando medo em seu comportamento.

- Você não está vendo? Ela está ali na neblina falando com a gente, vem que ela quer falar com você também. – Diz o vigia Francisco tentando mostrar a mulher no meio da neblina.

- Ela quem? Vocês estão doidos? Não estou vendo ninguém, vocês estão falando besteiras. – Diz Lucimar aflita.

- A mulher ali no pátio toda de branco, você não está vendo? – Diz o vigia Aguinaldo fazendo gesto com a mão apontando em direção do pátio em meio à neblina.

- Vocês estão me assustando? Deixem de brincadeira que tenho que trabalhar. – Diz Lucimar ainda mais assustada.

- Não é brincadeira, nós ficamos a noite toda vendo estas pessoas andando aqui na escola! – Diz o vigia Francisco meio sonolento.

- Que pessoas? Vocês estão bêbados, não tem ninguém aqui, só vejo escuridão e neblina, nada mais. – Diz Lucimar convicta.

Neste momento a porta da escola é aberta com a chegada das funcionárias Gloria e Regina. Ao entrarem observam que Lucimar e os vigias estão no pátio da escola conversando. Gloria já vai logo alertando com seu jeito descontraído:

- O que vocês estão fazendo ai? Aqui não é lugar de reunião, vamos trabalhar que daqui a pouco vai está cheio de alunos e o serviço tem que ser feito logo!

- Que reunião que nada Gloria? Desde que cheguei estes dois estão aqui parados, cheios de conversas estranhas, parecem que estão controlados por algo sobrenatural. - Diz Lucimar explicando as coisas estranhas que estava acontecendo.

- Cruz credo Lucimar? Vai com esta boca pra lá eu já fico arrepiada só de você falar. Esta escola é meio estranha e você vem com esta história. – Diz Gloria fazendo o sinal da cruz.

- É mesmo? – Diz Regina com os olhos arregalados.

- Estou falando a verdade, olha pra eles e veja se não estão estranhos! – Diz Lucimar tentando alertar as colegas.

- É mesmo? – Diz Regina que é de pouca conversa.

Gloria tenta falar com um dos vigias e este reage de forma lenta e com voz meio estranha. Gloria arregala seus olhos, põe a mão na boca e fica assustada. Regina tenta falar também e recebe a mesma reação.

Uma luz aparece entre meio a neblina que é vistas por todos, após alguns segundos os vigias voltam aos seus estados normais, conversam, cumprimentam e volta para as mesas da entrada da escola. Percebendo as atitudes dos vigias Gloria fala:

- Ei vocês? O que está acontecendo aqui? Vamos logo explicando que não temos tempo, o serviço está parado, vamos logo expliquem?

- Explicar o quê? A gente estava falando com ela, você não viram? – Diz o vigia Aguinaldo com naturalidade.

- Com ela? Que é ela? Onde está esta tal de ela? – Diz Lucimar tentando entender aquela história.

- Vocês vão vê? Aguarde que todo mundo vai ver, ela está por ai! – Diz o vigia Francisco com a mesma naturalidade que Aguinaldo.

- Vocês estão é pirado, isso sim, não falam coisa com coisa, vamos trabalhar que daqui a pouco tá todo mundo ai! – Diz Regina alertando as colegas.

Um sorriso estranho foi esboçado pelos vigias, mas ninguém observou, o trabalho tinha que ser feito. Lucimar, Regina e Gloria foram tratar de seus afazeres.

O dia demorava a chegar, pois o horário de verão atrasa a luz do sol. A neblina continuava em toda escola mantendo-a escura e fria.

Cada uma foi fazer sua tarefa ainda pensando na história dos vigias, estavam com medo, mas o trabalho tinha que ser feito.

Gloria e Regina foram diretas para os banheiros masculino e feminino para adiantar o trabalho que ficou atrasado por causa da história.

Gloria entrou no banheiro feminino e começou fazer seu trabalho, percebeu que um dos box estava fechado, achou estranho mas continuou seu trabalho.

Gloria entrou no primeiro box, este estava muito sujo como sempre, como se um animal irracional o estivesse usado.

Gloria deu a primeira descarga e nada, a segunda e nada, na terceira vez Gloria bateu com o pé três vezes no vaso e deu descarga, esperando obter êxito xingou alguns palavrões.

Gloria olhou para o vaso e este tinha feito sua parte, respirando mais aliviada foi saindo do box quando ouviu um choro.

Gloria parou o que estava fazendo para ouvir melhor de onde vinha o choro. O silêncio revelou de onde vinha.

Do box fechado vinha o choro que mais parecia um lamento doloroso. Gloria com medo chamou Regina que estava no banheiro ao lado. Regina chegou meio desconfiada e falou:

- O que foi Gloria? Tem alguma coisa errada?

- Regina tem alguém no ultimo box e eu não vi entrar ninguém aqui o que será? – Diz Gloria assustada.

- Deve ser algum aluno que chegou mais cedo e você não percebeu. – Diz Regina tentando acalmar Gloria.

- Regina eu não vi aluno nenhum aqui, isto está muito estranho? – Diz Gloria assustada.

- Vamos ver quem é então? Vamos abrir o box! – Diz Regina tremendo de medo.

- Vai à frente, eu não vou abrir este troço de jeito nenhum? - Diz Gloria com expressão de pavor em seu rosto.

- Vou chamar um vigia, fica ai observando se ninguém sai de lá! – Diz Regina indo correndo chamar um dos vigias.

Quando Regina chega à sala dos vigias não vê mais ninguém, volta correndo para o banheiro onde deixou Gloria e fala:

- Estranho, os vigias já foram embora e ainda não deu o horário deles!

- E agora o que vamos fazer? – Diz Gloria com os olhos arregalados e tremendo de medo.

O lamento no banheiro se torna mais forte, como se alguém estivesse sentindo dor ou passando mal. Gloria e Regina criam coragem para abrir o box e ver quem está lá.

Uma segurando a outra chega bem perto do box. Regina pega o trinco do box para abrir quando sente um cheiro forte de sangue vindo de dentro e alerta Gloria.

- Gloria você está sentindo este cheiro de sangue?

- Estou Regina, parece que tem alguém ai dentro sangrando muito! – Diz Gloria muito assustada.

- Então vamos abrir logo, pode ser que alguém esteja precisando de ajuda! – Diz Regina forçado a porta para abrir o box.

Quando finalmente a porta do box se abre Regina e Gloria se deparam com uma mulher toda vestida de branco com os olhos escorrendo sangue e o nariz, boca e ouvidos cheios de algodão melados de sangue.
Suas mãos sujas de sangue passa nos azulejos do box deixando as marcas dos dedos e fazendo um desenho tenebroso.

A Mulher de Algodão que estava sentada no vaso começa a se erguer sobre o mesmo, suas mãos vão ganhando altura segurando nas paredes do box como se fosse ficar em pé.

Gloria e Regina ficam abraçadas, paralisadas e com uma expressão de terror em seus olhos.

A Mulher de Algodão quando fica totalmente de pé olha para Gloria e Regina com seus olhos cheios de sangue escorrendo e faz alguns gestos com as mãos. Gloria e Regina não esboçam qualquer reação, ficam tremendo e entorpecidas com sena em sua frente.

Após alguns minutos conseguem reagir e tentam sair do banheiro. Quando chegam do lado de fora os dois vigias estão de braços cruzados observando tudo sem qualquer reação.

Gloria e Regina falam, gesticulam e gritam, mas nenhuma reação e feita por parte dos dois como se os mesmos estivessem hipnotizados.

Tudo acontece em pouco tempo, mas parece que o tempo está parado. A neblina continua e o dia demora a chegar e escola parece que está em outra dimensão em outro lugar.

Tudo está acontecendo rápido, mas o medo que envolve Regina e Gloria parece real, seus gritos não são ouvidos e ninguém aparece para ajudar.

Em outra parte da escola Lucimar está verificando as salas para começar a limpeza quando ouve um barulho peculiar de um molho de chaves.

Lucimar vai abrindo as salas e o barulho das chaves continua como se alguém estivesse correndo de um lado para outro brincado com o molho de chaves.

Quando Lucimar abre a ultima sala observa um vulto correndo na neblina, parece uma criança.

Lucimar vai em direção à criança em torno da neblina, quando chega bem perto observa que é uma menina de vestido branco, com desenhos de flores bordados a mão, um laço de fita vermelha no cabelo bem amarrado, um sapatinho preto, com um sorriso frio e pele branca como se estivesse maquiada para se enterrada.

Lucimar se assusta e fica por algum momento observando a menina que ergue o braço direito mostrando em sua mão um molho de chaves desaparecidas da escola.

Uma luz forte começa a aparecer e a neblina vai se desfazendo aos poucos. O dia finalmente chega e tudo vai voltando ao normal.

Antes de a luz tomar conta de toda escola escuta-se um grande sorriso de uma criança que passa correndo fazendo barulho com um molho de chaves e desaparece com o resto da neblina...

FIM!
Sugestões da nossa loja oficial, a LojaSobrenatural.com.br
Comentários