31 de maio de 2013

O Portal e o Rio Aude

Chloe Zimmer vivia em uma casa de campo enorme, daquelas dos filmes que assistimos quando crianças. Chloe nascera na Inglaterra, mais precisamente em Windsor, mas se mudara para Carcassonne, na França, ainda muito pequena, assim que seu pai, um fazendeiro nato que herdara do avô a habilidade com o gado e principalmente com o leite, comprou uma fazenda com algumas cabeças de gado por um preço razoável. Desde então, Chloe crescera rodeada por muita comida boa, empregadas e o mordomo Leonel, grande amigo de seu pai que se mudara com eles para a casa de campo. Sua mãe, Nadine, era uma mulher inglesa muito elegante que trazia consigo no dia-a-dia jóias lindíssimas, as quais vinham passando de geração para geração. Ela fora criada com muito requinte e sofisticação em Londres, e apesar de toda a educação e aulas de boas maneiras, ela sempre fora uma mulher boêmia e sem limites, até conhecer Oliver, o pai de Chloe. Oliver era desprovido de boas maneiras e mal sabia segurar uma colher, e foi isso o que mais chamou a atenção de Nadine. Na época, ela sabia que poderia matar dois coelhos com um tiro só se casando com Oliver : Seria feliz e ao mesmo tempo contrariaria a vontade de sua mãe, que era a de que ela se casasse com algum rapaz da alta sociedade.

Os primeiros anos casados foram de abundante felicidade e festas intermináveis na mansão onde moravam. Durante muitas noites, Nadine se deitava em sua cama sem saber se era seu marido que estava ali ao seu lado. Com Oliver não era diferente.

Os anos se passaram até que Nadine engravidou e Oliver comprou uma fazenda na França. O casal deixou para trás velhos e vazios hábitos, e uma reputação péssima. Tudo começou em uma manhã de uma terça-feira qualquer.

Chloe, a filha do casal, havia acabado de despertar do seu sono de 12 horas. Como de costume, levantou-se, soltou os cabelos, lavou o rosto e desceu as escadas. Nesse dia, Chloe havia acordado com um estranho gosto em sua boca, um gosto azedo.

Seus pais ainda estavam sentados à enorme mesa da sala de jantar:

- Bom dia querida. – disse Nadine.

- Bom dia. Não estou com fome, vou dar uma volta por aí.

- De camisola? – perguntou Oliver.

- Sim. De camisola.

Havia algo estranho naquele dia. Algo diferente no ar, como um perfume desconhecido que sentimos ao nosso redor às vezes. Chloe caminhou descalça pela grama bem aparada e resolveu ir até o rio. Passando por arbustos, pedras e esquilos, Chloe não fazia muita idéia do que estava fazendo ali, mas mesmo assim continuou. Chegou ao rio Aude. Ela observara a ponte e a antiga construção medieval decadente e sentou-se à margem do rio com os pés na água. Seu cabelo parecia ouro à luz do sol, e ela observava sua mão branca e delicada tocando a água, e foi quando ela viu algo estranho. Muito próximo do local onde ela estava com as mãos, ela viu algo reluzente e muito brilhante. Sua mão afundou-se cautelosamente e voltou à superfície com uma chave. Chloe possuía em suas mãos uma chave com uns cinco centímetros de comprimento e muito enferrujada.

O vento forte abriu abruptamente a enorme janela do quarto de Chloe. Com um movimento assustado ela pôs-se de pé em estado de alerta. O silêncio era de fato ensurdecedor, e ela sentiu os pelos dos braços se arrepiarem. O quarto estava escuro, exceto pela luz fraca da lamparina acessa ao lado de sua cama. Ela caminhou até a janela, e olhou para a Lua. Subitamente, Chloe sentiu uma presença no quarto, e quando se virou, lá estava ele. Uma figura escura devido à escuridão do quarto, trajando uma roupa justa feita de borracha que Chloe nunca havia visto ou ouvido falar, seus pés eram compridos feitos os de um pato, e ele segurava algo parecido com um cano em suas mãos:

- Há 19 primaveras esperamos para que a senhorita encontrasse a chave. Agora é hora de me acompanhar. Pegue a chave.

Por alguma razão, Chloe sabia que estava tudo bem. Ela o acompanhou.

Eles foram até a sacada da enorme casa de campo e, lado a lado segurando as mãos um do outro, sentiram as pálpebras pesando e o corpo fraco, e quando Chloe se deu conta, eles estavam à beira do rio Aude. A noite estava levemente quente e o vento soprava com mais força do que nunca:

- Coloque isso em sua boca e não me faça perguntas – disse a estranha figura, que agora à luz do luar Chloe pode notar que ele usava um enorme capacete preto enquanto lhe estendia o tal cano.

Era metálico e leve, com um encaixe em umas das extremidades. Chloe encaixou o encaixe em sua boca. Rapidamente, a criatura pegou a outra extremidade do cano e a conectou em uma em suas costas. Chloe estava em êxtase. Não se sentiu no direito de fazer perguntas:

- Vamos – disse a criatura enquanto caminhava para dentro do rio.

Chloe o seguiu e tinha certeza de que iria morrer. Quando já se encontravam completamente no fundo do rio, Chloe que já estava com a respiração presa há algum tempo, resolveu respirar e se surpreendeu por ter conseguido. O fundo do rio era escuro, mas a criatura possuía uma lamparina que não apagava embaixo da água. Pelo menos foi isso o que Chloe pensou.

À frente deles, Chloe avistou luzes muito brilhantes. Estranhamente, quando ela se deu conta, a criatura não estava mais junto dela, e a extremidade que estava ligada à criatura estava solta. Ela então percebeu, que não podia mais respirar.

Rapidamente ela pôs-se a nadar para cima, quando ela sentiu uma pontada de dor e algo a puxando para baixo. Ela não teve tempo e nem coragem de saber o que era, simplesmente se esforçou ao máximo e além do máximo para voltar à superfície. Enquanto nadava para cima ela notou que a água ao seu redor estava vermelha.

Depois de muito esforço ela chegou à terra, e passado o susto, percebeu que seu pé era nada mais nada menos do que restos de carne, ossos e tendões misturados com muito sangue e muita dor.

Chloe chorou e gritou o mais alto que pode, até uma mulher em um cavalo aparecer:

- Me ajude! Alguma coisa me mordeu, por favor... – suplicava Chloe àquela desconhecida.

A mulher, usando botas de pescador e uma calça (o que era muito estranho uma mulher usar naquela época), desceu do cavalo e olhou bem para Chloe :

- Me dê à chave.

- QUE CHAVE? – gritou Chloe – EU VOU MORRER,ME LEVE PARA CASA!

- Preciso da chave para te salvar meu bem.

Chloe continuou gritando.

O gosto azedo em sua boca estava mais acentuado do que o da manhã anterior, e sendo assim, Chloe abriu os olhos. O ar era frio e úmido e as paredes de pedra. Ela sentia uma dor de cabeça assustadora, mas se sentou. Estava dentro de um castelo. O chão perto do seu pé estava quase preto de tanto sangue que havia vazado. Por alguma razão ela não sentia mais dor alguma. Criou coragem e olhou para sua perna. Chloe levou um choque com o que viu.

Havia uma criatura infiltrada em sua perna onde antes fora seu pé. A criatura era aparentemente pequena, com um traseiro comprido e um rabo de uns oito cm. Possuía pelos como uma raposa e não podia-se ver o resto do corpo, pois este se encontrava enfiado em sua perna.

Horrorizada, Chloe começou a bater na criatura com o outro pé, mas esta não se movia. Chloe gritava e chorava e dava pontapés na criatura que parecia morta. Então, Chloe resolveu usar as mãos. Num ato de desespero, ela puxou com toda a força que tinha aquela criatura nojenta de dentro da sua perna. Aos poucos a criatura foi saindo. Chloe chorou e desejou morrer.

A criatura possuía no total mais ou menos meio metro, e o resto de seu corpo parecia um lagarto. A criatura estava coberta de sangue e ficou encarando Chloe que estava do outro lado do aposento procurando por uma saída. Não havia janelas e nem portas naquele lugar, mas Chloe avistou uma fechadura. No meio de todas aquelas pedras, havia uma fechadura. Chloe não acreditou no que viu, e foi aí que ela abriu as pernas e pegou a tal chave. A criatura permaneceu imóvel.

A chave encaixou-se perfeitamente na fechadura, e a porta se abriu.

O que havia do outro lado da porta era nada mais nada menos do que o próprio quarto de Chloe, na casa de campo. Ela atravessou a porta gritando por sua mãe, seu pai e por Leonel. Desceu as escadas desesperada, gritando feito um maníaco prestes a apunhalar alguém, e viu, ali na sala de estar, seus pais. Eles estavam sentados um ao lado do outro bebendo alguma coisa, e Leonel estava lendo um livro no outro sofá. Chloe entrou tropeçando em tudo e derrubando algumas cadeiras, quando sua mãe lhe disse :

- Querida venha cá. Sente-se.

O famoso frio na espinha paralisou Chloe :

- Meu bem, você sabia que você possui sangue celta correndo nas suas veias? – perguntou-lhe seu pai, Oliver.

Chloe estava sentada no tapete central venezuelano:

- Leonel - disse Nadine – por favor traga as ferramentas.

Leonel se retirou da sala de estar. Chloe estava se sentindo zonza, mas queria explicações antes de morrer:

- QUE PORRA É ESSA?

- Como eu lhe disse meu amor, nós somos descendentes diretos dos celtas. Sua avó, sua bisavó, sua tataravó e assim por diante, viveram vidas felizes e fartas graças à nossa linhagem sanguínea. Mas para continuarmos com essa vida onde não existe o errado e onde nunca seremos punidas por nossos pecados, devemos fazer um sacrifico a cada três gerações para a nossa Deusa: Épona.

Subitamente as portas da sala se abriram e Leonel reapareceu ao lado de um cavalo branco.

Chloe sabia o que tudo aquilo significava, quando criança sua mãe costumava contar histórias sobre uma mulher que se transformava em um cavalo. Telepaticamente Chloe ouviu:

- Não sentiras dor novamente, e serás ricamente recompensada.

Oliver, que ainda estava sentado no sofá, se levantou e puxou os braços de Chloe para trás. Segurou-os firmes no chão, e então Leonel se ajoelhou de encontro à ela.

O cavalo havia se transformado na mesma mulher que Chloe havia conhecido antes, e a mulher se aproximou e olhou-a nos olhos.

Os olhos da mulher eram pretos e não possuíam pupilas. Chloe sentiu um golpe e gritou o mais alto que pode até sentir suas cordas vocais se desprenderem. Leonel havia arrancado-lhe o baço, e entregado à mulher. Ela o segurou e o devorou ferozmente enquanto o sangue jorrava no rosto de Chloe :

- Esse é o mundo em que vocês vivem: os filhos pagam pelos erros dos pais e vice-versa. Não há liberdade neste mundo, você são escravos de vocês mesmos – disse a mulher para Chloe.

Chloe sentiu outro golpe, mas desta vez no meio do peito e esse foi o fim.

Muitos anos se passaram, e ainda há quem diga que no fundo do rio Aude, a cada 19 primaveras, o portal se abre, mas ninguém quer encontrar a chave.

FIM.

Conto escrito po Ana Laura Cardoso
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