11 de junho de 2013

O Enviado do Mal


Antes de ler o conto, conheça uma opinião sobre ele: "Que conto mais perfeito e digno de louvores,retrata terror,romance medieval,inveja e ódio,tudo em um só conteúdo.Uma estória que prende o leitor do começo ao fim! Uma viagem, que faz com que reflitamos sobre o bem e o mal, muito interessante!!!!!!!ADOREI (OLHA QUE SOU UMA LEITORA EXIGENTE,RARAMENTE ALGO ME AGRADA E A SUA ESTORIA REALMENTE ME CHAMOU MUITO A ATENÇÃO) PARABÉNS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!"

Por Luiz Hasse

I

Apesar de todas as salas e quartos luxuosos do castelo, era naquela catacumba secreta, úmida e arruinada que Teridus vinha passando a maior parte de seus últimos dias e noites.

O pentagrama que havia no chão fora riscado ritualmente, energizado e encantado segundo todo o rigor do procedimento. As palavras rituais haviam sido ditas com precisão e carregadas de todo o poder inerente à voz do mago. Nada sairia dali se não fosse sua vontade.

O último dos belos jovens que o feitiço requeria jazia desacordado numa mesa a seu lado. Munido da adaga ritual, Teridus foi até ele abriu-lhe a garganta com um corte suave, mas letal. O sangue espirrou na tigela que havia na outra mão.

Ele recolheu o suficiente e deixou o resto espalhar-se pelo chão.

Ao contrário do jovem, a donzela que estava presa no interior do desenho mágico estava acordada. Precisava estar. Nua, com as mãos e pés acorrentados ao chão e alinhados com quatro pontas do desenho, ela sabia exatamente o que aconteceria.

Já havia desistido de gritar por ajuda depois da terceira noite, e hoje nem implorava mais. Mas o seu medo prosseguia. Isso era necessário, assim sabia Teridus, pois o medo dela era um dos ingredientes chave para o que estava prestes a ocorrer.

O mago disse as palavras finais, e verteu o conteúdo da tigela sobre o sexo da jovem. Em seguida, fez silêncio. Nenhuma palavra mais era necessária.

Minutos depois, as convulsões e dores dela começaram. Os gritos que se seguiram foram arrepiantes, mas não seriam ouvidos por ninguém mais além do mago. Um pouco de alquimia bem utilizada selara aquela câmara de forma que nenhum som escapava de seu interior. Não obstante a donzela gritava, e gritava muito. Era inevitável.

E sua barriga já começara a inchar.

II

Sete noites depois.

Marina estava deitada em sua cama, e acordou sobressaltada, com um grito. No instante seguinte, dois guardas e um criado invadiam-lhe a intimidade do quarto. Por um momento, ela quase não os reconheceu, depois se lembrou de quem era e de onde estava. Puxou as cobertas sobre si e murmurou:

-Me perdoem. Foi um pesadelo. Apenas isso.

Os guardas nada diziam, nem se retiravam. Era seu dever a vigília da noite, e aguardar até a chegada do Lorde, que o criado fora chamar em seguida.

No último ano, houvera três tentativas de assassiná-la. Todas as três haviam falhado, é verdade, mas a última não fora nada sutil – custara a vida de metade da guarda pessoal da família, numa batalha de dois exércitos pequenos, mas ferozes. Desde então, ela não saíra mais do castelo, e todo o ar livre e céu aos quais podia ter acesso eram os do jardim interno. Guardas a acompanhavam dia e noite. Uma bela flor de cabelos claros e olhos brilhantes protegida por espinhos ferozes, mas que começava a definhar pelo enclausuramento.

O Lorde chegou momentos depois. Olhou para um dos guardas, e este respondeu:

-Não vimos nada, milorde. Milady diz que foi um pesadelo apenas.

O Lorde assentiu. Olhou pela janela, temeroso, mas seria impossível. Aquele era o mais alto quarto do castelo, e havia metros e metros de rocha lisa até o primeiro ponto de apoio. Somente alguém com asas.

-Está tudo bem. Deixem-nos.

O Lorde olhou para ela, agora longe dos serviçais, com ternura:

-Quer me falar sobre o pesadelo, filha?

-Papai, sinto tanta vergonha... devo ter assustado a várias pessoas pelos corredores... não tenho um sono bom e prejudico o sono alheio, também.

-Você preocupa-se demais com o conforto dos servos, minha criança. Nós os protegemos e guiamos muito bem, é justo que percam o sono pelo nosso bem estar.

-Às vezes penso neles... trabalhando de sol a sol, e não só pelo próprio sustento, dando a vida em batalhas que foram escolha de gente como nós... tenho pena.

-Assim é a vida, minha criança. Foi um poder maior que o nosso que decidiu que seríamos nobres e eles não. E eles estariam bem pior sem o nosso comando, pode acreditar. Saberá disso quando for uma Dama casada e ajudar seu marido a manter um castelo. Não vai me falar sobre o pesadelo?

A jovem suspirou e fitou a parede escura à sua frente, como se estivesse em dúvida, mas por fim falou:

-Eu estava no Templo. Mas era estranho, porque era noite e não dia. E um homem encapuzado estava no lugar do Sacerdote. Parecia ser meu casamento, mas nunca soube de um casamento que se realizasse durante a noite.

- Isto foi tudo? Estou certo de que não foi.

Lágrimas escorreram de seus olhos, mas ela acrescentou:

-Quando olhei para o noivo, ele não era um homem... era uma coisa horrenda. Não consigo lembrar direito de sua forma, mas era terrível. Nunca vi tamanha fealdade no mundo.

-Deve tê-la assustado muito.

-Não.

-Não?

-Tive pena. Ele não escolhera ser daquele jeito. O destino lhe fora cruel. Ele não tinha culpa. Gritei por outro motivo.

O Lorde olhou para sua filha, preocupado. A compaixão dela parecia não ter limites. Era conveniente que uma donzela nobre, uma futura grande Dama fosse piedosa, mas não tão piedosa.

-Bem, minha querida, tente dormir novamente. Se sentir-se mal ou ameaçada, não hesite em chamar ajuda.
Beijou-lhe a testa e se retirou.

Marina ajeitou-se nos travesseiros, mas não dormiu. Ficava pensando no final do sonho, naquilo que realmente a apavorara – aquilo que não contara a seu pai.

O homem encapuzado. Ele retirara um chicote e começara a açoitar aquela criatura disforme. Havia tanto ódio naqueles gestos!

E ela lhe reconhecera o rosto.

III

O Lorde caminhava pelos corredores escuros do castelo, um homem encapuzado caminhava a seu lado.

-O que mais me assusta nisto tudo, meu amigo, é que desconhecemos a razão. Três vezes atentaram contra a vida de minha menina, meu maior tesouro... e sequer sei por quê. Uma criança inocente, que jamais fez mal algum em sua vida, vida esta que apenas se inicia, e já corre perigo.

-Realmente, milorde. Um grande coração – respondia o outro – se o mundo fosse um lugar justo, isto seria defesa contra o mal.

-Os astros não lhe disseram nada sobre a origem dos ataques?

-Nada, milorde. Creio que estamos lidando com feitiçaria, pois todas as possibilidades de adivinhação estavam encerradas. Três vezes eu os consultei, após cada uma das tentativas, e três vezes nada me disseram. Talvez haja, repito, algum feiticeiro poderoso por trás disso.

O Lorde meditava:

-Eu não tenho a fé na magia que o povo simples tem, meu amigo. Creio que nem mesmo o seu interesse de sábio por esse assunto me soa como algo realmente... sábio.

Mas o povo comenta coisas estranhas. Entre os camponeses, há o boato de que minha filha é... mais que uma pessoa comum.

-Sua filha, de fato, é uma rara flor entre a nobreza.

-Não se referem a isso. Crêem que seja encantada... que seja sagrada ou coisa assim.

O sábio ficou em silêncio, como se absorvesse a informação aos poucos.

Depois prosseguiu:

-Há uma história sobre ela ter realizado uma cura quando pequena, não é?

-Não é uma história. De fato aconteceu algo. Ela fugiu de mim, quando era pequena, para orar por uma outra menina, filha de camponeses, que estava doente. Seus pais a reconheceram como minha filha, e não quiseram contrariá-la. Claro que mandaram avisar-me, e eu estava desesperado com o desaparecimento dela. Mas, quando cheguei para buscá-la, a menina havia melhorado. Tornou-se uma das aias de minha filha, com o tempo. Não é algo tão fora do comum, ela simplesmente melhorou de uma doença avançada, mas que não tinha nada de extraordinário, a cura não era impossível, apenas muito difícil... mas o povo exagera no seu apreço e vê nisso um milagre. Amo a minha filha, mas não tenho a pretensão de ter uma pessoa sagrada em minha família.

-Entendo, milorde. Mas creio que meu senhor deve agora repousar.

-Como pode um pai conciliar o sono sabendo que há alguém que trama contra a vida de sua menina?

-Com minha ajuda. De nada adianta desgastar-se em preocupações quando não há nada que se possa fazer. Hoje, porém, farei algo arriscado. A lua e os astros são propícios. Sairei em campo aberto e consultarei os espíritos pelo bem de Lady Marina.

-Você faria isto? Mexer com necromancia, uma arte proibida... pela minha filha?

-Com uma condição, milorde, se um servo devotado pode impor condições a seu senhor... tente dormir, pelo seu bem e pelo dela.

O homem encapuzado estendeu, tirando da manga de seu manto, um frasco com um líquido incolor, acrescentando:

-Este elixir só lhe ajudará a dormir... e não lhe impedirá de acordar, se for necessário que desperte.

-Obrigado, meu amigo. Não sei como suportaria esta situação sem você.

O homem encapuzado curvou-se e se retirou, em silêncio.

O altivo lorde entrou em seu quarto, bebeu o elixir e deitou-se, sereno, para nunca mais se levantar.
Como se não tomasse conhecimento disso, o sábio desceu as escadarias de pedra do castelo até o portão, onde deu ordem com um sinal de sua mão para que os servos os abrissem. Deixou salões silenciosos, repletos de medo e morte, para trás e cruzou o amplo prado a luz da lua. Depois um pequeno trecho de árvores que ocultavam da visão o círculo de pedras, uma antiga ruína, que o populacho dizia ser assombrada.

Lá, um homem baixo e gordo o esperava. Ricamente vestido e pouco a vontade.

Com medo da própria sombra.

-Estou aqui, Teridus. Por que quis que eu viesse pessoalmente?

-Para que saiba e sinta que está tão nisso quanto eu, Foscol . Você quer o castelo e o feudo, não quer?

-Sim.

Eu o quero. Devia ser meu. Eu seria o herdeiro de tudo isto se a maldita esposa de Lorde Ardulan, após anos inférteis, não tivesse concebido aquela maldita criança. Foi bem feito que morresse após o parto! Tentei até mesmo arranjar um casamento com a menina intrometida, para assegurar minha herança... mas o pai não permitiu, não tive escolha.

-Todas as pessoas dizem isso: não tive escolha. Você poderia ter abandonado a sua ganância, mas preferiu se aliar a um feiticeiro como eu. Mais tarde, quando sua consciência o morder, dirá que foi o acaso, a sorte, o mau destino. Lamentará inclusive ter sido o primo mais novo de um lorde rico e sem irmãos... como se fosse forçado a isso. Mas não. As pessoas escolhem, Foscol. O mal é poderoso, e reina no mundo, apesar de todas as orações dos suplicantes para os deuses, porque as pessoas o escolhem. E por que não haveriam de escolher? A prática do mal nos garante riqueza, poder, saúde, força! Tudo pelo que ansiamos em vida. Que importa aos deuses se somos felizes ou não? O homem sábio conhece estas coisas. O covarde as nega.O tolo acredita nos céus.

-Por que está a dizer isto, Teridus? Quer me humilhar ou algo assim? O que lhe paguei não foi o suficiente?
Teridus soltou uma gargalhada.

-Mesmo que não me houvesse dado uma única moeda de cobre, talvez eu tivesse feito o que me pediu de qualquer maneira. Esta garota – o rosto de Teridus assumiu uma expressão sombria – ela me perturba. Ela não apenas me perturba. Perturba a ordem natural do mundo, convém que seja eliminada.

-Não entendo...

-Claro que não. Você não viveu nem estudou tanto quanto eu. Não lembra do tempo em que as bruxas dançavam livres em pleno verão por aqui. Já ouviu as lamúrias e esperanças do povo pela vinda de um Salvador, e deve imagina-lo como um herói poderoso, guerreiro e destemido, a libertar os oprimidos dos tiranos... e jamais deve ter lhe ocorrido que o Salvador, o Libertador, o Inimigo de Todo o Mal, o Endireitador de Mundos possa ser uma mulher. Uma garotinha nojenta cheia de potencial instinto maternal, a zelar pelos fracos filhos da fraqueza como uma galinha por pintinhos, e atormentar aqueles que tem o justo direito de triunfar e pisoteá-los.

A raiva e o nojo eram evidentes na voz do mago. Foscol sentiu medo, não pela primeira, nem pela última vez. O mago continuou, um pouco mais contido:

-Bem, isto não acontecerá. Foi dito que o Salvador não começaria a perseguir os tiranos do mundo sem que antes tivesse em suas mãos um grande poder, que só viria através do próprio conhecimento de seu poder para subjugar o mal. A garota morrerá antes disso.

Olhou fundo nos olhos de Foscol e disse, baixinho, sibilante:

-Se gritar agora, eu o matarei com minhas próprias mãos. Apareça, besta!

Da sombra de uma das árvores mais próximas, ele surgiu.

Tinha, na essência, a forma de um jovem nu. Mas havia marcas evidentes que não deixavam dúvidas sobre sua verdadeira natureza. O principal eram os olhos. Neles queimava um fogo que parecia frio e indiferente. Como uma eterna chama no vazio. Se ele apenas virasse um pouco de lado, poder-se-ia ver as asas coriáceas em suas costas. Na testa, trazia dois pequenos chifres negros. E suas mãos, apesar da aparência delicada, terminavam em garras  animalescas nas pontas dos dedos.

Em sua testa, como se feita a fogo, havia uma marca. Brilhava.

Foscol reprimiu um grito, mas mesmo sem gritar, sentiu-se como se um abismo começasse a se abrir sob seus pés.

Nada no mundo pode preparar um homem para ver um demônio.

Foscol viu que mais uma coisa brilhava na escuridão. Era o anel do feiticeiro. Nele havia a mesma marca da testa do demônio. Mesmo sua mente obtusa percebeu ali quem era o mestre e quem era o escravo.
A atitude seguinte de Teridus o deixou confuso, a princípio. O feiticeiro retirou seu manto, ficando quase despido, e revelando um corpo estranhamente forte para sua idade, e estendeu a peça de roupa àquele que recém chegara. Este a vestiu. Era da mesma altura e compleição física semelhante à de seu mestre. Quando puxou o capuz sobre a cabeça, ficou indistinguível dele.

-Onde...

– balbuciou Foscol – onde você encontrou esta... coisa?

Teridus sorriu.

-Eu o criei.

Foscol sentiu um arrepio gelado. Com que tipo de gente estava lidando? Que outros poderes obscuros aquele mago possuía? Ser o senhor de um castelo valia se expor a  tudo isso?

-Custou algum trabalho, e todo o ouro que você me deu – acrescentou o feiticeiro – Mas valerá a pena. Qual tua missão, besta?

Sua voz era calma, fria e baixa. Quase agradável de se ouvir:

-Devo ir até a construção de pedra sob a qual fui gerado. Procurar a grande fonte de luz. Ignorar ou matar os que ficarem entre mim e ela. Matar a fonte de luz, quando a encontrar. Apaga-la para sempre.

-Você já deve ter adivinhado quem é a fonte de luz, Foscol. Alguma pergunta?

Foscol ficou alguns segundos mudo, depois disse:

-Meu primo. O pai dela. Ainda é um grande guerreiro apesar da idade. Dizem que matou monstros em sua juventude. Essa criatura pode derrota-lo?

-Quem sabe se poderia? Mas não será necessário. O senhor do castelo está morto. Morreu pela sua própria tolice.

Foscol não disse mais nada. Teridus sussurou, com prazer indisfarçável:

-Então, vai, besta. Volta a este campo quando tua missão estiver cumprida.

Caminhando lentamente sobre os passos do mago em sua vinda ao círculo de pedras, a criatura se foi.

IV

O guarda sobre a muralha, cuja permissão para dormir só seria dada ao nascer do sol, com o arco pendendo na mão, reconheceu o manto de Teridus vindo pelo campo e não se alarmou. Afinal, era o sábio amigo de seu senhor, e, assim pensava, não representava perigo algum.

A figura que caminhava encapuzada postou-se perante a muralha, em silêncio, olhou para cima e o guarda viu-lhe o brilho nos olhos. Se tivesse visto aquele brilho mórbido mais de longe, poderia ter usado o arco. Mas o demônio caminhara até aquele ponto de cabeça baixa, e agora era tarde demais.

O manto de Teridus rasgou-se e pendeu em tiras quando as asas se abriram. O pobre homem, no ápice de terror da sua vida, tentou ajustar a flecha, mas o demônio alçou vôo antes que ele disparasse. Antes que sua garganta fosse rasgada pelas garras daquele horror alado, no derradeiro ato do cumprimento do dever, ele gritou, enquanto a flecha se perdia na escuridão:

-Invasão! Soem o alarme! Invasão!

Seu corpo projetava-se no vazio, para o lado de dentro da muralha, ainda sangrando e com alguma vida, no instante seguinte. Os sinos soaram, flechas voaram ao redor, mas nenhuma atingiu o monstro.

Seus olhos buscaram a janela, onde havia uma luz que só ele podia ver. E para lá ele foi.

Lá chegou, mas a luz havia partido pelos corredores. No seu lugar havia dois guardas, diante da cama desarrumada, de espadas em riste e feições severas. Bloqueavam-lhe o caminho até a luz.

O demônio não usou as garras num primeiro momento. Disse uma palavra que soou como um verbete obsceno em outra língua, e seus olhos brilharam mais calorosamente por um instante. Um língua de fogo envolveu um dos guardas. O outro assustou-se e recuou, momentaneamente distraído por seu companheiro que ardia em chamas.

Só então ele usou as garras.

Coberto de sangue, avançou pelo corredor. A fonte de luz incutia-lhe uma fascinação que não podia ser ignorada. E ele poderia segui-la mesmo com um oceano de distância.

Os corredores eram largos e ele podia usar suas asas. No caminho, houve outros guardas, mas passou por cima deles, ou derrubou-os, quando muito impertinentes. Não eram seu objetivo, pouco lhe importava se viviam ou morriam.

Alcançou a fonte de luz num outro quarto, algo maior que o anterior.

Ela era bela. Tinha a forma de uma magnífica jovem. E a luz invisível que emanava dela era ainda mais bela.
Ela estava inclinada sobre uma casca vazia. O corpo morto de um homem velho. Chorava.

Havia cinco guardas a mais entre eles. Ele preparou-se para a matança.

E depois, a Luz.

Súbito, ela empertigou-se. Disse resoluta:

-Não.

O demônio estacou. Não conseguia se mover. A marca em sua testa começou a queimar, e ele sentiu, pela primeira vez em sua curta vida, verdadeira dor.

A jovem aproximou-se, lágrimas escorriam agora pelos olhos dele. O rosto dela era sereno e firme, mas algo confuso, também. Como se ela não tivesse certeza do que estava fazendo. Ela ergueu a mão direita em sua direção.

Então, foi como morrer.

V

Teridus e Foscol aguardavam, silentes, no círculo de pedras. Quase preguiçosos. Alguns gritos haviam percorrido o ar e chegado até eles. Foscol ainda tinha algum medo, mas Teridus tinha confiança na coisa que enviara. Chegava a sorrir de contentamento, de forma contida, na escuridão.

O ataque foi rápido. Veio de cima. Foi como se o demônio fosse invisível até estar sobre eles. Foscol não durou um segundo, mas durou o suficiente para amaldiçoar, num estertor de pânico, o dia em que conhecera o mago, numa visita ao primo que invejava, e forjara uma aliança de traição com ele. Sua cabeça rolou e, enquanto seu corpo ainda convulsionava, Teridus recuou e gritou.

A besta não tinha mais a marca na testa.

Tentou conjurar um novo encantamento com uma voz vacilante, mas não houve tempo. O demônio agarrou sua garganta, com uma mão que era uma tenaz.

-Você sabe o que é o Inferno, mago?        

Teridus não respondeu, mas seus olhos transmitiram o medo de que ele fosse para lá em breve.

-O Inferno é a ausência de Amor. Ausência total. Eu nasci lá, nunca havia conhecido o Amor, portanto nunca soube o quão horrendo, doloroso e vazio ele era. Mas ela me curou. Me curou e me nutriu com uma fome e uma sede que jamais serão saciadas, e que farão a minha alegria pela eternidade. Eu compreendi muitas coisas através de você, mas quando ela me tocou, compreendi muitas mais. O mundo será estranhamente grato a você, mago, pois você completou o ciclo da profecia. Você tentou evitar que a Enviada dos Deuses vivesse até ter mais poder. No entanto, você deu a ela todo o poder de que ela precisa. Agora você não é mais necessário. Vá.

O corpo do feiticeiro consumiu-se em chamas em um instante. Elas lamberam o braço do demônio sem incomodá-lo.

O demônio recuou e deu as costas ao esqueleto fumegante que fora Teridus. Antes de morrer o mago também a vira. Ele não viera ali sozinho. Se ainda pudesse ver algo, o feiticeiro se assombraria ainda mais. A profana criatura ajoelhou-se perante ela. Parecia agora ser apenas um jovem servo de cabeça baixa, perante uma rainha. No entanto, quando precisasse de sua fúria, ela retornaria. Ela sabia disso e ele também.

-Minha soberana, o que deseja que eu faça agora?

Marina respondeu:

-Não será apenas meu desejo que importará, criança, mas o desejo de muitos. E o seu também, com o tempo. Não sei ainda o que faremos, teremos que descobrir, pois há muitas coisas que ainda não compreendo.

Marina olhou para os céus. Os deuses, com certeza, sorriam, divertidos. A mais dramática luta contra o mal começara naquela noite. Isso ela podia compreender, porque sentia.

Olhou para o jovem que havia a seus pés. Um demônio fora liberto do mal pelo poder de seu Amor, mas isso era apenas parte do prodígio que se operara havia pouco tempo. Ela sabia, embora não o dissesse em voz alta, que ele seria o instrumento. Os tiranos, os magos negros, os fomentadores de guerras, os tronos arrogantes da terra, os atormentadores dos fracos, os perseguidores dos humildes. Todos eles seriam esmagados e lançados no vazio pelo poder dele. Ele fora tocado, mas a destruição ainda era sua natureza. Ela nada podia fazer a respeito, exceto orienta-lo e cuidar para que não se excedesse. Assim era a vontade dos deuses.

Ainda lutando contra a dor da morte súbita de seu pai, ela afagou os cabelos dele, olhou novamente para os céus e sonhou com um futuro sobre o qual pouco sabia, mas que se impunha perante ela com a força de um amanhecer.

FIM!
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