29 de julho de 2013

As Crianças


No interior do estado de Minas Gerais havia um pequeno vilarejo. As pessoas viviam tranquilamente sua paz e tranqüilidade. O dia passava calmamente, com um belo sol e pássaros cantando a primavera que havia chegado.

Junto com a primavera, chega um forasteiro. Um rapaz de São Paulo que está fazendo pesquisas com os insetos da região. Ele se hospeda no único hotel da cidade. Ao pegar as chaves, recebe uma advertência do atendente:

- Muito cuidado, Doutor. As noites de primavera dessa cidade são amaldiçoadas...

- Mas por quê? Perguntou o rapaz...

- Demônios do inferno... todas as noites eles saem para fazer algazarra. São dezenas de crianças que atormentam a cidade. Elas já mataram muita gente por aqui...

- Mas que bobagem...

O jovem pegou suas coisas e foi para o seu quarto. Com o cair da noite, o rapaz se preparava para sair em sua busca por exemplares de insetos na região. Ficou preocupado com a história do atendente mas pegou seu facão por garantia. Ele achava que deveriam ser delinquentes, e não demônios...

E lá se foi, o biólogo em busca de seus animaizinhos... uma cigarra aqui, um gafanhoto dali... até que o silencio se torna total na cidade. Seu relógio marcara meia-noite e os ponteiros não se movimentavam mais. O jovem puxa seu facão e fica preparado. Ele escuta sons. Vozes. Vozes de crianças. É impossível entender o que elas diziam... mas vinham em sua direção. Não era possível identificar as imagens, apenas vultos que se moviam rapidamente. E estavam se aproximando. O desespero toma conta do rapaz. Eles vem em sua direção. Ele tenta fugir, mas as crianças são mais rápidas do que ele. Até que as crianças o pegam e o levam para a porta da igreja sendo arrastado pelas pernas. Elas são muito fortes e rápidas. Gritos, risadas e muitos gemidos. As crianças batem a mão dele no chão e gritam a cada pancada. O rapaz sente dores terríveis.

Uma das almas pega o facão de sua mão. Outras duas o deitam de costas para o chão. Preocupado, e prevendo sua morte, ele fecha os olhos e ouve o barulho do seu facão batendo no chão de terra. Ao abrir os olhos, as crianças haviam sumido e seu facão estava cravado na terra. O jovem não entendia como poderiam ter enterrado um facão de 30 centímetros até o cabo.

Passado o susto, ele resolve retirar sua arma da terra. Depois de muita dificuldade ele resolve cavar para facilitar a saída da arma. Mas ao cavar uns 20 centímetros de solo ele sente que seu facão está cravado em algo sólido. Era branco. Ao retirar mais terra do local ele percebe a surpresa. Era um crânio. De uma criança indígena, ainda com os colares e peças de rituais. Ao tocar no crânio, as crianças aparecem repentinamente ao seu lado, porém em silêncio. Agora ele consegue definir seus rostos. Elas pedem para que ele continue cavando. Ele busca uma pá e cavar em volta da igreja. O jovem rapaz encontra dezenas de corpos e descobre o mistério. As crianças atormentavam a vila porque ela foi construída sobre um cemitério de crianças indígenas, dizimadas pela colonização da região. Suas almas não conseguiam descansar em paz até que as casas que estavam sobre o terreno sagrado foram removidas do local.

Depois desse dia, os "demônios baderneiros" nunca mais forma vistos na cidade.

FIM

Conto enviado por Rafael Donizete Cipriano

*Existe um documentário chamado "Hakani, Enterrada Viva – A história de uma sobrevivente" que fala sobre uma indiazinha que foi enterrada viva porque seu povo achava que ela não tinha alma. Foi desenterrada por seu irmão no último momento. Vale a pena assistir. Veja mais aquihttp://www.hakani.org/pt/.
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