26 de junho de 2013

A Caçada ao Lobisomem


Houve uma noite em que José Pedro, que vivia no campo, cuidando de suas ovelhas e plantações, com sua mulher e sua filha, acordou inquieto. Já passava da meia-noite e ele se levantou, ficando rapidamente alerta. A mulher,que dormia ao lado, fitou-o nos olhos e nada disse. Como que para responder a uma pergunta silenciosa, mas, mesmo assim muito eloquente, ele disse:

-Acho que ouvi um barulho. Não sai daí.

A mulher seguiu-o como os olhos, uma expressão de medo neles. José Pedro caminhou pelo corredor estreito e curto e se postou ao lado da porta do quarto da filha. Escutou com calma, mas, desta vez, parecia não haver som algum. Abriu a porta o mais silenciosamente que pôde e caminhou devagar até ficar ao lado de sua cama. Sentia um vago termo, uma impressão indefinível de que alguma coisa estava errada. E de fato estava.

Virando-se para ele subitamente, com os olhos arregalado e um sorriso meio ensandecido, havia um rapaz na cama de sua filha adolescente. Teria mais ou menos a mesma idade dela, quinze anos, e, para acrescentar um toque de bizarro ao que já era assustador, ele estava usando a camisola de dormir da menina, que fora seu presente do aniversário mais recente.

O agricultor saltou para trás soltando um grito. Talvez ele esperasse acordar naquele instante de um pesadelo medonho, mas não foi o que aconteceu. O jovem pôs-se de pé e disse, ainda sorrindo com aquela zombaria mórbida em seu rosto de delinquente:


-Que olhos grandes você tem, papai!

José Pedro demorou para articular a frase, mas ela finalmente saiu:

-O que você fez com a minha filha?

O rapaz apenas continuou sorrindo, e pôs as mãos na cintura, num gesto de petulância e desafio, o agricultor começou a sentir raiva no lugar de medo, e tornando-se visível que o invasor não portava arma nenhuma, gritou, avançando:

-Te fiz uma pergunta! Como é que tu entrou aqui? Onde é que ta minha filha?

-Sua filhinha estava deliciosa, Zé Pedrinho...

Era o apelido entre os amigo. Aquele garoto a conhecia bastante de sua casa e de sua família, era evidente, e agora era necessário agir. Homens como Zé Pedrinho eram de ação e paixão, e de pouco planejamento, e o dono da casa aplicou um soco bem dado na orelha do rapaz, que caiu sem reagir. No chão, apenas murmurou, agora sem sorrir:

-Mãozinha pesada...

A resposta de Zé Pedrinho foi um chute entre as pernas do jovem caído, que emitiu um gemido baixinho, e, lentamente, se pôs de joelhos, apoiando a cabeça no chão. Era um jovem magro e pálido, e não havia dúvida de que o homem do campo, com seu corpanzil largo e forte, podia manter a situação sob controle, em sua fúria crescente:

-Responde o que eu te perguntei!

-A porta estava aberta...

-Quê?!

-Perguntou como eu entrei. A porta estava aberta.

Aquilo era demais. Como é que alguém naquela situação podia estar brincando?! Só se... sim, era isso, ele não estava sozinho! Havia outros do lado de fora! Outros delinquentes sem respeito pela casa dos outros nem pelos mais velhos! O medo voltava. Zé Pedrinho levantou o invasor do chão pelos cabelos e torceu seu braço atrás das costas. Enfiou sua cara na parede do quarto, emitindo baque. Em nenhum momento o jovem reagiu ou se queixou. Apenas comentou, com sangue escorrendo da boca e do nariz:

-É fácil ser valente com alguém com metade do seu tamanho, né?

-Quantos vocês são? Fala! Tem mais alguém contigo? Fala senão eu quebro teu braço, moleque!

-Eu to sozinho... e vou sair daqui sozinho.

-Duvido!

-Então quebra meu braço. É divertido machucar quem é mais fraco...

Zé Pedrinho ficou sem fala. Jogou o garoto no chão, houve um estalo, talvez da madeira, talvez das suas costelas. Ele franziu os olhos de dor, mas esboçou um sorrisinho. Olhou por cima do ombro do homem e disse:

-Oi, dona Lourdes, tudo bem com a senhora?

Zé Pedrinho voltou-se para trás, a mulher estava no corredor, de camisola e com o rosto mais branco que cera de vela. Muda de horror e espanto.

-Tu conhece esse sujeito, mulher?!

-Cadê a Juliana? Cadê a nossa filha?

-Tu conhece esse bosta?! Me responde, antes que eu...

-Cuidado, ele se levantou!!

Em pé e totalmente composto, a não ser pelo sangue no rosto, o invasor olhava para os dois, inexpressivo.

-Não. Ela não me conhece.

A resposta de Zé Pedrinho foi um murro no rosto, que desequilibrou o invasor, e um segundo no estomago, que o colocou sentado sobre a cama da menina. Lourdes começou a choramingar e a tremer. Enquanto apertava o pescoço do rapaz, Zé Pedrinho gritou:

-Te mexe, sua anta! Vai buscar minha arma! Esse desgraçado sumiu com a Juliana! Eu vou fazer ele falar...

A mulher correu, chorando alto agora. O invasor estava com os olhos esbugalhados e o rosto vermelho, e as mãos cerradas ao redor dos pulsos do dono da casa. Seus olhos encontravam os do agressor e, mesmo no domínio da situação, José Pedro sentia ainda um pouco de medo. Aqueles olhos eram perturbadores. Não havia medo, nem respeito, nem dor neles.

Talvez houvesse ódio. Com certeza havia malícia.

-Agora me responde, antes que eu te quebre o pescoço... o que é que tu fez com a minha filha, animal? – disse o homem, afrouxando levemente a pressão.

Num fio de voz, o rapaz respondeu:

-Nada... que ela não...quisesse...

Subitamente, o jovem franzino revelou uma força insuspeitada, arrancou as mãos de Zé Pedrinho do pescoço e, durante o breve momento de espanto que isso causou, repeliu-o com um pé. Não foi sequer um chute, apenas um empurrão, e o homem de noventa quilos foi parar na parede às suas costas. Suas costelas estalaram na tábua e ele caiu.

Quando começou a se levantar, o jovem já estava de pé, tocando levemente as marca que havia em seu pescoço. Não havia mais sorriso nem gracejo no olhar. Seu rosto, o rosto de um fedelho de quinze anos, petulante e sereno, era pura determinação e ódio. Um ódio frio e adornado de segurança.

Zé Pedrinho sentiu medo. Mais do que achava que podia sentir de outro homem.

-É diferente quando alguém reage, né? – disse o rapaz, numa atitude meditativa – Acho que você não ta acostumado.

Deu um passo inofensivo na direção do homem. Foi o suficiente, pois, evitando aqueles olhos a qualquer custo, o agricultor se colocou de pé aos tropeços e correu para fora do quarto. Encontrou a mulher, de rosto vermelho, parecendo em choque, com a velha espingarda nas mãos. Tomou-a num gesto relâmpago e engatilhou. Tinha o costume de guardar carregada.

O garoto de camisola surgiu na porta do quarto. Sorriu mais uma vez. Seu andar não dava nenhum sinal de que tinha levado uma surra.

-Atira, covarde. Me dá mais um motivo.

Por puro instinto, Zé Pedrinho disparou. No terror sobrenatural que aquele sujeito lhe inspirava, ele chegou a acreditar que o chumbo iria ricochetear em seu peito, apenas estragando o presente de Juliana, que ele agora usava, e que ele ia continuar avançando. Chegou a antecipar suas gargalhadas.....

Depois de ter relatado a todos que ali se encontravam, um silêncio mortal imperava no meio da turma. Foi então que o Mineiro voltou a falar:

- Gente meu cão foi morto por alguma coisa que eu não conheço, o meu cão favorito! Quanto a vocês ão sei, mas eu vou atrás até encontra-lo e vou matar esse bicho, há se vou!

Conforme o Mineiro ia falando notava-se claramente em seus olhos, a raiva que sentia por ter perdido seu cão e uma coisa nós já sabíamos, a coragem que este homem têm.

- Quem vem comigo?? Gritou Mineiro. Dos muitos que ali se encontravam, não havia um que se oferecesse a ir. Muito Bem, eu irei, falei e em seguida o Tuta e o Celino também, o Marcos e o Maranhão e mais ninguém, todos davam alguma desculpa para não ir.

Então perguntei ao Mineiro o que deveríamos levar para esta perseguição. Ficou mudo por alguns instantes e falou:

- Cada um deve levar sua espingarda e uma espécie de sacola de pano com alças, com muito cartucho, também faroletes, facão e fósforos.

Todos que se dispuseram a ir tinham espingarda calibre 12" cano duplo, o que era normal naquela região.
De tudo o que íamos levar eu concordava, mas uma coisa me chamou a atenção, o porque de levar fósforos? Não discuti e nem falei nada simplesmente aceitei.

- Olha o João, falou o Arceu: Não é melhor deixar para lá e a gente ir vivendo a nossa vida como sempre?

- Não, retrucou o João Mineiro. Tenho crianças e as minhas criações, não vou viver igual a tatu enfiado num buraco só saindo quando chove. Vou atrás sim!

Depois deste pequeno debate, todos voltaram para suas casas, os que não queriam ir, acendiam luzes de fora de casa, como se assim espantasse alguma coisa e os que iriam a caça se preparavam como o João havia falado.

Os seis caçadores já estavam na casa do João, todos com seus cães e suas armas, e antes de sairmos houve um breve pausa para orações. Para mim tudo era novidade, sair a noite, caçar o que não se conhece... para quem não sabe, o mato, a noite, guarda mistérios que nem se imagina.

A tensão era grande, mas a curiosidade era maior, eu queria saber o que era, como era e se de fato existia coisa igual, confesso que tremia, e se ninguém fosse com o João eu iria, porque eu nunca tinha visto alguém com tanta coragem como este homem.

Os cães a frente iam latindo e farejando o caminho em que a criatura passou, de repente os cães silenciaram, o João se abaixou e ficou em posição de tiro o nós seguimos de pronto, apontou o dedo para mim e com gestos com a mão me chamou.

Fui até ele e sussurrando me falou:

- Que que você Lafér, pegue seus cães e vá para o lado esquerdo a uns 20 metros de distância, e quando você ouvir um assovio longo, solte os cães, um curto e um longo, vá para frente e quatro assovios curtos aproxima-se para perto de mim a 2 metros, lógico que sempre assoviando, para que não aconteça nenhum acidente, tá certo?

Respondi que sim, apesar de estar com medo.

Era ordem foi dada a todos. Então ficamos da seguinte maneira, do João para a esquerda coim 20 metros de distância um do outro ficou eu (Lafér) e a 20 metros a minha esquerda o Maranhão, do João para a direita ficou o Celino e o Tuta, claro, todos com cães fortes, ferozes e da caça Perdigueiro e Sabujo.
Um assovio longo ecoou pela mata a dentro, soltei meus cães e assim todos fizeram a mesma coisa.

Os cães se embrenharam pela mata a dentro latindo fazendo um zoado que dava medo, e assim foi até que o latido dos cães foram sumindo, ficando mais longe. O breu e o silêncio agora era mortal, um assobio curto seguido de um longo era o sinal para que fossemos a frente em direção aos cães.

Andamos por quase uma hora quando ouvi quatro assovios curtos o que significava que tinhamos de nos reagrupar.

Dei graças a Deus, pois já não aguentava mais tanta ansiedade.. por encontrar ou não a criatura.

Com todos juntos o João disse:

- Pessoal quero que vocês prestem atenção e por favor não acendam o farolete. Fiquem todos quietos, veem aquele arbusto a nossa frente? Pois bem, ele esta se mexendo, mas não se assustem, tenho certeza de que não é a coisa, pois se fosse teria nos atacado. Celino de a volta pela minha esquerda e vá em direção ao arbusto. Maranhão pela direita e eu vou pelo meio, Lafér e Tuta deem cobertura, mas jamais atirem...

Os três chegaram juntos quase que simultaneamente, naquele instante todos estavam com os nervos a flor da pele, foi então que o João acendeu o farolete e falando normalmente nos chamou:

- Podem vir agora. Vejam o que aconteceu atrás do arbusto!

Quando o foco do farol bateu em cima, percebi que o que mexia aquele arbusto eram alguns cães, todos em pedaços como se tivessem sido rasgados, igual se rasga um pedaço de pano velho.

-Vocês conseguem identificar os cães? Falou João.

O Celino olhou e reconheceu um, o Tuta também, esta mais emotivo chorou. O Maranhão para dar forças aos amigos disse:

- Ô gente isso é só cachorro! A gente arruma outro sô! Vamos pegar esse bicho antes que ele faça isso com alguém.

- Ta certo. Respondeu Tuta. Eram só cães, mas eu gostava muito dos meus cães, e não é por nada não, mas para arrebentar o Brutos, essa coisa deve ter uma força descomunal, e eu confesso que to com medo e vou voltar. Alguém de vocês quer vir comigo? Perguntou.

Vou com você, respondeu o Celino. O João me desculpa, mas minha coragem acabou aqui. Perdi dois cães e o tuta tem razão pra fazer isso com os cães heim? Nem onça faz!

O João pensou um pouco e com calma falou aos amigos:

- Olha gente, vocês tem razão, não é fácil não, quem quiser pode voltar, não vou achar ruim, mas eu não volto, vou até o fim. Maranhão, Lafér se quiserem pode voltar.

-De jeito Nenhum! Vou com você onde você for. Retrucou Maranhão.

- Estou com vocês também! Falou Lafér.

E continuamos a perseguir a Besta noite a dentro, mata a fora.

Já cansado de tanto andar, quase por, desistir. De súbito um vivado alto e forte bem a nossa frente fez com que meu sangue congelasse em minhas veias, imediatamente nós três no munimos de armas em punho, prontas para serem acionadas.

Gente não tenha medo de economizar munição não, atirem a vontade, falou o João.

De repente como vindo do nada, saltou em nossa frente uma criatura grande e forte, não tenho como descreve-la bem, pois a madrugada era nua e escura, apesar da lua cheia clarear todo o sertão, onde estávamos era mata fechada, o que impedia que a claridade chegasse até nós.

Acendemos os faróis e conforme atirávamos, sem sucesso mais uma vez a coisa conseguiu escapar.
Um rastro de sangue corria em direção a uma colina, chamei então os dois companheiros e mostrei o sangue no chão.

Beleza! Gritou o João, então acertamos, agora vamos seguir estas marcas de sangue e pega-lo sem piedade.
Fomos então em direção a colina, caminhamos por mais uma hora quando atingimos o topo, avistamos bem ao pé da colina um pequeno casebre que se escondia entre a penumbra e a claridade da lua. Os rastros de sangue dirigiam-se em sua direção o que nos levava a crer que aquele casebre era a morada da coisa.

O purpuro róseo anunciava-se no horizonte, o dia estava prestes a nascer, descendo colina abaixo, respiração ofegante, o cansaço ja nós dominava por completo, minhas pernas caminhavam levando meu corpo, o raciocínio estava mais lento.

Chegamos em fim ao nosso destino, o casebre estava aos pedaços, reboco caindo, suas portas batendo e janelas eram no estilo colonial antigo, tudo lavrado a machado, provavelmente por escravos, seguimos as marcas de sangue até uma das janelas da casa na parte dos fundos, esta encontrava-se trancada mas as marcas de sangue iam até o seu batente, o João chamou o maranhão e disse:

- O maranhão, você fica aqui de olho nesta janela, o que se mexer, se for gente, bicho ou sei lá o que for, atire! Não deixe escapar, eu e o Lafér vamos pela frente.

- Tá certo, respondeu o Maranhão.

- Lafér, vou entrar rasgando, você vem atrás pronto para atirar, tudo bem?

- Ok, respondi.

Então João arremessou seu corpo sobre a porta, o que fez com que esta caísse no chão, entrei logo atrás, la dentro um casal de velhinhas tomava o café matinal, quase morreram de susto.

- Minha mãe, o que esta acontecendo? Perguntou a senhora.

Fiquem tranquilas, falou o João, e continuou. Eu só quero a besta que vagueia pela noite e matou os nossos cães.

- Por favor, não matem meu filho, ele não tem culpa de ser assim!

- Onde ele está? Perguntou João.

- Ele esta no quarto, segunda porta do corredor a direita, mas não machuquem meu filho.

- No quarto todo ensanguentado, havia um homem comum, roupas rasgadas e gemendo de dor deitado na cama.

O João apontou a espingarda na cabeça, puxou os dois cães, ia atirar, quando a velhinha implorando pela vida do filho falou:

- Pelo amor de Jesus Cristo, não faça isso, só ele pode nos ajudar, postada de joelhos aos pés do João continuando a implorar pela vida do filho.

Com um grito de raivam empurrou a velha, pegou pelos colarinhos o homem que agonizava junto a cama, pois o calibre 12 no ouvido do malogro e falou em alto e bom tom:

- Presta atenção no que vou te dizer, agradeça a sua mãe por eu não te matar, mas vou falar só uma vez, se acaso você aparecer lá para os nossos lados, fique sabendo que vou voltar aqui além de te matar, vou matar também estas duas velhas, portanto nunca mais apareça por lá!

PS: Cinco anos depois, voltei ao local da caçada.

Uma empreiteira desmatava o lugar, perguntei ao capataz se ele não tinha visto uma casa por ali. Ele me respondou que não, mas o pessoal jurava que nas noites de lua cheia um lobo anda uivando e arranhando
a porta do alojamento e alguns minutos depois a voz de uma senhora falava:

- Vem com a mamãe meu filho, vamos descansar, tá na nossa hora, vêm!

Fim!
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