6 de junho de 2013

Amazonas no Brasil

Desde a descoberta do Brasil, o encontro de Francisco Orellana com mulheres guerreiras constitui um dos mais intrigantes e polêmicos episódios de nossa História. Alimentado por um grande repertório de imagens estereotipadas por parte do conquistador europeu, o mito das amazonas fascinou a ponto de serem incluídas em ilustrações majestosas da cartografia. 

Por Johnni Langer

Sobrevivendo ao iluminismo, ao contrário de outras fantasias coloniais, as mulheres guerreiras foram identificadas nos séculos XVIII e XIX como mais uma tribo indígena, herdeiras de antigas civilizações desconhecidas. Exploradores modernos como La Condamine e o conde de Castelnau, perpetuaram a existência dessa sociedade mítica, demonstrando que o assunto estava distante de ser considerado apenas um episódio quimérico.

Não fugindo a este contexto, desde que foi fundado, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro também preocupou-se com as amazonas. Uma comissão que examinou a obra de Humboldt, composta por José Rebello e Lino Rabello, tratou rapidamente da questão enfatizando sua veracidade. Para essa dupla de averiguadores, Orellana teria avistado mulheres de um grupo indígena no qual os homens encontravam-se momentaneamente ausentes. Em uma sessão ao final de 1841, o sócio Joaquim Silva propôs que o tema fosse apresentado como um programa a ser desenvolvido pelo IHGB: quais as provas da sua antiga existência, "quais seus costumes, usanças, crenças" e qual a relação com o mito originário da Ásia. Um contexto dúbio. Para alguns uma realidade certa, enquanto que para outros existia a margem da dúvida.


Francis de La Porte (conde de Castelnau)
O mistério da estátua amazônica
Dentro da luxuriante vegetação do Amazonas, um viajante francês prossegue em seu percurso obstinado, procurando desvendar todos os mistérios que cercam esse espaço geográfico tão fascinante. O que seus olhos acabaram por descobrir, no caos natural, superaram todas as suas expectativas. Uma prova da antiga existência da civilização das amazonas, as fantásticas mulheres guerreiras. Esse explorador, chamado Francis de La Porte (conde de Castelnau), iniciou sua expedição pelo interior de nosso país em 1843, cuja missão havia sido encarregada pelo governo francês. No final de sua exploração, na região de Barra do Rio Negro do Pará (Manaus), Castelnau teria encontrado uma estátua que, conjuntamente com os outros objetos coletados, foram remetidos para uma exposição no Musée Impérial du Louvre (Paris). Seria apenas mais uma amostra de viagens no Oitocentos, se não fosse por um pequeno detalhe. A escultura foi estampada em 1847 como sendo originada da civilização das amazonas! Também o explorador confirmou a mesma declaração ao periódico L'Illustration. Mas neste mesmo ano, o historiador Antonio Baena, sócio do Instituto residente no Pará, desmentiu o ocorrido, em uma carta dirigida ao presidente desta província. Segundo Baena, a estátua seria uma pedra em forma de macaco, realizada no final do Setecentos por um pedreiro de nome Jacintho Almeida. Ou seja, um objeto de origem histórica recente, que mereceu um caráter mistificador.

Não temos maiores informações para estabelecer uma conclusão definitiva sobre o assunto. Em uma ilustração fornecida por Castelnau em 1850, observamos uma estatueta representando um ser humano, com as mãos justapostas no peito e com a base parecendo mesclar-se a um símio. As pernas fecham-se entre um símbolo em relevo. Apesar de muito raros (atualmente não se conhecem mais de 20 exemplares), os ídolos ou estatuetas de pedra ocorreram na região amazônica, fabricados pela antiga cultura denominada Santarém. Os ídolos são geralmente feitos de arenito, esteatita e ardósia e representam figuras cujo "corpo  de animal serve de encosto ao antropomorfo, cujas pernas estão levemente dobradas." A maioria das peças foram encontradas a partir de 1870, sendo totalmente desconhecidas pela academia até então. Falsificação ou peça genuína, a estátua recebeu conotações arqueológicas por parte de Castelnau, que conduzem a uma imagem idealizada do Brasil.

 

O Brasil enigmático da Floresta tropical
A região que compreende o rio Negro já era muito conhecida por brasileiros e estrangeiros em seus aspectos pré-históricos. A vila de Itacoatiara, próxima de Manaus, foi descrita em 1848 por sua imensa quantidade de pedras e lages pintadas, advindo disto o seu nome de origem indígena. Anteriormente, o marechal Cunha Matos mencionou figuras de rochedos do rio Negro, bem como de tribos indígenas que conservariam vestígios fenícios. No mesmo período e local, o explorador francês Mr. Bauve teria encontrado pedras gravadas ou "estátuas esboçadas (...) que atestam a existência de uma antiga civilização." Os grafismos rupestres que ocorrem neste local são integrantes da denominada tradição amazônica, geralmente compostos por figuras humanas radiadas, gravadas próximas das cachoeiras. Mr. Bauve possivelmente observou petróglifos representando seres humanos, o que teria para ele um sentido escultural e civilizado, distante do panorama indígena contemporâneo. Não sabemos se Castelnau conheceu o trabalho destes seus antecessores, mas sua reação foi praticamente idêntica. Encontrou um artefato que segundo suas concepções, estaria desvinculado das sociedades primitivas da floresta. E qual a melhor opção para estas culturas? A antiga e mítica civilização das mulheres guerreiras.

Antes de mais nada, o mito das amazonas remete a um referencial de exotismo. Conceber formas de sociedade onde o homem não existe é próprio de locais onde a natureza predomina sobre a razão, onde as expressões animais suplantam as leis estabelecidas e os princípios de ética humana. Para os gregos, as mulheres sem seios (a-mazôn) eram bárbaras porque desconheciam as leis da pólis, enquanto que as valquírias germânicas seriam mulheres-homens inclinadas perigosamente ao belicoso. No caso do mito brasileiro, essas imagens ainda incorporaram representações idealizadas das civilizações andinas. Gaspar de Carvajal em 1541, no texto mais célebre sobre o tema, descreveu uma cidade de pedra, habitada por mulheres guerreiras com imensos templos dedicados ao sol e repletos de ídolos feitos em ouro e prata. Aonde situava-se esse paraíso terrestre, essa jóia perdida do exotismo humano? Na foz do rio Jamundá, próximo ao rio Negro.

Por sua vez, o naturalista francês La Condamine durante sua expedição ao interior brasileiro, recolheu informações orais sobre a antiga existência dessas polêmicas personagens. Em seu livro Relation d'un voyage fait dans l'intérieur de l'Amérique médidionale (1745), dedicou-se a comentar o mito no Novo Mundo. Segundo indígenas contemporâneos a Condamine, uma república de mulheres teria existido nas terras do rio Negro. É muito importante verificarmos a ruptura existente entre o mito das amazonas no imaginário do séc. XVI-XVII e sua sobrevivência no Setecentos. Antes, essa formulação mítica encontrava-se mesclada a outros relatos, como as cidades imaginárias do Eldorado, Manoa, o lago Parimá e indígenas acéfalos como os Ewaipanomas. No famoso mapa de Theodor de Bry, Tabula Geographica (1599), todos esses mitos aparecem conjuntamente ao longo do grande rio equatorial, este batizado pelo fatídico encontro de Orellana com as misteriosas personagens nesse mesmo século XVI. Durante a época de La Condamine, tanto o imenso lago quanto as cidades de ouro, já não despertavam a credibilidade geográfica dos europeus. Confinados a uma dimensão irreal, assumem o caráter de fantasias de conquistadores avarentos e inescrupulosos. A obra do explorador francês foi também responsável pela perda da credibilidade nas lendas coloniais, oferecendo opções racionalistas e históricas para o seu surgimento na imaginação.
Documentário sobre as Amazonas
Mas as mulheres guerreiras ainda fascinavam. La Condamine considerava muito pouco provável que essas belicosas personagens ainda existissem na época de sua expedição. Denominadas de Comapuíras pelos indígenas, diferenciou esses relatos orais do antigo mito grego, acreditando que os conquistadores haviam mesclado os dois relatos devido às suas inclinações para o maravilhoso. Um dos momentos mais marcantes de sua narrativa, foi a descrição do relato de um soldado francês de Caiena. Esse militar teria avistado no pescoço de índias da região amazônica, pedras verdes, que foram atribuídas às terras das "mulheres sem maridos". Em outro trecho, também comentou a existência dessas fascinantes "pedras das amazonas," jóias admiravelmente cortadas e talhadas com figuras de animais. Desta maneira, o explorador não apresentou apenas evidências folclóricas orais, mas também vestígios materiais atestando a antiga existência das misteriosas guerreiras. Um procedimento muito importante para esse período sistematizador e racionalista do passado humano. Do mesmo modo, Humboldt confirmou a existência de pedras das amazonas em tribos indígenas do rio Negro, no oitavo volume da obra Voyage aux Regions Equinociales, 1804.

Todos esses relatos devem ter despertado a atenção do conde de Castelnau. Como representante da academia francesa, o texto de La Condamine certamente lhe era familiar, além é claro do clássico Carvajal. Quando adentrou pelas florestas à margem do rio Negro, a lembrança de amazonas percorrendo pela região foi instantânea. Nada mais natural aos seus olhos, que a ocorrência em uma natureza tão exótica de habitantes ilustres à sua altura. Para o conde, a origem da estatueta era muito clara: "elle représente une Amazone, et as position purrait peut-être confirmer cette manière de voir." A tradição oral ainda existente sobre essa civilização seria tão forte, que o explorador francês somente poderia defender a sua realidade. Os conquistadores coloniais não poderiam inventar uma fantasia sem sentido, e as tradições clássicas sobre o assunto somente concediam razão para o mito: "cette légion de femmes combattit vaillamment et périt les armes à la main. Il ne serait donc pas étrange qu'un fait qui s'est présenté à plusieurs reprises dans l'ancien monde se fùt rencontré une fois dans le nouveau."

Floresta misteriosa e perigosa, com residentes igualmente fascinantes - essa imagem primordial da Amazônia iniciada com os descobrimentos não parece modificada em pleno Oitocentos. Como um estranho animal das Américas exposto em um zoológico, a peça encontrada por Castelnau acabou em um museu francês. O exotismo aqui foi o mesmo. Originados de locais distantes, atestavam um encantamento que não assusta, mas atrai e instiga a imaginação. A floresta amazônica foi a grande vitrine naturalista para o mundo ocidental: forneceu peças biológicas, antropológicas e arqueológicas para os cidadãos do Velho Mundo admirarem extasiados, frente ao seu admirável exotismo. Essa vulgarização da continuidade de imagens seculares, de que Castelnau foi um exemplo, permitiu a instrumentalização de objetivos maiores, como a colonização imperialista em regiões primitivas e incompletas, incapazes de se transformar "naquilo que os europeus pretendem que elas sejam." E uma simples estátua de pedra, que não sabemos se foi autênticamente pré-histórica ou de fabricação fraudolenta, desencadeou todo um processo imaginativo condizente com as formas de percepção européia acerca de nosso país.

Uma última menção ao tema durante o império, ocorreu na Revista da Exposição Antropológica, de 1882, com o título "A lenda das amazonas". De debates arqueológicos, passando por categorias míticas, agora as amazonas transformaram-se em alegoria de um espaço geográfico selvagem, onde a natureza poderia, quem sabe, um dia ter dispensado os homens: "Nesse sonho de totalidade, de unidade que a humanidade persegue obscuramente desde que existe, não há muitas soluções míticas que sejam perfeitamente satisfatórias." Pois afinal, depois da Ásia Menor, não foi a floresta tropical o refúgio ideal para essas mulheres, tão poderosas na imaginação?

Bibliografia:
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