2 de maio de 2013

Conto Assombrado: O Menino no Lago

Por Rita Maria Felix da Silva

Algumas histórias sobreviveram à memória dos dias antigos - carregadas de um lado para o outro pela brisa que, vez por outra, toca o espírito de mulheres e homens, relembrando uma época de feitos assombrosos, eventos estranhos, magia, maravilhas e horrores. Esta é uma delas:

Dizem que havia um menino de quem os pais foram levados muito cedo, por uma das mais estúpidas guerras que os adultos já fizeram. De algum modo, ele sobreviveu e vagou por uma vida solitária até que encontrou um homem chamado Orlando.

Os outros adultos desprezavam Orlando, que tinha uma índole ruim e não merecia confiança, porém - embora aquele homem alega-se detestar crianças e maltrate-se o menino sempre que estava irritado ou entediado – eles se tornaram companheiros de viagem nesse mundo, afinal nada tinham, exceto a companhia um do outro, e a solidão costuma permitir as alianças mais improváveis. E o tempo foi vagarosamente passando, enquanto tudo era exatamente assim.

Todavia, no começo de uma manhã, coberta de neblina – enquanto o dia avançava junto com as reclamações e grosserias de Orlando – eles chegaram a um lago sombrio, um lugar assombrado pelas memórias de horrores antigos.

Sentada em uma das margens, havia uma mulher perto de uma fogueira quase apagada, na qual as poucas brasas que ainda persistiam lançavam mais fumaça do que calor na carne assada de algum pássaro. Ela vestia trapos, seus cabelos eram de um amarelo muito suave, a brancura da pele imitava a palidez, o corpo era magro e, embora parecesse jovem, ninguém poderia, com certeza, determinar sua idade. Com a mão, ela remexia nas águas escuras do lago enquanto cantarolava uma música estranha.

Ao vê-los chegar, a mulher parou sua canção, afastou-se da água e os convidou para que se sentassem e comessem. Orlando, em seu orgulho de adulto, não admitiu, mas havia algo de assustador nela, o bastante para que alguns ossos daquele homem começassem a doer.

O menino – pois as crianças são mais sinceras – ficou assustado e quis recusar o convite. O homem recriminou seu companheiro de viagem, afinal estavam ambos com fome, e arrastou-o para compartilharem o café da manhã com aquela estranha.

A mulher – após os três comerem - se apresentou como Safira e perguntou-lhes seus nomes. Orlando indagou como ela havia conseguido capturar a refeição – afinal os deuses daquela terra pareciam não ter piedade dos famintos, pois os animais dali eram difíceis demais de ser pegos.

Ela riu – o som era seco e estranho – e apenas disse:

— Magia.

— Magia? – ele questionou, pois nunca havia encontrado qualquer coisa mágica em sua vida.

— Sim, – ela respondeu – eu sou uma bruxa.

O menino, tomado por aquela sabedoria que é própria das crianças, quis fugir e implorou que eles fossem embora. Orlando gritou com ele, criticou-lhe por ser tão covarde e explicou:

— Ora, ela pode ser uma bruxa, mas tem comida para nos dar.

A bruxa sorriu da tolice do homem e os três ficaram juntos.

Os dias se passaram. Orlando e Safira apreciavam a companhia um do outro - afinal ela fora solitária por toda uma longa vida e ele recebia dela todo o alimento de que precisava. O homem, porém, não gostava que o menino ficasse por perto, por isso exigia que este se afastasse o tempo todo ("Vá brincar em algum canto, mas nos deixe em paz!" – gritava ele) e a criança, meio por tristeza por não receber qualquer atenção, meio por temer a fúria do adulto, ia para longe e ficava caminhando e inventando brincadeiras até a hora da próxima refeição.

Para Orlando também era agradável está com Safira, pois nunca uma mulher tão bonita havia lhe dado atenção. Em certo momento, ele questionou sobre a beleza dela e a feiticeira respondeu:

 — Você ouviu sobre as bruxas serem más e feias, mas os contadores de histórias não sabem tanto quanto imaginam e somente uma bruxa muito tola seria feia.

Ele meditou por um instante, tentando forçar sua mente a abrigar aquele novo conceito, e depois perguntou:

 — Mas e sobre vocês serem más?

Ela sorriu novamente – um sorriso de profunda malícia e que pareceu belo para aquele homem:

— Ora, meu querido, as histórias não estão inteiramente erradas, embora fiquem muito longe da verdade... E, seja sincero, quem é você para falar de maldade?

Pelo resto daquele dia e também por toda a noite que se seguiu, Orlando evitou falar com os outros, ponderando sobre as estranhas palavras de Safira, porém, quando o sol nasceu novamente, ele despertou e esqueceu-se desta questão.

Naquela manhã, Safira fez a proposta. Explicou-lhe que já era uma bruxa por mais tempo do que ele poderia imaginar e disse que desejava se tornar apenas uma mulher humana, como todas as outras.

Orlando pensou em como a magia facilitava a vida e questionou por que Safira pensava em abrir mão de algo assim. Ela gargalhou, – com um tom de zombaria que quase fez o homem atirasse furioso sobre ela – recriminou-o por ser tolo o bastante para julgar coisas que não seria capaz de entender e acrescentou:

— Antes de abandonar a magia, providenciarei uma grande fortuna, o bastante para uma vida confortável até o meu último fôlego... Mas não só para mim:  gostei de você, Orlando. Há uns cinco dias de viagem fica uma vila, por trás daquelas montanhas, uma terra de gente simples, tola e interesseira, que existe à sombra das ruínas de um grande e antigo castelo – onde, quando teu tataravô ainda não tinha nascido, transformei em pedra a princesa daquele lugar e me diverti observando o príncipe vagar pelo mundo, inutilmente procurando uma forma de curá-la, até que o frio, a fome, a loucura e a velhice tomaram-lhe a vida... Quero que venha comigo e que fiquemos juntos até que a morte escolha levar um de nós – e ela contemplou-o com o sorriso mais encantador que aquele homem já vira.

Orlando ficou exultante, pois Safira era bela e a perspectiva de uma vida próspera, longe da miséria e da fome, ia além do que seus sonhos lhe permitiam ver.

A bruxa estava satisfeita com a resposta dele, porém o riso sumiu da face da mulher quando ela disse:

— Há, porém, uma última coisa que preciso realizar, um feito de extrema malignidade, antes de deixar de ser uma bruxa: um ato que devo induzir alguém a fazer. E será você, Orlando.

Ela tirou de suas coisas uma bolsa feita do couro de algum animal já extinto, dentro da qual estavam uma corda não maior que o braço de um adulto, tecida nas fibras de um arbusto que não mais existe neste mundo, e uma adaga de fabricação rude, na qual estavam gravados símbolos esquecidos pela humanidade. Safira pôs os objetos no chão e falou – num tom que parecia tão sombrio quanto o lago... – o que Orlando teria de fazer...

O homem teve vontade de gritar, mas não conseguiu. Tremia e colocou as mãos sobre a face, escondendo seu choro. Safira continuava falando – sobre a riqueza que teriam, sobre a vida ao lado dela – ele desejou que a bruxa se calasse, mas a ambição e o desejo fizeram-no continuar escutando... Antes de aquela manhã chegar ao fim, Orlando enxugou as lágrimas e disse que faria como a mulher lhe tinha dito.

— Ótimo - disse Safira, e seu rosto pareceu-lhe demoníaco – Então, chame o menino.

A bruxa guardou aqueles objetos terríveis e Orlando obedeceu-a. O menino voltou para perto do homem, tão inocente quanto qualquer criança, e estranhou a mudança em Orlando: nunca antes aquele adulto havia sido tão gentil, nunca tinha lhe dado tanta atenção quanto naquele momento. Como é próprio dos pequenos, o menino ignorou suas estranhezas e aproveitou aqueles instantes, os mais felizes que já tivera. Contudo, por mais que se esforçasse, não podia deixar de prestar atenção no fato de Orlando tremer em meio aos sorrisos e na forma severa com a qual Safira olhava para o homem, como se estivesse cobrando algo... E isso fazia Orlando tremer ainda mais, até que havia lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto.

O menino perguntou o que estava acontecendo, mas o homem escolheu mentir e disse que não havia nada.

A tarde se aproximava do final, quando Safira disse algo para Orlando, que pareceu a coisa mais estranha que o menino já escutara:

— Meu querido, logo a noite chegará, você terá falhado... E eu precisarei procurar um outro homem que possa me ajudar e que mereça minhas dádivas.

Ao escutar isto, Orlando estremeceu mais uma vez, parou de fingir e começou a chorar de uma forma que o menino nunca vira. O garoto abraçou-o tentando consolá-lo. Com a visão quase encoberta pelas lágrimas, Orlando olhou para a bruxa, que estava segurando aqueles dois objetos sangrentos, oferecendo-os a ele.

Como havia prometido a Safira, ele usou a corda para estrangular o menino e, quando não havia mais vida no corpo da criança, Orlando cortou-o em vários pedaços e atirou todos no lago.

Então, suas roupas cobertas por uma mistura de lágrimas e sangue, o homem murmurou uma maldição para si mesmo e olhou para Safira. Ela havia mudado. Ainda era bonita, porém aquela beleza mágica, que tanto o havia encantado, fora embora para sempre, deixando no lugar uma mulher como qualquer outra.

Ela apontou para um saco, feito de um tecido velho e sujo, que parecia ter acabado de surgir naquele lugar. Cheio de cobiça, Orlando abriu-o e enfiou as mãos, apenas para puxá-las de volta com moedas se derramando entre os dedos... Ouro, mais ouro do que ele poderia sonhar.

Ele esqueceu-se do menino e olhou satisfeito para a mulher. Com selvageria, rasgou as roupas dela e depois as suas próprias. Eles fizeram amor na margem daquele lago, por todo aquele tenebroso crepúsculo e pela maligna noite que se seguiu.

Pela manhã, felizes com sua cumplicidade, partiram para a vila próxima, deixando o lago sozinho, meditando sobre mais um de seus segredos sombrios.

II – Deuses Empoeirados e Fadas

Todavia, as bruxas nunca estiveram sozinhas neste mundo. Conta-se que quando a primeira delas emergiu violentamente do ventre da Mãe-Terra, em outro ponto, assim também ocorreu com a primeira fada. E quando a primeira bruxa e a primeira fada inevitavelmente se encontraram, um ódio indelével formou-se entre elas e ambas entenderam que suas espécies seriam inimigas para sempre, destinadas a guerrear uma contra a outra até aquele futuro distante em que não houvesse mais mundo.

Um dia, porém, as fadas perceberam que algo havia perturbado a ordem das coisas. Elas descobriram o que Safira fizera e isso as deixou muito inquietas – afinal, nunca uma bruxa havia se tornado apenas humana, o que sempre foi impossível e deveria ter continuado sendo.

Um bom tempo se passou desde essa descoberta e as fadas discutiram, resmungaram e blasfemaram, mas não conseguiram chegar a qualquer conclusão sobre o que deveriam fazer, até que uma delas observou o fundo daquele lago sombrio e também os restos do menino e perguntou as águas escuras o que havia acontecido e elas lhe contaram.

Na verdade, para as fadas não importava o que Safira e Orlando fizeram à criança – pois não se importavam com os humanos (exceto quando escolhiam trapacear com eles e iludi-los, apenas para vê-los depois sofrer com a desilusão – e elas não conheciam prazer maior do que esse), nem com qualquer outra coisa exceto elas mesmas e sua guerra contra as bruxas. As fadas entreolharam-se, com sorrisos maliciosos, pois viram ali uma oportunidade de punir sua antiga inimiga por tentar tornar as coisas diferentes do que sempre deveriam ser.

Primeiro, elas dialogaram com o espírito do lago, a entidade que era senhor daquele domínio aquático – foi uma conversa longa e desagradável, pois precisaram escutar as histórias terríveis que ele guardava... E elas eram muitas – porque necessitavam de seu consentimento para poderem ir adiante.

Depois foi a vez de negociar com os deuses mais velhos – uma casta de seres empoeirados, cerimoniosos, irônicos, grosseiros e ranzinzas, que não tinham muita paciência com as entidades mais jovens e seguiam uma arraigada obsessão por aquelas regras mais antigas, justamente do tipo que a idéia delas iria contrariar. Foi um diálogo longo e desgastante para as fadas e que só foi concluído com o sacrifício de uma delas.
Obviamente, esta não concordou em participar daquele acerto, mas, como era mais desafortunada e lenta do que as outras, suas companheiras jogaram-na no fogo e cobriram os ouvidos para não escutar os gritos daquela infeliz enquanto as chamas transformavam-na em cinzas.

Com todos os detalhes acertados, as fadas puseram-se ao trabalho de colocar seu plano em prática:

Uma delas foi enviada, como emissária, aos reinos que se situam além da morte. Com a aprovação dos deuses mais velhos assegurada, as divindades mais jovens que governam aquele lugar desolado não opuseram resistência a que a mensageira de lá trouxesse um espírito de volta para o mundo dos humanos.

Ofegante e um pouco louca – afinal, a morada dos mortos sempre foi um lugar muito inóspito para uma fada – ela se reuniu a suas irmãs na beira do lago. Lá elas pediram as águas e os pedaços do menino foram devolvidos. Depois juntaram todos eles e colocaram o espírito de volta em seu lugar. Quando aquele corpo começava a respirar novamente, elas usaram a magia e ele cresceu até que ficasse adulto.

Ao terminarem toda aquela bizarra tarefa, as fadas conversaram com o homem que agora estava diante delas, propuseram-lhe um acordo e disseram o que ele deveria fazer.

III – Um Príncipe Amistoso

Muitos anos se passaram na vila desde que Safira e Orlando haviam chegado. Usando o ouro que obtiveram com seu ato hediondo, os dois lá se instalaram e tentaram viver em paz como ricos e respeitáveis mercadores.

Porém, ambos envelheceram logo. Safira deixou de ser desejável e os defeitos de Orlando tornaram-se evidentes demais. Como a índole dos dois nunca foi boa, a convivência ensinou-os a se odiarem. Todavia, de algum modo estavam tão acostumados à companhia um do outro que jamais se afastaram. Por tudo isso, eram infelizes e, em resposta, escolheram tornar a vida um do outro tão infeliz quanto era possível. Às vezes, Orlando pensava no menino, mas depois se voltava para a prosperidade que ele e sua mulher haviam conseguido e a lembrança era novamente sufocada em algum recanto sem importância da memória daquele homem.

Um dia – na verdade, era uma tarde que ameaçava chover – o Príncipe apareceu na vila. Dizia-se que viera de alguma daquelas terras distantes das quais raramente se escuta notícias. Suas roupas e gestos ostentavam uma riqueza como Orlando e Safira jamais sonharam ver e seu modo de falar... No coração terrível de Safira, houve um tremor quando escutou as primeiras palavras do Príncipe – pois havia uma incômoda e perigosa sensação de reconhecimento naquele sotaque – mas, ela era apenas humana agora e, por isso, já esquecera certos assuntos.

Tomados pela cobiça na riqueza daquele estranho, eles não questionaram quando o Príncipe passou a dar-lhes tanta atenção, a querer apenas a companhia do casal e a gastar tanto dinheiro com eles. Por algum tempo, foi a melhor época da vida daqueles dois. O desprezo que reinava entre ambos foi esquecido e, de repente, pareciam ter se tornado os amantes mais felizes do mundo.

E quando conversavam com o Príncipe, ele falava das maravilhas de seu reino, uma terra de encantos, abençoada por grandes prodígios e prosperidade, a favorita dos deuses nesse mundo. Safira e Orlando escutavam com tanta atenção, como uma criança ouvindo histórias, e sonhavam um dia poder conhecer aquele lugar. O Príncipe sempre ressaltava que breve voltaria para seus domínios e levaria os dois consigo, para torná-los seus conselheiros e lhes daria castelos onde poderiam viver melhor do que a maioria dos reis deste lado do mundo. E eles riam,e festejavam e agradeciam aos deuses e ao Príncipe – que sempre parecia tão sincero, gentil e convincente. Claro que Safira devia ter percebido – e, antes de Orlando e daquele dia no lago, ela certamente o faria – mas já era tarde demais e eles não entenderam isso...

Os meses seguiram seu curso, até o início de uma manhã em que as ruas da vila haviam sido tomadas pelo frio e neblina. O Príncipe voltou a casa deles logo cedo, parecia aflito, como alguém que houvesse passado toda uma noite debatendo-se em busca da solução de algum difícil problema.

— É chegada a hora de voltar a minha terra – disse quando entrou – e devo cumprir a promessa que fiz a vocês...

Diante destas palavras, o coração perverso dos dois foi iluminado por grande alegria, pois já se imaginavam naquele distante e maravilhoso país, cobertos de importância e riqueza.

Todavia – e assim foi ensinado ao primeiro homem e a primeira mulher na primeira das histórias – sempre há um “porém” para tudo, por isso o Príncipe explicou:

— Sinto-me despedaçado por um terrível dilema... – e fez uma pausa, como se desejasse instigar a curiosidade deles, que ficaram nervosos indagando o que poderia ser... – Estou diante das duas pessoas que mais amo neste mundo, mais ainda do que amo meu honrado pai, os ancestrais ou o povo que estou destinado a governar...

Novamente, ele interrompeu seu discurso e observou que os rostos de Safira e Orlando estavam cheios de orgulho, enquanto respondiam com falsa modéstia.

Satisfeito, o Príncipe retomou a palavra:

— ...Porém, um amor tão grande - e assim aconselha as tradições de meu povo - não pode ser dado a duas pessoas: apenas a uma. Portanto, só posso levar um de vocês comigo, mas quem dos dois?

Nesse instante, dominados pela cobiça, Safira e Orlando entreolharam-se e se odiaram mais do que julgavam possível.

— Felizmente, - explicou o Príncipe – essas mesmas tradições apontam uma solução...

E, embora os olhos ambiciosos e furiosos do casal não pudessem notar, havia um sorriso malicioso no rosto do Príncipe.

Ele lhes pediu para irem a um lugar reservado, onde não pudessem ser interrompidos. Safira e Orlando acenderam um candelabro e levaram o Príncipe até o porão da casa, onde guardavam a riqueza que tinham acumulado, e disseram-lhe que ali teriam privacidade para conversar, pois até mesmo gritos – e Orlando riu enquanto explicava isto - não poderiam ser escutados pelos vizinhos, dado a profundidade em que estavam e a madeira que envolvia o cubículo.

Foi só então que o casal notou a pequena caixa que seu amigo trouxera.

Naquela semi-escuridão, o Príncipe abriu o recipiente e de lá tirou dois objetos que fizeram os olhos de Safira e Orlando se arregalarem: duas adagas, feitas de um metal negro e reluzente, que faiscavam, enquanto pequenos relâmpagos percorriam as lâminas e os cabos.

Inscritos naquelas armas, havia caracteres da alguma escrita não-humana, símbolos que Orlando nunca vira e dos quais Safira já havia se esquecido.

Mostrando as adagas para eles, o Príncipe explicou:

— Minha família descende de uma linhagem muito antiga de magos, eu mesmo ainda retenho algum poder no meu sangue. Estas adagas foram feitas pelo meu primeiro ancestral, no começo da história de meu povo. Desde então têm sido usadas apenas pelos reis e príncipes de minha terra, para resolver questões como a que temos aqui...

Orlando sentiu um frio repentino afligir-lhe os ossos. Safira olhou para aqueles objetos com atenção e murmurou:

 — Esse metal...

O Príncipe se voltou para ela, tão surpreso quanto alguém cujo segredo mais íntimo estivesse prestes a ser revelado:

— O que tem ele, Safira? Você não conhece o material de que essas adagas são feitas, não é mesmo? – questionou ele e havia temor em sua voz.

Por um segundo, Safira pareceu tomar fôlego, como se se esforçasse para lembrar de algo muito importante, mas - fosse, o que fosse - aquele instante passou e ela apenas disse:

- Nada. Tolice minha. Estou ficando velha. Juro, pelos deuses, que nunca vi nada assim.

Um sorriso de perversidade moveu os lábios do Príncipe:

— Claro que não! Não haveria como você conhecer isto! Escutem, é bastante simples: estas armas são mágicas. Vocês deverão lutar com elas, um contra o outro, tão selvagemente quanto puderem. É necessário não apenas que se firam, mas que se retalhem. No final, um dos dois morre, mas o outro, o que for mais digno de ir comigo – para viver em abundância e riqueza em minha terra – esse sobreviverá e a magia curará seus ferimentos. Vocês farão isso por mim, não é, amigos? Vocês confiam em mim, não é?

Safira e Orlando olharam assustados e confusos um para o outro e depois para o Príncipe, sem conseguirem responder, até que ele interveio:

 — Vejam isto! – exclamou o Príncipe, pegou uma das adagas e com ela fez um profundo corte, que, transversalmente, cruzava a palma de sua mão esquerda de um ponto a outro. Diante dos olhos deles, o sangramento parou e, um instante depois, não havia nem mesmo uma cicatriz. — Acreditam agora? – indagou ele.

Em seguida, ele depositou as duas armas no chão, bem no meio deles, e sentou-se, para aguardar, sobre um baú próximo.

Safira e Orlando pegaram as duas adagas e começaram a lutar. Foi um confronto tão selvagem e terrível que dificilmente alguém poderia dizer que eram dois seres humanos se enfrentando ali. Eles se feriam, rasgando pele e carne; espalhando sangue pelo porão; arrancando pedaços um do outro; tão impiedosamente, sem hesitação e de um modo tão cruel, como poucas vezes foi visto neste mundo. O Príncipe tudo isso assistia, sem nada dizer, porém sua face demonstrava uma satisfação, um tal prazer, uma felicidade até mesmo maligna, capaz de assombrar e provocar pesadelos por toda uma vida no mais tranqüilo dos corações.
Logo, Safira estava prestes a cair e Orlando mal se sustentava de pé.

Talvez tudo aquilo tivesse reanimado algo que fora perdido, pois ela tentava, com o rosto retalhado e desfigurado, pronunciar alguma última verdade:

 — Orlando... Magia de fada...O metal das adagas...É ouro das fadas...O Príncipe fala...Com sotaque das fadas...

— O que? – perguntou um confuso Orlando.

Ele retirou a adaga do ventre de Safira e ela caiu para trás, encerrando seu último instante de vida na poça de sangue que agora adornava o solo do porão.

Tão ferido, desfigurado e retalhado quanto ela – e gemendo de dor – Orlando tentou caminhar até o Príncipe, mas tropeçou, caiu e, com muito esforço, ergueu-se  e suplicou ao amigo:
— Príncipe... Não pára de sangrar... Dói muito... Salve-me... Por favor...

— Oh, e por que eu faria isso? – disse o Príncipe e começou a gargalhar de uma forma que parecia demoníaca. Tudo começou a escurecer diante de Orlando, mas antes de cair para juntar-se a Safira na morte, com o único olho que lhe restava, ele pôde ver que a face do Príncipe parecia mudar até tornar-se o rosto daquele menino que anos antes ele havia assassinado.

III – Epílogo

O Príncipe deixou a vila e encaminhou-se de volta para o lago. Lá um grupo de fadas o aguardava. Ao vê-las, ele prontamente disse:

— Tudo está concluído conforme combinamos: vocês humilharam suas inimigas e eu obtive a vingança pela qual implorei durante anos. Cumpri a minha parte, façam o mesmo, pois desejo voltar ao mundo dos mortos e descansar para sempre.

— Por que tanta pressa, menino-príncipe? – questionou uma das fadas – Não pára nem mesmo para ponderar sobre seu triunfo? A arte da mentira, a disciplina da ilusão e da trapaça, sempre foram uma maestria das fadas. Mas você provou que os humanos também têm facilidade de lidar com essas pequenas maravilhas. Talvez, ao contrário do que pensávamos, haja realmente um futuro, talvez até um grande futuro, para sua espécie...

— Os assuntos dos vivos não me interessam mais. Permitam-me apenas descansar novamente – respondeu ele.

As fadas olharam uma para as outras, como se decepcionadas, até que uma delas falou:

— Muito bem. Volte para o lago.

O Príncipe obedeceu e, mal havia entrado na água, foi envolvido por um estranho brilho. As roupas da realeza desapareceram e ele voltou a ser aquele mesmo menino de anos atrás, dentro das mesmas vestes daquele tempo. O menino olhou agradecido para as fadas, para logo em seguida desfazer-se em pedaços, que afundaram no lago.

— Vê, como eu disse: aos humanos falta imaginação – ironizou uma das fadas.

— Não, irmã: a imaginação é a essência deles – respondeu outra delas - Esse menino demonstrou que o povo humano poderia se equiparar a nós... Agora, conceba, se a imaginação deles atinar para isso, eles poderão erguer para si um futuro que não precise de fadas ou bruxas.

— Não seja tola! Seria um mundo tedioso demais!– repreendeu uma das fadas mais velhas – E nós mataríamos todos eles antes disso.

— Vocês querem parar?! – interveio uma delas, que estivera, até aquele instante a parte daquela discussão – Eu sou uma fada e prefiro não me preocupar com certos assuntos. Vamos, suas preguiçosas: temos uma guerra para vencer!

Logo as fadas foram embora e o lago ficou sozinho com suas histórias. Breve, porém, passou por ali certa brisa ainda muito jovem, cheia de curiosidade e ansiosa por ouvir histórias.

Como sempre fazia, o lago atendeu ao desejo dela e narrou-lhe o infeliz conto do menino, de Safira e Orlando.

Quando ele terminou, a brisa estava horrorizada, disse uma frase muito feia e partiu dali, jurando nunca mais voltar.

O lago riu e não se preocupou: gostava daquela brisa e sabia que ela, cedo ou tarde, retornaria para ouvir suas histórias. Sempre acontecia exatamente dessa forma.

Em seguida, ele voltou novamente sua atenção para si mesmo e começou a cantarolar para o espírito do menino que dormia no fundo daquelas águas.

FIM

Fonte: Sobrenatural.Org
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