2 de julho de 2013

Pessoas na Pista


Por Erik Nunes

O que passo a relatar agora ocorreu no ano de 2007, o mês não me recordo ao certo, com os tios por parte de mãe da minha esposa. Eles são naturais de Cruz Alta, cidade do interior do RS, e tem negócios na capital. O fato é que estão sempre indo a Porto Alegre. Por vezes surge algo de urgência que os faz pegar a estrada a qualquer hora do dia, ou da noite.

Como a grande maioria das estradas deste nosso pais, a que liga Cruz Alta a Porto Alegre é péssima. Cheia de buracos, estreita, sem a sinalização adequada, sem acostamento, pontos cegos, enfim, um risco a cada curva. São cinco horas de viajem, em uma velocidade segura, o tio da minha esposa faz em menos de três.
Ele era acostumado a voar no transito. Com ou sem condições, ele acelera o veiculo no limite, não da sinal algum. Dirige muito bem, mas é um péssimo exemplo de motorista.

No fim de um dia frio e chuvoso, eles receberam uma ligação de seu advogado, pedindo que estivessem em POA logo cedo. Resolvem sair tão logo arrumem suas malas, o que da em torno das 22 horas.

Quando pegam à estrada, a chuva já não é tão forte quanto foi durante o dia todo. Porém, a pista estava molhada, e nas condições que já citei.

Por volta das 23 horas, em um ponto totalmente escuro, eles ficaram presos atrás de um velho caminhão carregado de lenha. Por se tratar de uma estrada muito estreita, e não ter visão de quem vem no sentido contrario, resolveram manter a posição, e seguir o ritmo do caminhão.

Segundo o seu relato, dava pra ver um grande vazamento de óleo neste caminhão, o que estava fazendo com que a pista se tornasse ainda mais perigosa.

A situação já não era das mais seguras, quando passaram por uma rotatória e chegaram a uma subida consideravelmente elevada, e longa.  De um lado um grande paredão de pedras e do outro, uma queda de mais de 50 metros.

Lá pelo meio da subida a esposa pede que tente passar o caminhão ou de preferência encontrasse algum lugar para parar, pois estava com muito medo de acontecer algum acidente.

Foi ai que tentou acelerar para ultrapassar o caminhão, e no mesmo instante o carro perdeu o controle, devido à chuva e óleo na pista, e começou a girar pela pista.

O carro estava completamente desgovernado, e nessa situação não ter muito que ser feito. O carro invadiu a pista contraria e inevitavelmente se dirigia para o barranco, quando bateu em uma grande toca de cupim.
Estas tocas se assemelham a um monte, por vezes bem grande, são feitas de terra, e são bem fortes.

Por sorte a simples toca pode conter o carro por não estar em alta velocidade. Porem, o carro ficou virado para o sentido contrario, e preso na toca. Logo acionaram o seguro, que ligou para a Policia Rodoviária, que em poucos minutos já tinha uma viatura no local. Sinalizaram a pista e desviaram o transito, conforme é procedimento.

Em pouco tempo já tinha uma ambulância e um guincho a disposição. Ninguém se feriu, e o carro nada sofreu, podia seguir viagem. O retiraram sem maiores problemas. Porem o carro ficou virado para o lado contrario. O policial instruiu que retornassem até a rotatória para fazer o retorno. Pois era muito arriscado manobrar na pista.

Muito nervoso e assustado, saiu bem rápido para tentar recuperar o tempo perdido, segundo seu relato, estava a 80 km/h.

A 50 metros do ocorrido, ele viu várias pessoas na sua pista. Tinham homens, mulheres e crianças bem vestidas. Segundo ele pareciam roupas de outra época. Mas, inicialmente pensou ser pessoas de alguma colônia próxima. Neste instante reduziu para 20 km/h, colocou luz alta e ligou o alerta.

Reproduzo as palavras do casal.

-Por que esta indo tão devagar? - Indaga a esposa.

-Ora! Não quero causar um desastre! Tem muita gente na pista, e posso atropelar alguém!

-Que?! Ta maluco?! Que gente? A pista ta livre!

-Ta cega?! Olha ai na frente! Aquelas meninas no meio da rua, com vestidos de laço. Não ta vendo!?

-Não! Não tem ninguém na estrada! Vai logo!

-Deve ter sido algum ônibus que estragou. Na volta eu te mostro.

Mantendo sua baixa velocidade, deu sinal para esquerda, e foi passando por toda aquela gente dirigindo na faixa contraria. Continuou insistindo com sua esposa, que tinha gente andando ao lado do carro. Mas ela não via nada.

Quando viu que já não tinha tantas pessoas na sua frente, retomou a velocidade. Mas não saiu da pista contraria. Podia ver as pessoas pelo retrovisor.

Foi quando do nada, dois vultos, de homens, mais escuros que a noite apareceram ao seu lado.

Acompanhando o carro a uma velocidade superior a 80 km/h. Assustado, chamou a atenção de sua esposa:

-Olha aqui! Estes malucos praticando corrida no meio da rua há essa hora! E a essa velocidade? É impossível.

-Quem? Onde tu ta vendo isso?

-Aqui do lado. Não vai dizer que não esta vendo também!?

-Pior que não estou vendo nada.

-Ah!? Vou falar com eles.

Ao abrir o vidro, antes de poder abrir a boca pra falar, um dos homens disse o seguinte:

-Hoje vocês tiveram muita sorte! Escaparam! Voltem para sua pista.

E no mesmo instante saíram da estrada em direção a um desfiladeiro. Agora mais assustado do que nunca, reduziu mais a velocidade e ficou em absoluto silêncio. Fez o contorno e tentou ver as pessoas ou o ônibus que achava ter na estrada. Mas, nada foi visto. Não tinha ônibus, não tinha gente, nada! Continuou a viagem sem problemas, e sem falar.

No dia seguinte nos encontramos, minha esposa e filha iam pegar uma carona para Cruz Alta com seus tios. Ele estava muito agitado e pálido. Estava com pressa, não queria pegar a estrada a noite.

Mais tarde liguei para minha esposa, que disse que chegaram bem, e que seu tio estava estranhamente cuidadoso.

Mais de um ano depois, resolveu contar esta historia para a família.

E interpretou que aquelas pessoas na pista estavam ali para proteger eles. Pois se estivessem correndo em uma decida daquelas, com pista molhada, e todas as condições adversas, iriam cair no desfiladeiro, e morrer. Acha que estas pessoas sofreram um acidente fatal e não queriam o mesmo para o casal. Os vultos entende ser a morte que os perdeu.

Hoje, ele procura por alguma noticia de acidente naquela região.

Neste relato, tentei ser o mais fiel possível ao que ouvi. Acredito nas palavras desta pessoa, e com a autorização dele quis dividir com todos.
Comentários