27 de junho de 2013

Conto Assombrado: O Lobisomem

Meu nome é Jonathan, e a história que estou prestes a contar é inacreditável. Quem escreve essa carta é o Joãozinho, meu vizinho, pois eu não sei escrever. Confio plenamente em Joãozinho, pois ele é um rapaz estudado, e me prometeu tornar essa carta legível de acordo com o português correto, a fim de que eu possa entrega-la a alguém caso algo terrível me aconteça.

Tudo começou no dia 17 de fevereiro de 1988, quando eu voltava a pé, como de costume, da missa. O caminho percorrido da minha casa até a igreja é considerado muito perigoso pela maioria das pessoas. Isso porque eu moro num sítio localizado perto de uma serra, e o único jeito de chegar a algum lugar, é atravessando a estrada que por sinal não possui calçada. Assim, eu e os outros católicos caminhamos na total escuridão (quando não passam carros) durante uns quarenta minutos para podermos chegar a nossa querida igreja.

Nesse dia eu havia saído atrasado de casa, e a estrada estava completamente escura e solitária, e todos já haviam ido à missa. Eu caminhava na escuridão quando avistei no meio do mato um pequeno altar com uma vela acessa. Esse tipo de coisa é muito comum por aqui, por isso não me importei. Acontece que eu vi algo se mexendo dentro do altar, e quando olhei, era uma mulher vestindo um vestido rosa, com cabelos negros, e ela mexia a cabeça de um lado para o outro sem parar como se fosse louca. Apressei meus passos e não olhei mais para trás.

Durante a missa eu não parava de pensar na mulher. Quem era ela? Será que eu havia visto um fantasma? Será que era de fato uma louca? Mas reparei que ninguém havia falado sobre algo parecido, e aqui, quando qualquer coisa fora do comum acontece, logo se espalha e todos ficam sabendo. Fiz meu papel de bom cristão, aparentando estar compenetrado no que o padre dizia, e às 10 horas da noite retornei para casa pelo mesmo caminho, mas dessa vez com todas as outras pessoas. Quando cheguei perto do lugar onde havia visto o altar, reparei que ele estava lá, mas não havia sinal de mulher alguma. Pensei em contar o ocorrido a alguém, mas me lembrei de como as pessoas aqui são ignorantes e me taxariam de louco. Sendo assim, guardei minhas dúvidas para mim.

No dia seguinte, acordei às quatro e meia da manhã como sempre, e antes de comer alguma coisa e começar a trabalhar, arranjei para mim mesmo a desculpa de que precisava comprar leite, e saí. Claro que minha intenção era passar perto do altar, e lá fui eu. Dessa vez pude chegar bem perto, e vi que dentro havia duas velas vermelhas, uma cesta com algumas frutas podres e um punhado de cabelos preso num prego que estava dentro do altar. Nunca um punhado de cabelos havia me provocado tanto medo e apreensão como aquele. Fiquei um tempo ali parado, pensando sobre aquilo, quando vi surgindo do meio do mato uma mulher, e eu sabia que era ela a dona do tufo de cabelos.

Ela estava completamente maltrapilha e na hora eu senti um alívio, pois além de confirmar que ela não era um fantasma, também confirmei que ela era só mais uma bêbada como tantas mulheres ali na região. Ela olhava para mim e sorria enquanto vários dentes faltavam de sua boca. Senti um cheiro muito estranho, um cheiro de animal molhado, urina de animal ou algo parecido. Apressei-me para ir embora, quando ela segurou meu braço com uma força fora do comum:

_ Você me viu ontem, não viu? Então se prepare porque você é o próximo.

_ Próximo do que? – perguntei irritado.

_ Só o próximo. – e tendo me dito isso ela virou-se e vomitou um líquido tão vermelho que eu jurei ser sangue. Saí de lá o mais depressa possível deixando lá o tufo de cabelos.

Voltei às pressas para casa, claro que nem comprei o leite, e fiquei nervoso pensando naquela mulher. Eu dizia para mim mesmo para não me preocupar, afinal as pessoas dessa região são todas um pouco loucas devido ao isolamento e pobreza que enfrentamos, mas algo estava errado.

Depois de um dia de trabalho árduo num sítio nas redondezas, voltei para casa e acendi algumas velas, pois aqui não tem energia elétrica. Lembro-me de ter esquentado um pouco de café e bebido sem sentir o gosto, enquanto o vômito da mulher ficava passando na minha cabeça. De repente ouvi um barulho vindo do lado de fora, como se alguém estivesse correndo por entre o mato. Fui até o quarto, peguei minha espingarda e uma vela, e abri a janela. Olhei em volta, mas não vi nada, nem ventando estava, e foi quando senti uma pontada muito forte no meu dente canino. Dei um grito alto de dor e caí no chão me contorcendo. Parecia que meu dente estava sendo puxado, e por mais que eu me debatesse a dor só aumentava. Senti um gosto forte de sangue e corri para o banheiro que estava completamente escuro. Lavei a boca na pia e corri buscar outra vela, e quando me olhei no espelho vi algo inimaginável atrás de mim. Primeiramente me assustei com minha própria imagem no espelho, pois o sangue escuro, quase preto, escorria da minha boca e pingava no chão enquanto meu dente latejava, e foi quando notei algo escuro atrás de mim. Era um ser negro e peludo, com olhos vermelhos feitos os de gatos no escuro, mas eram olhos grandes e sem pupilas, e ele tinha um chifre muito grande que dava voltas feito um caracol, e toda essa minha percepção do que estava acontecendo durou menos de dois segundos até eu me virar e sair correndo do banheiro e da minha casa feito um louco.

Corri desesperadamente pelo mato escuro sem enxergar nada, tentando chegar a casa mais próxima, que era a do Joãozinho, mas durante minha corrida desenfreada olhei para frente tentando enxergar alguma coisa e dei de encontro com a criatura do banheiro. Senti a textura daqueles pelos negros de encontro ao meu corpo, e senti o mesmo cheiro de animal que senti vindo da mulher. O corpo dele era duro feito um pedra, e eu caí de cara para o chão e pude ver que os pés dele pareciam pés de canguru. Eu já não sabia o que fazer, e gritava o mais alto que podia quando me senti sendo levantado pelos cabelos, e aquele demônio me olhou diretamente nos olhos. Não sei explicar como me senti. Só sei que durante uns segundos eu comecei a me sentir familiarizado com ele, e foi então que meu pescoço foi mordido sem hesitar pela criatura. Comecei a pedir perdão pelos meus pecados, pois tinha certeza de que iria morrer, e sentia a carne sendo desprendida do meu pescoço enquanto o sangue jorrava e a criatura produzia um som parecido com o choro de um bebê. De repente, ouvi um estalo e acordei na casa do Joãozinho.

Ele me contou que ouviu meus gritos, pegou sua espingarda e viu a criatura me mordendo, ele então disparou inúmeras vezes sem dó. Eu estava desmaiado e a criatura quando caiu, se transformou numa mulher, enquanto um líquido negro transbordava por todos os orifícios daquele corpo já sem vida. Ele me levou até sua casa e fez os devidos curativos precariamente, pois não temos acesso a nenhum meio de comunicação e o hospital era longe demais.

No dia seguinte, quando retomei a consciência, me sentia melhor, e quando fui tomar um banho e me olhei no espelho, tive a impressão de que meus caninos estavam discretamente maiores e um lampejo vermelho passou pelos meus olhos.

Minha história termina aqui, e de acordo com Joãozinho, quando ele voltou no local onde jazia o corpo da mulher, não havia nada ali a não ser o tal líquido negro que havia penetrado na terra feito petróleo.

FIM

Conto enviado pela leitora Ana Laura Cardoso. Envie o seu também!
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