17 de maio de 2013

Conto Assombrado: Deus Existe?

Por Iago Moura

- Deus existe! - gritou Fagundes, dando um murro numa mesa de bar e olhando feio para o seu amigo Joca.

Fagundes e Joca eram amigos de longa data. Foram "tomar umas" no bar Cana-Brava, lugar que sempre frequentavam  Beberam cerveja e pinga por horas. Sempre discutiam por alguma coisa, razão que ninguém mais ligava para os gritos trocados por ambos - era rotina. Por alguma razão alguém lembrou de religião e, sem querer, a discussão começou. Algumas cervejas e doses de pinga depois, a discussão estava "quente".

- Não existe! - respondeu Joca, devolvendo o olhar feio de Fagundes. - Olhe só toda essa, essa, essa... merda de mundo! Você acha que se Deus existisse ele permitira tais coisas?

- Seu ateu! - respondeu Fagundes, levantando-se da cadeira e apontando o dedo indicador na cara de Joca. - Deus sabe o que faz! Tudo tem uma lógica, tudo!

- Claro! - respondeu Joca, em tom sarcástico. - Se tudo der certo, Deus foi o responsável e viva ele! Se tudo der errado, ótimo, foi a vontade de Deus e viva ele! Ora, meu caro, ser Deus assim é fácil!

Fagundes sentou-se e "matou" a pinga que restava em seu copo. Sua mão foi para a garrafa de pinga, pois pretendia encher o copo. Ele estava vermelho - e não apenas por causa dos efeitos do álcool.

- Claro que é assim! - respondeu Fagundes, quase aos berros. - Ele é perfeito!

- Perfeito e pouco observador! - respondeu Joca, quase rindo. - Veja o que os nazistas fizeram! Você acha que se Deus existisse ele teria permitido Hitler assumir o poder na Alemanha? 50 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial... onde estava Deus? Hein? Hein? Hein? - perguntou rindo. - Estava jogando xadrez com o Diabo? - complementou, rindo bastante.

Fagundes suava, bufafa, tremia. Seu ódio era visível.

- Tudo tem um sentido! - por fim falou Fagundes, ainda segurando a garrafa e sem encher o copo. - Se até um lixo como você... um inútil desgraçado como você veio ao mundo é a prova que Deus existe!

As risadas de Joca aumentaram. Fagundes apenas segurava a garrafa.

- Até mesmo um lixo e inútil como eu veio ao mundo? Viva Deus e sua ignorância! Viva Deus e sua limitada inteligência! - gritou Joca, rindo ainda mais.

A mão de Fagundes moveu-se rápido e, com a garrafa, acertou em cheio a cabeça de Joca que, com o impacto da batida, caiu da cadeira e bateu a cabeça, na altura da nuca, numa parede próxima. Todas as pessoas dentro do bar ficaram mudas e não se mexeram. Fagundes levantou-se e olhou para o amigo no chão. Ele não se mexia. Sangue começou a escorrer da nuca de Joca, perto da parede. Uma mulher, a poucos metros, começou a gritar. Fagundes correu para a saída.

***

Dois dias depois, a noite estava fria e mal iluminada, pois os raios da lua cheia que flutuava sob o céu aparentemente morto estava concorrendo por espaço com as nuvens carregadas de chuva, que logo não tardariam a despejá-la. Os raios da lua dão lugar aos raios da chuva. Poderosos, impiedosos, violentos.

Um homem passeava calmamente ao lado de um grande e longo muro branco - sim, um cemitério. Ele parou numa certa altura do muro e o escalou sorrateiramente, entrando na região sagrada onde os mortos descansam. Ele andou lentamente pelo cemitério e, depois de alguns minutos de procura, ficou parado na frente de uma lápide recém instalada. Era exatamente aquela que ele estava procurando.

Ele fechou os olhos, tirou seu chapéu, juntou suas mãos e, silenciosamente, fez uma prece. Do bolso da sua camisa ele tirou uma rosa e a deitou no túmulo. A chuva ficou mais forte e os ventos começaram a fazer com que as árvores dançassem uma valsa louca e arrepiante.

- Eu não queria ter feito isso! - Fagundes começou a dizer para si mesmo. - Meu Deus! Como me arrependo disso! Era apenas uma bobagem... eu acreditava em Deus e você não. E daí? Eu poderia ter ficado com minha crença e você com a sua.

Um raio iluminou o céu raivoso. Fagundes olhou para cima enquanto lágrimas escorriam de seus olhos, misturando-se ao seu suor e à água da chuva.

- Mas você foi longe demais, Joca... riu! RIU!!! Riu de mim e de meu Deus... já era difícil respeitar suas opiniões e você nunca se esforçou para respeitar as minhas. Mas dessa vez você exagerou! Você ficou rindo, rindo e rindo! - abaixou sua cabeça e, enquanto falava, suas mãos se fechavam furiosamente.

- Não pude resistir a essas ofensas... e o mandei diretamente para Deus! Gostou da maneira como eu provei a existência divina? - o trovão rugiu furioso. Fagundes já não falava - gritava! Ajoelhou-se, aos prantos, na frente do túmulo.

- Eu mesmo não poderei conhecer Deus, pois pagarei pelo que fiz no inferno... no INFERNO!!!

- Talvez nem tanto, meu amigo! - surgiu uma voz, do nada.

Fagundes se virou rapidamente e viu apenas uma coruja, que desapareceu na chuva. Ele respirou fundo, aliviado. Quando voltou sua cabeça para o túmulo, levou um soco fortíssimo. Ele caiu de costas e sentiu algo subir-lhe o corpo e apertar-lhe o pescoço. Ele olhou firme para o que lhe subiu no corpo e gritou, desesperado:

- Joca? JOCA??? Você está morto! Você está morto!

- Seja mais educado e menos óbvio, meu amigo! - respondeu Joca, soltando uma aterrorizante gargalhada. - É lógico que estou morto, pois foi você que me matou, lembra-se?

Outro raio iluminou o rosto branco e doentio de Joca, que soltou outra gargalhada.

- E fugiu depois... nem a coragem de admitir as suas burradas você teve! O bom e velho covarde de sempre... e ainda queria que eu respeitasse sua opinião sobre a existência de Deus, não?

Joca (ou seja lá o que for) respirou fundo e ajeitou melhor suas mãos em volta do pescoço do Fagundes, caído e completamente paralisado de pavor.

- Eu ainda não sei se Deus existe ou não... ainda sou um espírito novo, sabe? Estou apenas vagando por enquanto... mas, como seu grande amigo e respeitador das opiniões das outras pessoas, principalmente das suas, ajudarei você a provar as suas crenças, meu amigo!

As mãos de Joca começaram a apertar o pescoço do Fagundes, inerte, caído na frente do túmulo. Os olhos vermelhos de ódio do Joca não deixavam dúvidas quanto ao que vai acontecer.

- Venha você mesmo conhecer Deus... ou o Diabo! Ou mesmo coisa alguma! Aprenda, por você mesmo, que nem sempre defender cegamente as suas idéias pode realmente ajudar a vida das pessoas!

***

No dia seguinte, já sem a chuva que castigou a noite, o coveiro encontrou um corpo deitado na frente do túmulo novo. Ele coçou o queixo e disse:

- Ih! É o cara que apareceu na televisão... o assassino desse que enterrei aí! Como a vida é irônica... o assassino morre na frente do túmulo do assassinado! Quem acreditaria numa coisa dessas?

FIM!

Fonte: Sobrenatural.Org

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