22 de julho de 2013

A Desgraça do Palhaço

Por Julio Cezar Dosan

Da triste sina em ser quem era, riscou o rosto com o bastão colorido. Em lágrimas e ira, fez um desenho borrado. A tinta úmida entrou em confronto com as lágrimas e sua desgraça ganhou cor. Respirou fundo e entrou com as mãos sujas de sangue no picadeiro.

Gritou ao publico adulto e infantil  que costumava ouvir suas anedotas, estas revelava em desventuras toda a desgraça de ser quem era, sentou-se no tambor colorido e falou triste:

- Deixei de ser tolo! É degradante ser escravo da vida! Notem que estou infeliz e não é para menos! Trago-lhes alegria em minhas tragédias cotidianas, escrachando no palco toda a desgraça de meu ser! Vocês riem e dão sentido a elas. Mas ontem foi diferente, ao me despedir deste palco limpei meu rosto e fui ter com minha vida de homem comum. Eis que ao entrar em minha residência encontrei coisas que não eram minhas.

O público riu como que se já soubessem o final da historia. O palhaço irritado levantou-se e ralhou:

- Bando de abutres sujos! Saciam-se de minha desgraça e me escracham mais ainda á humilhação de ser quem sou! Lhes digo que encontrei Dulce Maria, minha esposa, dormindo bêbada em nosso leito. E mais, nossa cama tinha cheiro de outro homem, e ela em arrependimento me confessou o adultério!

O público o olhou apreensivo. Ele levantou-se da cadeira e mostrou as mãos sujas de sangue:

- Quem pode me culpar pelo que fiz? Quem pode condenar toda minha desgraça e me fadar á prisão? Lhes digo mais, antes de morrer Dulce Maria me contou que o amante estaria no show de hoje, e foi só por isto que eu vim!

O palhaço mais que depressa apontou a arma para o público, e com a mão tremula mirou, continuando a dizer:

- O causador de minha desgraça aqui esta, no meio de vocês! Quem poderá se declarar culpado e se levantar?

Do publico apreensivo ninguém se levantou. O palhaço então gargalhou e disse dono da situação:

- Já entendi! Tem um covarde no meio de nós! Pois quero que todos os homens se levantem!

Os homens se levantaram de mãos levantadas. O palhaço ignorou as crianças assustadas, arrancou do bolso um lenço perfumado, tirou do rosto pintado o nariz vermelho de borracha, cheirou o lenço e disse:

- Pois este é o lenço do amante de minha senhora, ele ainda trás o cheiro do perfume do infeliz! Quero identificar o desgraçado que me traiu e veio ver minha cara neste espetáculo, no intuito de rir de minhas piadas e de minha verdadeira desgraça!

Vagou com a arma engatilhada em meio aos homens. Um senhor de meia idade exalava o mesmo perfume que o do lenço. O palhaço mirou a arma em sua cabeça e indagou em ira:

- Como pode? Como pode adentrar em meus domínios, deitar-se com minha mulher com entradas compradas para rir de mim depois do feito?

O homem caiu de joelhos implorando misericórdia, o palhaço respirou fundo e disparou impiedoso.

Um jato de água inundou a careca do traidor. Ele gritou em desespero, fazendo todo o público rir de sua particular tragédia. O palhaço agradeceu os aplausos enquanto o homem borrado pelo medo saia envergonhado do picadeiro.

E na prisão cumpria pena o homem de rosto pintado, contando aos presos sua grande proeza no ultimo show ao publico pagante. Os assassinos, traficantes e ladrões aplaudiam a astucia do homem de roupas coloridas, cuja maior proeza era fazer de sua desgraça um magnífico espetáculo.

FIM

Julio Cezar Dosan é contista de terror do site Recanto das Letras, sendo que seus contos estão entre os mais lidos do site. A partir de agora irá disponibilizá-los também para os leitores do AssombradO. Visite seu site
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