7 de junho de 2013

O Homem que Queria a Minha Mão


Por Jeff London

O meu nome é Margot. Vivi muito tempo na cidade de Ferris, próximo às praias do Charco. É uma pequena vila de pescadores, de homens rudes, porém trabalhadores e honestos. Nunca tive muitas ambições na vida, a não ser a que toda mulher tem naturalmente, me casar...  e ter filhos...  Poderia até mesmo continuar morando aqui, nessa pequena vila - de praia abandonada e de clima frio e difícil - que procura espantar a todos aqueles que não necessitem viver da pesca de mariscos e sardinhas. Nunca tive a necessidade de sair daqui para lugares melhores.

Dizem, que não sou uma mulher muito bonita. Na verdade, também não me acho... devo confessar. Mas há por aqui poucos recursos e motivos, que levam uma mulher a usar dos artifícios dos tempos modernos para se embelezar. Até o dia em que compraram o velho casarão da rua Elmo. Uma espécie de abadia abandonada que virara criadouro de ratos e vagabundos no fim da rua, pouco antes das ondas quebrarem no penhasco lá embaixo. Era um belo e solitário homem que se mudara recentemente para lá.

As mulheres da vila mal se continham, diante do belo doutor. Era realmente um homem cobiçado, que trazia em volta de si um certo ar de mistério quando chegava à noite no seu velho ford 23 capa preta. Ninguém na cidade sabia ainda o que era um carro, até aquele dia. E as mulheres morriam por ele.

Nunca nutri esperanças, isso era óbvio. Mas sempre ia com as meninas até as margens do jardim, espiar o doutor em sua varanda, ou mesmo na janela de sua casa. Lá estava ele... sempre sóbrio, com o seu cabelo negro impecavelmente bem penteado, pregado à cabeça. O longo bigode acompanhado do inseparável cachimbo de cano longo, que soltava extensas baforadas de fumaça, e aqueles olhos expressivos e misteriosos, metido em seu traje branco. Um charme só.

Naquela noite em especial, depois de ajudar a minha mãe com os afazeres de casa, corri para encontrar as minhas amigas, na esquina de sempre, esperando primeiro o sol se pôr, para a sombra nos ocultar no meio dos arbustos, e dali, admirarmos o doutor. Ora, não me repreendam, eu era uma jovem de 21 anos , que quase não teve infância. A vida naqueles tempos era dura, e qualquer coisa nos excitava.

Tanto eufórica eu estava, que ao chegarmos no beiral da janela, escondida entre as ramas, deixei-me sem querer, esbarrar num velho latão de lixo, que ao tombar, nos revelou com o seu enorme barulho!

-Quem está ai?! - Uma voz masculina, grave e de rara beleza, partiu lá de dentro, enquanto as minhas amigas corriam atrapalhadas rua afora. Aquela voz me deixou encantada! E eu também não tinha pernas para correr naquela hora. Apenas esperei, assustada, como uma criança, até a porta abrir e a luz lá de dentro iluminar todo o terreiro à minha volta.

Assim, ele surgiu diante de mim. Sorridente, agradável, compreensível, e lindo!

-Ora, ora. O que faz aqui bela jovem? -Perguntou-me. -Não teme a noite?

Fiquei sem palavras naquele momento. Mesmo assim, com um largo sorriso, ele me convidou para entrar...

-Venha, sei que não é correto da minha parte convidá-la assim , para entrar na casa de um homem sozinha, mas se não tratar essa sua mão, ela pode infeccionar!

De fato, eu não tinha percebido, mas cortara a minha mão na lata do tambor, e mal me dei conta do sangue escorrendo. Entrei rápido, quase desmaiando, precisando ser aparada pelo doutor. Ele limpou com cuidado o ferimento, deu os pontos necessários, e levou-me para casa naquela noite.

Meus pais o convidaram para entrar, encantados como todos na cidade, e agora agradecidos, por ele ter cuidado de mim. Sempre, a partir daquele dia, ele meio que se tornou o meu protetor. Sempre me apoiando e me defendendo.

Um dia, quando alguns garotos me xingavam na porta da escola, ele apareceu e os espantou, e me chamando, disse:

-Margot, venha cá menina. Deixe disso - já falou soltando os meus cabelos ruivos, e tirando os meus óculos. -Veja como és bonita... não precisa passar por isso.

-Eu não posso evitar... – disse-lhe.

-Posso ajudá-la...

-Já me ajuda muito. Não posso incomodá-lo mais.

-Não! Eu a ajudarei definitivamente. Sejas minha. Dê-me a sua mão, e jamais te magoarão de novo.

Depois disso, eu só me lembro de ter acordado no sofá da sala, sendo abanada por minhas amigas! Aquele maravilhoso homem tinha me pedido em casamento! Eu não tinha mais como caber de emoção!

-Para ser minha, devemos sair dessa cidade para nunca mais voltar - disse ele. -Não posso me demorar mais aqui. Deves dar adeus aos seus pais, que eu deixarei bem amparados, mas deve vir comigo, para onde eu for.

-Claro que eu irei!

E assim partimos, seis meses após um casamento feliz, para uma linda e isolada casa de campo nos arredores de Paris.

Naquela noite, eu estava sentada junto à lareira, nevava muito lá fora, e apenas um lampião iluminava a sala. Eu bordava uma linda colcha de cama para nós dois, e ele então aproximou-se. Sentou-se ao meu lado, e tomou as minhas mãos nas suas:

-Lembra-se de quando veio a mim pela primeira vez? -Perguntou, enquanto acariciava as minhas mãos.
-Sim, lembro-me, claro, como haveria de me esquecer.

-Apaixonei-me por suas mãos, me crê? - sorriu, procurando a cicatriz já quase inexistente do ponto que me dera tão habilmente. Senti-me lisonjeada e ruborizei-me por completo.

-A sua mão é tão delicada... tão bem conformada... seus dedos são ágeis e delgados.

Eu sorri, sentindo-me afagada em meu ego.

Ele retirou um grande cutelo que trazia consigo dentro de uma pasta. A luz do metal me assustou um pouco ao me ofuscar. Mas sorri, sem entender nada. Ele segurou brutalmente o meu braço, deixando-me desconfortável, até que entendi a brincadeira. Enquanto segurava os meus braços contra o sofá, ele ergueu perigosamente o cutelo. Deus meu! Até então eu sorria, mas com o coração acelerado, e acho que só dei por mim, quando ele se levantou para obter um melhor ângulo ou posição, para atingir com mais destreza e força o meu pulso.

Se eu tivesse vacilado um segundo mais, eu veria a minha mão pular no chão como uma rã numa chapa em brasa. A força que ele colocou no cutelo fora tanta, que ele ficou cravado nos braços do sofá por muito tempo ainda!

-O que foi minha querida? Por que me olhas assim? Perguntou-me da maneira mais natural e doce possível.

-Venha, dê-me um abraço...

-Quem é você?! Cadê o meu marido?!!!!

-Sou eu, não vê?

-Saia de perto de mim!!!! Minha mãeeeee.....

-Não a deixarei sofrer. Lembra?

Eu corri desgovernada por aquela imensa casa, que eu ainda mal conhecia. Eu sei que eu estava branca de terror, pois o sangue faltava as minhas pernas, mas eu não poderia me dar ao luxo de cair agora.

-Margot, venha! -Dizia ele, enquanto seguia-me com paciência.

Eu estava ofegante, correndo pelos corredores e quartos, ora encontrando portas, ora encontrando becos sem saída. Mas sempre com a voz dele atrás de cada esquina.

Aaaaarhrrrhrr - eu gritava, pois tinha de extravasar a minha angustia.... aaaaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrhhhh. Não havia para onde correr! Não conhecia nada aqui dentro, e lá fora era um imenso e escuro bosque antes de um jardim abandonado e uma floresta!

Corri até a porta, tinha esperanças de me perder floresta adentro, ainda que eu tivesse de me esconder numa das sepulturas abertas, até o dia amanhecer. Mas à minha surpresa... todas as portas... cerradas!
As janelas, estavam pregadas! Todas elas! E o meu doutor.... sumira.

Não mais ouvi a sua voz a chamar-me. Nem os seus passos. A sala estava mergulhada no mais completo silêncio...........................

Comecei a observar ao redor, agora mais calma e com tempo para respirar. A cortina subia leve e soturna no canto escuro da sala, e a grande cabeça de alce empalhada na parede parecia me olhar. A pobre luz que entrava por um buraco no teto, deitava as suas parcas dádivas no antigo sofá vermelho perto da lareira. E lá fora, o vento assoviava fino e triste, ante a tempestade de neve que caia.

Gelei como a morte, e endureci feito uma estátua de mármore, ao perceber no chão perto da parede, debaixo do alçapão, a cabeça de meu doutor, observando com os seus olhos grandes, e um sorriso frio e paciente, os meus movimentos anteriores. Ele se ergueu sem pressa, e veio na minha direção.

-Não, por favor... não faça isso comigo... - eu chorava copiosamente, na busca de sua piedade.

-Não tenha medo, dê-me a sua mão - dizia isso erguendo o seu braço na minha direção, buscando me alcançar.

Um lampejo, semelhante a um raio, cortou a escuridão da sala, seguido de um som oco e seco. Logo, senti uma fraqueza, seguida de uma leve tontura, e cai a rolar no chão. As minhas vistas se embaçavam, mas ainda assim, rolando, eu consegui ver o meu corpo de pé, perto da janela, decapitado, ao lado de uma estranha mulher que lembrava uma boneca.

Senti que alguém me pegou nos braços, e depois, dormi, vindo a acordar algum tempo depois...

Eu estava ótima! Porém, mergulhada numa espécie de óleo ou visgo, transparente e cheiroso. E dali, eu podia ver o meu doutor trabalhando no corpo de uma mulher.

-Oi meu amor - disse ele, me olhando da mesa de operações. -Permita-me apresentar-lhe, Elisabeth, minha verdadeira mulher...

Ele ergueu um corpo, no qual acabava de costurar as minhas mãos, o mesmo corpo que tinha me decapitado tempos atrás. Visivelmente, era um corpo idealizado da doce mente de meu doutor. Nenhum membro pertencia ao mesmo corpo, todo foram escolhidos a dedo (se permitem o trocadilho). Apenas a cabeça pertencia a Elisabeth, fora tudo o que sobrara dela num incêndio...

-Não se preocupe - disse ele, aproximando-se do contêiner onde conservou a minha cabeça. -Eu cuidei dela agora, e em breve, também cuidarei de você. Vamos precisar de uma filha querida... Para sermos uma família completa e feliz. Eu prometo que a farei a mais bela entre todas. Com as melhores partes que eu puder encontrar.

Eu estava tão feliz com aquilo tudo, que não resisiti e comecei a rir, rir muito! E o óleo que entrava pela minha boca, não me incomodava, ao contrário, me fazia ainda mais feliz! Terminamos a noite rindo, os três juntos. Não vejo a hora de me juntar a eles outra vez, e sermos uma família muito feliz.

FIM!
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