14 de junho de 2013

O Homem Solidão


Por Robson Nunes da Silva

Ninguém mais na rua ousava cumprimentá-lo, pois já sabiam que não era um homem dado a conversas. Morava na pequena vila há muitos anos, e parece que fazia questão de não se envolver com ninguém da vizinhança. Sempre saía muito cedo de casa, tímido e cabisbaixo, aos primeiros raios do sol e, à noite, quando retornava, tinha o hábito de recolher-se cedo. Nada de música ou televisão em sua casa. Ao menos nenhum dos vizinhos jamais ouvira qualquer som de um desses aparelhos vindo de sua casa. Muito raramente, alguém ouvia baixinho, algumas músicas do Roberto Carlos, sempre músicas românticas e tristes.  Nem mesmo um bom dia ou boa noite ele costumava dar ou receber.  A única coisa que se sabia sobre ele é que era um homem estranho, extremamente calado, solitário e morava na última casa da rua, já perto do córrego. Sempre sisudo, nunca fora visto com alguém, nunca fora visto recebendo em casa uma visita, um parente, um amigo. Seria possível alguém ser tão solitário assim?  Todos se perguntavam. Mas quem era ele? de onde teria vindo? Qual o seu verdadeiro nome? Na feira, onde tinha uma modesta barraca de especiarias e temperos, era conhecido apenas com Seu Joca (por alguns poucos clientes). Mesmo no trato com a clientela era de poucas palavras, mas era honesto nos pesos, preços e medidas e, por vender produtos de excelente qualidade, conseguia tirar dali o seu sustento, tinha clientela fiel.

Sua casa era muito pequena e simples (varanda, sala, cozinha, dois quartos, um tanque na área externa e um pequeno quintal). Não obstante modesta, estava sempre aparentemente bem cuidada. A calçada era varrida todos os dias, as plantas do pequeno jardim recebiam cuidados e não era raro vê-lo, nos momento de folga, a conversar baixinho com as roseiras enquanto cortava com a tesoura algumas folhas já murchas e galhos secos. Seu gato, o Garrincha, era de uma beleza incomum, do tipo tigrado, porém grande e de pelo brilhante, meio alaranjado. Como era castrado,  tinha pouco  acesso à rua, e parecia bem cuidado e tranqüilo, tão misterioso quanto o dono. Algumas vezes era visto a dormir no colo do Seu Joca, na única cadeira de balanço que ficava na varanda.

Um dia o Seu Joca resolveu aumentar o muro do jardim, talvez para ganhar mais privacidade ou, quem sabe, manter-se ainda mais isolado.

Algumas de suas vizinhas comentavam que ele parecia mesmo uma pessoa muito triste. Outros tinham medo de que ele fosse uma espécie de foragido da justiça e que por isso evitava um contato maior com quaisquer dos vizinhos. As crianças corriam, com medo, quando o viam chegar do trabalho, se ficavam a brincar até tarde da noite na rua. No imaginário da maioria delas, ele  transformava-se em lobisomem, nas noites de lua-cheia.

Na verdade, seu Joca era apenas um homem infeliz e amargurado. Perdera os pais, quando ainda muito jovem e com os parcos recursos de que dispunha, comprou sua casa e uma pequena barraca na feira-livre de um bairro próximo. E daqueles parcos recursos, ele sobrevivia. Era apenas um home que sobrevivia. Nunca fora visto bêbado ou com roupas sujas, mas sua vida era de um mistério insondável. Ninguém sabia ao certo sua idade, claro, mas não parecia ter mais de cinqüenta anos. Se tinha filhos ou se fora casado, ninguém jamais conseguiu descobrir. Uma de suas clientes, comentou com um de seus vizinhos que ouvira falar que sua esposa morrera tragicamente, ainda grávida de seu primeiro filho, atropelada por um enorme caminhão. Desde então, comentava-se,  ele se tornara aquele ser estranho, insondável e solitário. Foi então que decidira mudar-se para a pequena vila do interior. Vivia como se tivesse, a cada dia, se despedindo da vida, um pouco a cada dia.

De tão solitário que era e de tão isolado que vivia, as pessoas não perceberam, de pronto, quando ele desapareceu. Algumas coisas estranhas que foram acontecendo, até que alguém comentou que ele nunca mais fora visto e que a casa adquiria a cada dia um aspecto sinistro de abandono. O "Garrincha", agora, era visto a perambular pelas ruas, procurando comida nas latas de lixo ou alimentando-se do resto do que os vizinhos, por compaixão, lhe davam. As plantas do jardim, aos poucos foram morrendo e dando lugar ao mato que a cada dia crescia mais. Na feira, os clientes mais assíduos deram por falta dele, mas não tinham como obter notícias e, quando tentavam, as pessoas simplesmente diziam que não sabiam, que há muito tempo não era visto.

Certo dia, um dos rapazes que morava na rua, tentou pular o muro da casa e circundar o terreno. Não viu nada de estranho além do que todos já sabiam. Muito mato, ao redor da casa, janelas e portas bem trancadas, todas protegidas por fortes grades. Olhando pelas frestas nada viam e assim foram desistindo de procurar.

Meses se passaram e o que se comentava é que ele nunca mais fora visto. Desaparecera de forma tão misteriosa quanto aparecera por ali, um dia. Surgiu um boato de que ele saíra de casa, de madrugada, certa vez, ainda escuro, e não fora mais visto, desde então. Mas ninguém sabia dizer com certeza se aquilo era verdade ou quando havia acontecido. Acostumaram-se à sua ausência. Ratos , lagartixas e baratas começaram a habitar a casa que a cada ano que passava, tornava-se mais deteriorada. Como os vizinhos tivessem medo de arrombá-la, continuaram a vê-la se deteriorar dia após dia. A companhia de energia elétrica cortou o fornecimento e a companhia de saneamento apareceu um dia para levar o hidrometro. Na caixa de correios, onde nunca aparecia uma carta, as velhas contas de água e luz foram se abarrotando, até que pararam de ser enviadas e ali ficaram por vários anos. Vândalos iam, aos poucos, apoderando-se das telhas, sobre a laje, até que o teto ficou totalmente desprotegido e começou a ganhar infiltrações que foram se espalhando pelas paredes externas, formando manchas escuras de limo cada vez maiores e nichos de formigas, vespas  e outros insetos. A velha cadeira de balanço, na varanda, lá permaneceu e foi perdendo a cor, com o rigor das chuvas que iam e vinham.

Passaram-se assim, três, quatro anos e um novo morador chegou na rua. Era um policial militar. Falaram-lhe sobre a casa e toda a história de mistério que cercava a vida daquele antigo morador. Ele, então, resolveu solicitar autorização judicial para fazer uma diligência ao local e adentrar o imóvel.

Certa manhã, munidos dos apetrechos necessários, o novo vizinho com mais dois colegas dirigiram-se discretamente ao local, ainda bem cedo e conseguiram pular o muro e arrombar o cadeado da varanda e a porta de entrada. Logo no primeiro cômodo, a mesa estava como fora deixada quatro anos antes, porém completamente coberta de pó com uma toalha já poida, que rasgava-se ao ser tocada. Havia uma caneca de porcelana sobre ela, com o que parecia restos de café com açúcar e muita formigas a passear por ali. Algumas louças ainda sujas, mofadas,  na pia da cozinha contígua. O lugar parecia ter sido abandonado às pressas e ter permanecido da mesma forma em que estava nos últimos três ou quatro anos. Muitas teias de aranha por todos os cômodos, velhas contas espalhadas pela mesa e pelo chão... Resolveram primeiro observar o estado das coisas sem tocar em nada. Observaram que havia uma caixa de um antibiótico sobre a mesa, com tarja preta e junto a ela outros remédios (anti-depressivos, analgésicos e um medicamento para controle da pressão arterial). Havia dois quartos, na casa. Os policiais entraram primeiro no menor e não viram nada de significativo, a não ser uma velha cama de solteiro sem cobertas e um armário com alguns mantimentos já completamente deteriorados, tomados pelo mofo e cheios de bichos (arroz, cereais e feijão),  além de poucos materiais de limpeza doméstica. A porta do quarto maior estava trancada por dentro e eles se viram forçados a abri-la com uma chave de fenda. Foi então que depararam-se como uma cena assombrosa, bizarra e sobretudo triste. Sobre a cama de casal, embaixo de um lençol em trapos descobriram um esqueleto em perfeito estado de conservação...

Aquele homem era tão solitário que sequer fora enterrado ao morrer, sequer fora procurado por alguém, sequer merecera um velório decente. Morrera sozinho e sem alarde. Sua casa humilde havia sido, literalmente, sua última morada,  o seu próprio túmulo!

FIM!

Fonte: Sobrenatural.Org
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