5 de julho de 2013

O Espírito na Casa

Gritos guturais emergiam dos fundos da residência, portas se moviam, vultos adornavam os cômodos internos, alguns afirmavam que constantemente era possível avistar um senhor idoso caminhando no jardim. Sim! Esta era a famosa casa assombrada da antiga sete de setembro. Nunca ninguém soube ao certo como se iniciou a história das assombrações em tal residência, por quanto os mais idosos relatam que a casa pertencera a um soldado da 2° guerra mundial e desde o fim de sua vida a casa jamais fora à mesma. Nunca alguém arriscou-se a ir morar nela; exceto a uns três anos atrás, quando uma família tentou reformar o lugar... Não duraram nem três meses, assim que se mudaram foram acometidos por forças ocultas e rapidamente saíram da residência, deixando tudo para trás. Os anos se passaram e os transeuntes evitavam até de pisar na calçada da residência.

Mas no ano de 2009 um rapaz moreno apresentou-se a um corretor. Disse que tinha o interesse em comprar a tal residência. No átimo o corretor ficou pasmo, em seu âmago já havia perdido completamente a esperança de vender tal lugar, jamais imaginou que alguém mostraria interesse em habitar a maldita casa...

- Muito prazer! Meu nome é Daniel, gostaria de comprar a casa 172 que fica na rua 7 de setembro, a parte antiga do centro de Manaus.

- Bem, quando disseram-me o que buscava, achei que fosse brincadeira, mas vejo que estas completamente desinformado sobre tal localidade. Tenho outros imóveis que serão do seu agrado. A corretora Oliveira sempre pensa no bem estar dos seus clientes e pensando niss...

- Não! Eu quero a casa...

- Meu jovem! As pessoas falam coisas horríveis sobre tal lugar. Garanto-lhe que não suportaria passar nenhum dia sequer naquele ambiente maldito. Eu mesmo nunca entrei na residência. A não ser que você seja um daqueles malucos fanáticos por assombrações... Olha, lhe aconselho a não desafiar tais energias, há um mun...

- Desculpa senhor! A razão que me leva a comprar tal casa não lhe diz respeito. É algo pessoal; garanto-lhe pagamento de dois meses adiantados e espero não ter que chegar ao extremo de assinar um termo de responsabilidade, mas se este for o caso eu me proponho.

Jorge, o corretor, ficou imóvel, mergulhou no mais absorto silêncio por quase um minuto. Estava atônito, durante anos ele jamais havia entrado em tal residência; apesar nunca ter desafiado tais fenômenos, ele mesmo pode presenciar o fato mais assustador de sua vida... Seu amigo Ramiro certa vez entrou na residência. Ramiro era cético e adorava desafiar e tirar a credibilidade de tais fenômenos, mas naquela vez ele foi infeliz. Assim que Ramiro adentrou a residência a porta frontal simplesmente lacrou. Jorge ficou horrorizado, já que não havia ninguém no local além dele e do amigo; não demorou nem dois minutos e Jorge ouviu gritos e num sobressalto pode ouvir um barulho semelhante a um raio, o som vinha da janela da cozinha, donde vidros se estilhaçavam pelo ar, aquela chuva era acompanhada de seu amigo. Que de tão assustado, havia pulado pela janela, quebrando tudo o que vira pela frente. Aquele ocorrido marcou intensamente o inconsciente de Jorge acarretando assim numa atual consciência de medo, torpor e respeito por tal imóvel. Mas, neste momento, frente a esse rapaz, o que ele poderia fazer de útil? A não ser absorver oxigênio e expelir gás carbônico. Levantou-se e disse:

- Meu rapaz, tenho idade suficiente para ser seu pai, para mim o importante não é somente vender. Eu prezo pelo bem estar dos meus clientes. Eu tenho uma imagem a zelar.

- Bem, meu caro Jorge, é estes eu nome, não? - Jorge assentiu com a cabeça – Tudo bem, compreendo sua posição, sei que tens idade de ser meu pai, mas garanto-lhe que tens a experiência para ser meu neto. Compreenda por favor, eu preciso morar naquele lar. Este é meu compromisso como ser humano.

Jorge o encarou, cerrou o cenho, em seguida baixou a cabeça e, por conseguinte a levantou novamente, fitou Daniel... Ele era um jovem simples: Cabelos negros e um pouco compridos, olhos castanhos, pele clara; tinha em seu peito um crucifixo reverberante. Era um objeto que se destacava, era impossível olhar para Daniel sem notar o tal crucifixo. E, mesmo a contra gosto, Jorge pensou em ceder; respirou fundo e deixou o ar sair lentamente por suas cavidades nasais;

- Er...Hum, Bem! Já que é assim q...

O Rapaz enfiou a mão direita em uma pasta e estendeu-lhe diversas notar de cem reais. Aquele ato deixou Jorge meio ressabiado; já que apenas malucos ou pessoas que possuíam dinheiro ilegal carregaria consigo tal quantia.

- Onde estão os papeis?

- Meu caro Daniel, deve saber que as coisas demoram um pouco até corroborarem-se. Digamos que cerca de três dias e até pod...

- Peço-lhe humildemente que me deixe ficar na residência, hoje mesmo, até que tudo esteja certo.
Jorge pensou em discutir, pois discordava da idéia, mas o rapaz já havia demonstrado ser irredutível...

- Tudo bem... Irei até lá às 18h45min e levar-lhe-ei as chaves. Combinado?

- Certo

Dizendo isso o rapaz deu um aperto de mão em Jorge em seguida saiu. Jorge ficou paralisado, pensava a esmo no tipo de loucura que havia vivido. Estava tão atônito com o que havia ocorrido que só então lembrou-se que nem havia conferido a quantia em dinheiro. Tateou os bolsos internos do paletó e notou um volume considerável, conferiu... Sim! Estava tudo certo, pelo jeito o rapaz havia planejado muito antes. Passou o dia assim, dentro do escritório perdido em devaneios fúteis

Na Casa

18h30min

Daniel avistou de longe um Renaut Clio Sedan aproximar-se de seu caminhão de mudança. Devido ao insulfilm, tornava-se quase impossível identificar quem dirigia o veículo. O carro estacionou, a porta do motorista abriu e dela saiu Jorge. Saiu do veículo, foi na direção de Daniel, e, sem dizer um mínimo: Boa-Tarde, ele enfiou as mão no bolso e estendeu a Daniel um molho de chaves, meio antigo, Daniel abriu as mãos e ele a soltou, de forma aliviada, como se quisesse ver-se livre de tais elementos torpes. Entrou no carro, e como o motor ainda estava ligado, apenas fechou a porta e deu meia volta e se foi.

Vizinhos curiosos amontoavam-se nas janelas e portas mancomunando o que levaria um louco a morar ali. Daniel não possuía muitos móveis, apenas o básico para manter as necessidades normais de um lar. Durante a organização dos móveis, diversos fenômenos paranormais ocorreram, mas sem maiores proporções.

19h58min...

Tudo estava em ordem, ou quase. Daniel pagou os rapazes e entrou. Toda a movimentação da casa era acompanhada por olhares furtivos, mas curiosos dos vizinhos. Daniel entrou, ligou a tevê de 20 polegadas, sentou-se na poltrona e abriu um pacote de salgados e se entreteu com o crock-crock dos salgados em sua boca e com o programa da tevê.

Era uma noite de domingo, a noite de estréia do programa do Gugu na rede Record. Daniel entretia-se com os quadros do programa, quando começou a ouvir o barulho de louças na cozinha; fingiu nem notar. Foi quando um copo voou rente o seu rosto, voou tão próximo ao seu nariz que ele pode sentir o leve sopro do ar como o suave toque de uma pena.

Enfiou a mão esquerda no saco de salgados e tentou colocar o máximo entre sua mão, mas era difícil, pois a maior parte dos salgadinhos escorria-lhe entre os dedos. Antes de colocá-los na boca disse:

- Se for começar a atirar objetos pelos ares, poderia, por favor, evitar objetos de vidro?

Não demorou nem dois minutos e a televisão desligou, justo na hora em que Gugu iria mostrar o resultado de uma transformação que uma casa havia passado.

- Daniel levantou-se calmamente, pôs os salgados na poltrona. Sentou-se no meio da sala cruzou as pernas e com a mão direita segurou a ponta inferior do crucifixo, com o dedo indicador e o polegar, o levou até os lábios e o beijou, em seguida disse:

- Chegamos ao silencio que eu queria, agora pode aparecer e falar.

As coisas começaram a voar pela sala, todas passando muito próximas a Daniel, as cadeiras da singela mesinha, começaram a vibrar, saltitando, como num trôpego balé. Apesar do cenário assustador, Daniel permanecia impassível àquilo que seria aterrador a outrem a ele parecia natural e fitando o vazio disse:

- Pelo jeito iremos passar a noite inteira aqui: Você quebrando tudo e eu sentado assistindo a este estúpido espetáculo.

Mais objetos começaram a voar pelos ares, sempre passando muito próximos a Daniel, mas nada o atingia.

- Meu caro! Deves ter percebido que não importa o que atires em mim, mesmo que seja o sofá, a mesa ou até mesmo o teto, não adianta, nada me atingirá. Não tenho medo de você! Além do que não vim aqui para brigar ou expulsa-lo; apenas quero conversar.

No átimo deste gesto surgiu na sala a figura fantasmagórica de um homem, já de idade bastante avançada e com olhos flamejantes em fúria a criatura espectral partiu em direção a Daniel, mas parou e bradou:

- Vá embora da minha casa ou lhe matarei.

Daniel levantou-se e foi em direção ao espírito e o encarou. A  posição de poder da tal entidade, mostrada anteriormente pareceu esvair-se, o ser pareceu pestanejar, já que jamais uma pessoa viva o encarou ou o desafiou dessa forma...

- Já lhe disse e repetirei! Não tenho medo de você... Sim, você é um espírito, e daí? ... O que você acha que anima meu corpo? Também tenho um espírito, sou um espírito... Que ao contrário de você tenho muito mais vantagens... pois ainda posso decidir meu caminho.

O Espírito não podia fraquejar, tinha que se impor, a casa era sua, mas quando já ameaçava iniciar mais um dos seus surtos poltergásticos, Daniel sentou-se novamente, assumindo assim a  postura anterior e prosseguiu:

- Venha! Vamos conversar... Sei que és inteligente e estas aqui por um motivo. Pretendes me contar ou preferes passar mais alguns anos escondido, como um rato num bueiro?

As últimas palavras de Daniel fizeram o espírito enervar-se novamente, mas mesmo estando mergulhado na mais pura ira, não sabe o porquê resolveu ceder.

- Não sei quem és, mas sei que há muito tempo não falo com ninguém, principalmente com pessoas que ainda estão vivas. Já vieram inúmeros espíritos, querendo levar-me para tal luz, mas tenho uma luta muito maior que a luz deles.

- Engraçado, caro amigo. Como te chamas mesmo?

Mesmo a contragosto o espírito resolveu responder:

- Carlos

- Prazer, Carlos! Como deves saber me chamo Daniel e mesmo sem você perceber, pude vê-lo me observando pela janela, pedi que me aparecesse, pois gosto das coisas esclarecidas. Vivo num paradoxo, mas tenho uma missão e pretendo cumpri-la; digamos que sou um vivo que auxilia os mortos.

Carlos já iria começar a enfurecer-se novamente e começar a atirar tudo pelos ares, mas pela primeira vez em sua existência viu que aquilo seria inútil, então Daniel prosseguiu.

- Desde pequeno fui assolado por visões fantasmagóricas, meu pai ficava horrorizado com tudo aquilo, apanhei diversas vezes do meu pai... Sandálias havaianas são macias nos pés, mas na bunda nem queira imaginar.

Pela primeira vez em anos, Carlos Sorriu, não via mais Daniel como um intruso e sim como uma visita.

- Vi que a maioria dos espíritos perdidos, dá seqüência a seus medos e... mesmo após a morte, assim como os vivos, se iludem com coisas as futilidades mundanas. Então, resolvi escuta-los e vi que ao ajuda-los eu também terminava sendo ajudado.

Carlos constantemente se chateava, mas, de certa forma, era nutrido de uma curiosidade muito maior que sua raiva, pela primeira vez resolveu escutar alguém.

- Lutamos para ficarmos ricos, termos um lar ou termos uma família. Isso, todo o ser de alma tem o direito o problema é que nós nos desviamos disso... Veja bem: Trabalhamos para viver bem, mas esquecemos de viver para trabalhar.

Carlos podia, de alguma forma, sentir a verdade advinda das frases do rapaz, mas tinha muito mais tempo na terra, jamais aceitaria sua palavra como verdade.

- Falas isto por que não sofreu. Não viu amigos morrerem em seus braços e jamais foste assassinado por herança. Saiba que meu filho me matou por esta casa, mas se deu mal, pois mesmo após a morte lutei por ela e sempre lutarei para perpetuar minha vitória.

- Carlos a vitória é um exemplo de nosso triunfo e perseverança sobre os males ou dificuldades que nos assolam. O que vale é a luta, a vitória é conseqüência... Não tente perpetuar sua imagem ou seu orgulho sobre aquele que talvez nem o valorizem. Já imaginou se Jesus pensasse assim... Ele teria descido da cruz, guerreado com os Romanos, triunfado com Israel, mas e aí? Ele somente criaria uma nova civilização suprema e opressora já que tam...

- Não me venha falar do seu Jesus. Cansei de ver inúmeros desgraçados virem aqui tentar apoderar-se de meu lar e me expulsar em nome dele, mas fui mais forte e aqui estou. Venci! 

- Bem, se o próprio Jesus quisesse você, nem eu, nem mesmo esta casa existiria. Mas às vezes também desconfio das leis de Deus. Acredito que ele não é sempre justo e sim bom, pois pela lei celeste já era para você seguir seu caminho, mas esta aqui por quê? Porque Deus deu-lhe uma nova oportunidade de rever e pensar em seus atos e também é por isso que aqui estou. Carlos gargalhou e disparou:

- Então és um enviado de Deus?

- Você também! Mesmo do erro Deus tira a perfeição. Seu erro irá servir de exemplo para outros que ainda estão perdidos...

- Para o inferno com a salvação! Salvação de quê?

- DAS NOSSAS DÚVIDAS! Vives aqui há anos e não sabe ao certo o porquê, defendes a casa de seu filho que nem mais está aqui, faz as pessoas sofrerem sem no mínimo saber quem são. Aponte-me alguma certeza em seus atos?

Carlos calou-se. Mesmo estando há anos na terra tudo aquilo que aquele rapaz lhe disse era real... Vivia uma vida inútil, preso a uma casa velha e abandonada. Durante anos assistiu seus vizinhos crescerem, casarem-se e seguirem suas vidas.  Olhou para o rapaz e disparou:

- Por que perdes tua vida preocupando-se com espíritos de velhos cabeça dura como eu?

- Não perco a minha vida, sinto uma alegria incomensurável ao vê-los livre. A felicidade consiste em ser útil. Ser feliz não é ter e sim dividir... “ Não existem pessoas más, apenas espíritos não esclarecidos” Você é bom, e como soldado lutou pelo correto, sabes disso; basta ser humilde e aceitar o presente que Deus te deu: A Vida Eterna.

Dizendo isto a sala foi inundada por uma luz intensa, uma luz tão forte que ofuscava os olhos de Daniel, ele cobriu os olhos com a palma da mão virada para fora. Foi quando um ser com contornos humanos, mas completamente preenchido de luz surgiu na sala e com uma voz penetrante e angelical, uma voz que não podia ser ouvida pelos ouvidos, mas sentida pela alma disse:

- Venha Carlos!

Carlos olhou para Daniel e sorriu, um sorriso quase que choroso e disse:

- Obrigado! Desculpa por tudo. Muito obrigado, espero poder retribuir um dia. Muito Obrigado...
Dizendo isso Carlos estendeu as mãos na direção do ser brilhante e nó átimo que o ser tocou-lhe as mãos os dois sumiram da sala. Daniel sorriu, caiu de joelhos e orou o tão conhecido pai-nosso, em seguida levantou-se e foi até seu quarto e lá adormeceu.

No outro dia Jorge Resolveu retornar a residência e quando chegou, não reconheceu o lugar... Sim era a velha casa, mas agora ela emanava novos ares. Podia sentir a liberdade no ar. Entrou pela portinha e quando ia à direção da porta de entrada Daniel abriu a porta. Ele segurava uma caneca donde emanava um doce vapor aromatizado de café;

- Bem, nunca tive coragem de entrar aqui, mas hoje por incrível que pareça não vejo mal algum. O que você fez aqui?

- Nada, apenas cumpri meu papel como ser humano. Há milhares de anos Deus deu-nos a terra para zelarmos e lutarmos por ela, sou um dos poucos que ainda faz isto em sua memória.

Jorge sorriu, viu que o rapaz era completamente maluco, mas era gente boa. Entrou, tomaram café e passaram um dia agradável.

Após dois meses Daniel mudou-se e Jorge fez uma reforma geral na casa, nunca mais nada de ruim foi relatado em tal lugar. Jorge seguiu com sua vida de vendedor e Daniel com a de esclarecedor, podem ser caminhos distintos, mas todos muito importantes para o criador.

Não tenham medo do sobrenatural, ele é apenas uma parte escura não iluminada pela ciência, mas muito tateada pela teologia. Podemos conhecer o mundo, mas poucos conhecem o ínfimo de nossas almas. Nunca coloque seu orgulho acima do universo, pois para ele nos somos somente um pontinho na imensidão. Este conto foi escrito em homenagem aos meus amigos do site Sobrenatural.Org: Raquel; adorei seu comentário, Andreiza, Vivian de Souza Oliveira, Fábio Lau, Priscilla, Tavares, Stephanne Leão, Luiz Carlos Domingues, Gilberto, Lana, Gabriela Ximenes, Dayane Tavares, Renato Nogueira, Ricardo Carvalho, Ana Paula Lazarini e claro ao Mateus quem me abriu este espaço para divulgar minhas estórias. 

Abraços a todos!
Fiquem com Gott.
André Oliveira
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