3 de julho de 2013

O Segredo da Imortalidade


Parecia uma noite como as outras, ou isso achava eu. A lua mostrava-se plena e redonda a quem passeava no parque como eu. O odor primaveril do rosmaninho em flor acalmava-me o espírito, e quaisquer que fossem os meus problemas, naquele lugar e naquele momento deixavam de existir. Deitava-me num banco a olhar para cima e deixava-me acalmar pelas estrelas. Todos os dias fazia a mesma coisa, estivesse bem ou mal. Mas algo estava para acontecer que iria mudar isso.

Foi então, enquanto perguntava a mim mesmo quanto tempo mais iria durar aquela terna calma, que eu, pensando estar sozinho naquele lugar, ouvi alguém chamar por mim.                  

Artur. vem Artur! - aquela voz não me era estranha. ouvia-a, sabia de onde vinha mas não via ninguém. Apenas ouvia alguém chamar-me. Uma voz doce e meiga à qual não conseguia resistir.

Segui-a aquela voz pela noite da minha cidade, e ainda que estivesse parcialmente hipnotizado pela sua doçura, ainda tinha presença de espírito suficientemente forte para ir testemunhando com os meus próprios olhos, a forma gradual como se iam transformando em algo sombrio e obscuro, aqueles lugares acolhedores que me tinham visto crescer. O ar primaveril daquela noite, desapareceu em apenas segundos. A lua e as estrelas deram lugar a nuvens carregadas, por vezes trespassadas por enormes relâmpagos que pareciam transformar a noite em pleno dia.

Não reconhecia o lugar onde estava. A única coisa que sabia era que tinha de seguir aquela voz. Precisava saber o que me queria.

De repente parou de me chamar, e eu estava ao pé de um desfiladeiro um pouco estreito. Tão estreito que conseguia ver do outro lado uma estranha mansão. Um lugar que nunca tinha visto antes. Sabia apenas que a minha consciência me dizia que a dona daquela doce voz que me tinha chamado estava lá, e que eu teria de a encontrar de qualquer forma.

Olhei em volta em busca de uma forma de passar, mas parecia não haver nada. Digo parecia, porque parcialmente escondida atrás de uns arbustos estava uma fenda numa rocha, que parecia ser a entrada para uma caverna. Tomei algumas precauções antes de entrar e pegando num archote que estava aceso um pouco para dentro da passagem, comecei a descer uma estranha escadaria em caracol toscamente talhada na pedra. Lembro-me como se fosse hoje que eram muitas escadas, mas mal sabia eu aquilo que me esperava. Cheguei ao fundo da escadaria e encontrei-me num longo corredor.. À medida que o ia percorrendo reparei que estava a atravessar o fundo  do desfiladeiro. Cheguei ao fim do corredor e encontrei umas escadas iguais ás primeiras e comecei a subir. Quando cheguei à superfície, mal cheguei à saída, deparei com uma cena que não era visível do outro lado do desfiladeiro. No meio de um ambiente noturno e tenebroso estava a mansão que tinha visto. À sua volta não havia jardim. Apenas um enorme pátio com mosaicos pretos, onde havia meia dúzia de suportes para livros, cada um deles com um livro muito antigo. Uns abertos, outros fechados.todos misteriosos.

Aproximei-me de cada um deles para verificar do que tratavam. os primeiros cinco que eu examinei não estavam escritos e também não tinham qualquer titulo. Ao chegar ao sexto e último livro algo estava diferente. Era mais pequeno, estava escrito e tinha título: “O Segredo dos Sonhos da Imortalidade”. Comecei a folheá-lo com alguma curiosidade. e fiquei surpreendido com o que estava escrito na primeira página.

“Caro leitor. se tu estás agora a folhear este pequeno livro e ele te parece inofensivo pelo seu tamanho, desengana-te, pois na verdade tens agora à tua frente o livro mais poderoso e perigoso que já foi escrito, não apenas no planeta onde vives, mas também no resto do universo.

Tem cuidado leitor, pois se decides continuar esta leitura e fores apenas um mortal, a tua vida nunca mais será a mesma, porque não escaparás à maldição que se esconde entre estas linhas. Irás viver de perto os seis sonhos da Imortalidade. Cada um deles mais confuso do que o anterior, que apenas compreenderás se estiveres destinado a viver para sempre.

Nas linhas seguintes encontrarás a lista dos sonhos.

Prepara-te, descontrai ou preocupa-te, pois a partir de agora irás olhar o sono de outra forma.

1º Visita ao castelo sombrio
2º A ilusão da morte
3º O fruto proibido
4º A morte da ilusão
5º Cristo crucificado
6º Transfusão"

Não precisei ler mais. Senti a realidade nas palavras ali escritas, mas o bom senso com que habitualmente vivia a minha vida, não me deixava acreditar no que ali estava escrito.

Mas havia pelo menos duas coisas inacreditáveis que me estavam a acontecer: primeiro aquela bela voz que me chamava ininterruptamente uma e outra vez, sem que eu conseguisse vislumbrar a quem pertenceria.
Em segundo lugar, todo aquele universo surreal em que estava integrado, sem perceber onde e como. Sei que esta situação seria mais do que suficiente para transformar em crente convicto o maior dos descrentes, mas, ainda assim, eu não acreditei.

Peguei no livro e tirei-o do pedestal para o observar melhor. Anteriormente tinha apenas folheado, como se um estranho receio escondido no meu subconsciente me quisesse avisar para um perigo oculto.

Ao pegar nele, algo ainda mais estranho aconteceu. Todo aquele cenário desapareceu instantaneamente frente aos meus olhos, e eu estava outra vez no lugar onde tudo começou, deitado no banco do jardim a olhar as estrelas.

Quase instantaneamente, surgiu na minha mente a solução para aquele mistério, tinha dormido e tudo fora um sonho. Ou isso achava eu.

Dirigi-me para casa para me deitar, e, ao despir-me, algo mais estranho ainda aconteceu. Encontrei no blusão que trazia vestido, o pequeno livro com que tinha sonhado, ou então, era outro ligeiramente parecido.
Pelo menos o título coincidia: “O Segredo dos Sonhos da Imortalidade”. o texto da introdução também era o mesmo.

Nesse momento, apesar de estar preocupado com tudo o que estava a acontecer estava demasiado cansado para pensar e resolvi preocupar-me na manhã seguinte, depois de uma noite de sono reparador.
Mas não foi assim.

Deitei-me na cama virado para cima e fechei os olhos para tentar dormir. Não devo ter demorado muito a dormir, porque subitamente comecei a sonhar, mas era um sonho estranho. Tive uma estranha sensação de dejá-vú.

A primeira coisa de que me lembro desse sonho foi o fato de estar deitado num banco de jardim a observar a beleza da noite, quando sinto alguém chamar-me pelo nome.

- Artur ! Vem Artur !

Aquela voz doce chamava-me outra vez, mas desta vez não ouvia apenas uma voz, também via quem me chamava.

Uma linda donzela vestida de branco com cabelos negros, lisos e muito compridos, que escondiam parcialmente um rosto angelical, cuja beleza e sensualidade levariam qualquer homem a cometer loucuras. sabia que falava, porque ouvia-a, mas os seus lábios rosados não mexiam.

Levantei-me do banco e fui ter com ela. Perguntei-lhe o nome e ela não me disse, afirmando que esse era um pormenor que não importava. perguntei-lhe também porque é que me chamava e de onde me conhecia, mas apenas me disse que precisava acompanhá-la.

E foi isso que fiz. sei que mesmo que tentasse recusar não conseguiria resistir-lhe. Algo muito forte controlava a minha vontade, só não sabia o quê.

Os acontecimentos da noite passada repetiam-se. A única coisa diferente era a presença da donzela, o resto estava tudo igual, as mudanças graduais da paisagem, o cenário sombrio, o desfiladeiro, um estranho castelo no lugar da mansão, um típico castelo medieval, com cinco torreões redondos, que dava àquele cenário um ambiente ainda mais sombrio.

Descemos as mesmas escadas que eu tinha descido, percorremos o mesmo corredor, novamente encontrei outras escadas que tive de subir. Imaginava o que me esperava à superfície  e não me enganei, o mesmo pátio, os mesmos pedestais com os livros e um que estava vazio.

Perguntei à donzela o que era tudo aquilo, ao que ela respondeu:

- Estamos no pátio do castelo sombrio. um sitio que está para lá da realidade. e tu és um dos eleitos.

- Um dos eleitos? Para quê?

- Eleito para conhecer um mundo desconhecido dos humanos e escolhido para fazer parte dele.

- Mas. que mundo é esse?

- O mundo dos imortais.

- Mundo dos imortais? Mas porquê eu?

- Uma vez em cada cem anos é escolhido um ser humano ao acaso que é trazido para aqui por mim. Ao chegar a este pátio escolherá inconscientemente um de seis caminhos possíveis. O livro que escolher ditará o seu futuro. Contigo não foi diferente. Cinco dos seis livros estão em branco. Um está escrito e contém o segredo da imortalidade.

- Porque é que há cinco livros em branco e apenas um escrito?

- A razão é simples. Aquele que escolher um dos livros em branco, poderá pedir o que quiser. Os seres humanos são muito medrosos e ao chegarem a este lugar desejam sempre estar num lugar diferente. A maioria das vezes em casa, em segurança. Os que são verdadeiramente corajosos permanecem aqui e procuram encontrar explicação para o que está a acontecer no único livro que lhes parece conter informação. O livro que está escrito. Mais alguma pergunta?

- Sim. porque é que eu ontem vi uma mansão e agora vejo um castelo?

- Muito simples também. vou responder-te com uma pergunta. Se da primeira vez que estiveste aqui tivesses visto o castelo em vez da mansão, será que terias seguido a minha voz com a mesma curiosidade?

- Talvez não, mas se o objetivo é atrair em vez de assustar, qual a razão de todo este cenário Dantesco?

- O ser humano é muito estranho, e sente-se sempre mais atraído pelo que o assusta. Não consegue resistir à curiosidade. É quase manhã. Está na hora de acordares. Saberás mais coisas quando chegar o momento. este foi o primeiro sonho da lista. até breve.

- Até breve.

Foi então que acordei, leve como uma pena para quem tinha acabado de ter um sonho real. Sabia que haveria mais como aquele, tudo era uma questão de tempo.

O dia passou com a rapidez de um relâmpago, sem nada para assinalar, e quando dei por mim já era outra vez noite.

Tive algum receio de me deitar, mas a minha curiosidade era maior do que o meu receio e deitei-me.

Não tive de esperar muito pelo sono. Mal encostei a cabeça na almofada senti-me adormecer. Passados alguns segundos abri os olhos, e não estava nem deitado nem no quarto. Estava em pé, num lugar que me parecia ser uma capela mortuária. Estava a decorrer um velório. A sala onde estava não era muito grande. Algumas velas vermelhas estavam acesas em vários candelabros que estavam pendurados no teto. As paredes estavam pintadas de branco. Havia lá mais gente além de mim. mais homens que mulheres, de várias idades, todos vestidos a rigor. Não reconheci ninguém. Ao centro da sala estava o caixão, aberto, de madeira escura. e do lugar que estava não via quem estava lá dentro. Sempre receoso decidi aproximar-me para espreitar, passo a passo, pé ante pé, cheguei perto. Fiquei surpreendido com o que vi. Era uma boneca de trapos do tamanho de uma pessoa.

Não compreendi. Antes de chegar mesmo ao lado do caixão para examinar melhor, a boneca levanta-se e fica sentada. Assustei-me com isso e comecei a recuar, lentamente, sem virar as costas aquele estranho cenário.

À medida que me ia afastando vi a boneca sair do caixão com notória dificuldade começando a andar com movimentos imperfeitos dirigindo-se a mim.

Nessa altura gritei, quase em pânico:

- Nãoooooo !!!!

Fechei os olhos por momentos e quando voltei a abri-los, estava de novo deitado na minha cama, tão leve como estava antes de dormir, e esclarecido. Era o segundo sonho da lista.

Apesar do susto compreendi o que o sonho me queria mostrar. queria fazer-me compreender várias coisas: que nada é impossível. que a morte é uma ilusão. que tudo é perecível apenas aparentemente, e que a única coisa que realmente morre, mais cedo ou mais tarde, é a ilusão.

Era dia outra vez. Sabia que ainda havia mais coisas para saber, bastava-me esperar.

Mais uma vez, o meu dia passou a correr, e quando dei por mim já era outra vez noite.

Deitei-me novamente, como na outra noite. Chamei o sono e ele veio. Fechei os olhos e dormi.

De repente, senti que alguém estava abraçado a mim, e tive uma doce surpresa ao abrir os olhos. Era uma garota. a minha amiga Maria. mas algo estava estranho.

Ela estava nua da cintura para cima. abraçava o meu corpo com todas as forças e pedia-me ajuda. Não me explicou ao pormenor o que se passava, mas pareciam ser problemas com o namorado. Segundo o pouco que ela disse, o namorado tinha-a violado.

Pedi-lhe carinhosamente para se acalmar, que agora estava tudo bem, pois eu estava ali e nunca deixaria que lhe fizessem mal.

Pouco depois ela acalmou e adormeceu nos meus braços ainda com as lágrimas a sair dos olhos, molhando-lhe o rosto. Maria era a mulher que qualquer homem pediria à Providência. Era doce, meiga e sincera. Uma das pessoas mais queridas que conhecia. bela por dentro como era bela por fora. Morena, cabelo curto pelos ombros, feminina.

Sempre a desejei, e estava agora, fraca, à minha mercê. Poderia tê-la nesse momento se quisesse, mas gostava demasiado dela para me aproveitar da situação. Penso mesmo que não o faria mesmo que fosse uma desconhecida. Era moralmente incorreto.

Passei a noite com ela nos meus braços sem lhe tocar, e ao acordar soube que tinha superado uma dura provação. Percebi que a minha doce amiga simbolizava naquele sonho o fruto proibido, e eu não tinha caído em tentação. Era o terceiro sonho daquela lista. Faltavam apenas três.

Como das outras vezes, era já dia quando acordei. Os meus dias pareciam agora um ciclo vicioso, uma mórbida rotina pelo dia, e uma estranha aventura diferente a cada noite.

Na noite seguinte deitei-me novamente, desta vez sem receio. Confesso até que um pouco ansioso, pois talvez me esperasse essa noite uma surpresa tão agradável como na anterior.

Adormeci rapidamente e ao abrir os olhos reparei que tinha acabado de voltar de viagem, não sabia de onde e estava ansioso por ouvir as novidades que teriam surgido na minha ausência. Dei umas voltas pela cidade e não demorei a reencontrar um grupo de amigos. Perguntei se havia novidades e disseram que sim. Deram-me então uma notícia que me deixou visivelmente triste. A Sílvia. a mulher que eu amava, tinha morrido havia dois dias, e o funeral tinha sido no dia anterior à minha chegada.e então acordei. compreendendo o que tinha acontecido.

A Sílvia sempre tinha sido para mim uma ilusão e foi por isso que ela morreu naquele sonho. Porque era o quarto sonho da lista. o sonho da morte da ilusão.

Amanheceu e nada aconteceu no meu dia digno de nota.

Anoiteceu e fui dormir. dormi, abri os olhos e acordei em sonhos, num lugar que me era desconhecido.
Estava no campo, era de dia e o céu estava coberto de nuvens pouco escuras. Da paisagem bucólica sobressaía, além do fato de ter reparado que era Outono, pela folhagem que cobria o chão, uma pequena capela em ruínas. Aproximei-me. Reparei que não tinha porta para entrar. Parecia estar selada com pedra, mas conseguia ver o que estava lá dentro pelos buracos das paredes.

Não era daquelas coisas que se costumam encontrar numa capela. não havia nada nas paredes, mas havia algo no chão, uma espécie de piscina redonda que ocupava todo o chão, parecia ter cerca de três metros de profundidade e estava cheia de água cristalina. Não conseguia ver o fundo, porque não consegui entrar lá dentro, mas algo me fazia sentir o que estava no fundo. Jesus Cristo crucificado. Não sei se era o próprio, em carne e osso, ou uma das imagens que se costumam encontrar nas igrejas. Nesse momento acordei, e compreendi. percebia o significado do quinto sonho.

Hoje em dia a Igreja afirma e faz acreditar os seus seguidores que o mundo é um eterno Outono em busca constante da doce Primavera, e essa Primavera só a poderão encontrar dentro de um edifício em ruínas desde há muito tempo, onde é suposto encontrarem paz. Um edifício em constante risco de cair, onde se afoga publicamente Jesus Cristo em águas cristalinas apenas em aparência.

Era dia outra vez. Estava perto do fim ou do início, não sei bem. Este foi o dia mais longo, desde há alguns dias, e dava para perceber porquê.

Finalmente era noite, a noite da transmutação. A noite em que tudo ia mudar, por toda a eternidade.
Não sei se estava triste ou contente, sabia apenas que dentro de algumas horas poderia dizer adeus a tudo o que eu era antes. Apesar de  tudo o que tinha passado e testemunhado, havia ainda um pedaço de mim que considerava tudo aquilo como estranhas coincidências, e não podia deixar de pensar que tudo aquilo que eu estava a viver fosse apenas um sonho do qual estaria quase a acordar, nada tendo mudado na minha vida de sempre e acordaria frustrado ou não com a realidade. Não sei bem.

Estava pronto. Deitei-me e adormeci.

Abri os olhos e encontrei-me numa espécie de hospital. estava sentado numa cadeira. Do meu lado esquerdo estava um daqueles suportes com rodinhas onde se penduram os sacos de sangue, e era exatamente isso que estava pendurado ali.

Do saco, saíam dois tubos com quase uma polegada, que no outro extremo estavam literalmente espetados nas veias principais dos meus dois braços. Era suposto aquilo causar-me dores horríveis, mas eu nada sentia. Estavam a fazer-me uma espécie de transfusão, só não conseguia perceber se estavam a sugar ou a injetar sangue. Não me sentia mal, e, de repente, decidi ir passear pelos corredores do hospital. encontrava muita gente, mas pareciam não me ver, como se eu estivesse invisível.

Podia ir a qualquer lugar no hospital, pois nada me impedia de o fazer.

De vez em quando tentava aproximar-me das pessoas, só que quando isso acontecia, os tubos soltavam-se dos meus braços e jorravam grandes jatos de sangue dos orifícios. Isso obrigava-me a afastar dar pessoas, e apressava-me a meter os tubos nos lugares de onde tinham saído, como se disso dependesse a minha vida.

Entrei em pânico perante aquele cenário, mas acalmei-me ao ver um rosto conhecido. Alguém que conseguia ver-me: a bela donzela do primeiro sonho.

Aproximou-se de mim e confortou-me. abraçando-me e dizendo-me:

- Não te preocupes ! Vai correr tudo bem, já acabou o sofrimento. A partir de agora, acredites ou não, és imortal, e vais senti-lo em breve, como eu o senti.

- Como te chamas? Ainda não me disseste

- Sim. tens razão !! Ainda não te tinha dito porque tinha receio que não acreditasses em mim e não chegasses aqui. O meu nome é Eternidade, aquela que te foi confiada.

- Eternidade ??!! Aquela que...

- Sim, a verdadeira Eternidade. Aquela que foi criada por Deus para “recompensar” as suas melhores criações. A tua imortalidade depende de mim, e para ser completa a tua recompensa, só precisas de assinar nesta folha, com esta caneta vermelha.

- Assinar ?? A vermelho ?? Mas porquê vermelho ??

- Gosto dessa cor. Não confias em mim ??

Não respondi nada, apenas atendi o seu pedido. Algo me impedia de lhe recusar o que quer que fosse.
Entreguei-lhe o papel e ela desapareceu sem deixar rasto. Não voltei a vê-la.

Acordei. Saí para a rua e não me sentia diferente, mas algo estava diferente, muito diferente.

Os anos foram passando e pouco a pouco, os fatos foram-se tornando cada vez mais claros na minha mente. Tinha sido enganado. A Eternidade não era quem dizia ser. Conhecia os meus medos mais profundos, conhecia melhor que eu a minha ambição. Cheguei a uma conclusão: a Eternidade era o Diabo. disfarçou-se de uma bela mulher e ludibriou-me.

Mas agora dirás, caro leitor: E todas aquelas conclusões positivas a que chegaste após os sonhos? A resposta é simples, caro leitor. o Diabo conhece o Bem quase tão bem como conhece o Mal. Não pode reproduzi-lo, mas reconhece-o e sabe onde encontrá-lo. Aquele Bem que me mostrou e que eu julgava que não conhecia encontrou-o no meu coração, e roubou-mo definitivamente quando me obrigou a dar-lhe de livre e espontânea vontade a minha alma.

A minha história acaba aqui. Despeço-me e deixo-te um conselho:

Tem cuidado com as aparências. Porque elas iludem.

Fim
António Fonseca
07/06/2004
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