29 de maio de 2013

A Menina do Jardim

Por Justin Sobrenatural

Esse é um fato real. Acontecido há 18 anos, tem até hoje o poder de me aterrorizar ...

Em 1985, depois de uma promoção no trabalho, aluguei uma pequena casa na Encruzilhada, bairro da zona norte do Recife - que já conheceu dias melhores -, onde fui morar sozinha.

Trabalhando durante o dia e estudando à noite, tinha pouco tempo para me dedicar às conversas de portão; assim só conhecia a vizinhança de "bom dia, boa tarde e boa noite"! Lembro-me de raras vezes ter-me detido numa conversa mais prolongada, geralmente com a vizinha da frente, quando, aos domingos, eu cuidava do pequeno jardim. Assim, muito pouco sabia da vida da comunidade em que morava.

Nesta época, apenas uma pessoa me chamava a atenção. Morava na casa vizinha e deveria ter entre quatro e cinco anos. Sua beleza era irradiante. Loirinha, cabelos lisos e lindos olhos azuis. Ao sorrir, apareciam duas barroquinhas nas bochechas dela. Era realmente uma linda garotinha, sendo-me impossível passar por ela sem sorrir ou acenar, gestos sempre correspondidos. Nunca cheguei a falar com ela, mas, durante todo o tempo em que morou ao meu lado, permaneci encantada. Às vezes, preocupava-me vê-la brincando sempre sozinha, porém a violência daquela época não era a de hoje e nunca cheguei a comentar com ninguém minha preocupação.

Já morava tranquilamente nessa casa há uns três anos, quando num domingo, em julho de 1988, fui acordada por uma intensa movimentação na casa vizinha. Eram vozes, gritos e muito choro. Levantei-me rapidamente para trocar-me e ver se precisavam de alguma coisa. Ao chegar ao portão da casa ao lado, uma senhora que morava próximo deu-me a notícia: a dona da casa tinha morrido. Fiquei chocada, pois ela ainda era nova, em torno de quarenta anos. E, embora a visse a raramente, não aparentava estar doente. Logo me lembrei da garotinha, era doloroso pensar que agora aquela criaturinha tão linda ficaria sem mãe.

Parada no portão, em dúvida se entrava ou não, pois eu não tinha muita intimidade com as pessoas da casa e o choro vindo lá de dentro era intenso, pensava no que poderia falar para trazer algum conforto, principalmente à minha amiguinha, quando Ana apareceu. Ana morava do outro lado da rua e eu já conversara algumas vezes com ela, assim tinha um pouco mais de intimidade. Procurei então saber do ocorrido. O que acontecera era realmente uma tragédia.

Na véspera, a família tinha saído para fazer um pic-nic numa represa pras bandas de São Lourenço, uma cidade da região metropolitana do Recife. Tudo correu bem até depois do almoço. O pai cochilava sob uma árvore, enquanto o casal de filhos adolescentes jogava dominó. Repentinamente, a mãe levantou-se, deixando de lado as coisas que estava arrumando, andou resolutamente em direção à represa e nela se atirou. A filha, vendo o que aconteceu, gritou desesperada pelo pai. Este, acordando atordoado, não entendeu de pronto o que acontecera, até porque seria inadmissível pensar que sua mulher pudesse ter pulado na represa sem saber nadar. O som do seu filho pulando na água tirou-o do marasmo, fazendo-o também se atirar atrás de sua esposa. Infelizmente, eles só a acharam depois de alguns minutos, já desacordada. Com muito esforço conseguiram reanimá-la e quando ansiosos perguntaram-lhe o que tinha acontecido. Ela pediu desculpas e disse que tinha que salvar Regina. Pouco depois desfaleceu novamente, chegando ao hospital já sem vida.

Comovi-me sinceramente com o relato e lágrimas vieram-me aos olhos, então lembrei-me da menininha e perguntei por ela. Ana fez uma cara de interrogação e me disse que não havia filha pequena, só os dois adolescentes. Aquilo me deixou intrigada e Ana notou, então lhe contei que sempre via uma garotinha se balançando no jardim da casa vizinha. Ao descrevê-la, Ana empalideceu e me disse que eu devia estar enganada. Insisti na certeza do que estava falando, pois desde que me mudara sempre a via - talvez fosse uma sobrinha que passasse tempos com a família. Ana nada disse, porém com lágrimas nos olhos chamou-me para acompanhá-la até sua casa. Sentamos no terraço e após bebermos um copo de água, ouvi o relato completo de uma tragédia.

A minha vizinha realmente tivera três filhos, porém em 1975 quando o Recife foi assolado por uma cheia de tamanho descomunal, destruindo e desabrigando muita gente, a minha rua tinha ficado praticamente submersa. O nível das águas chegou a mais de dois metros na rua e ninguém se preparara para uma cheia de tal intensidade. Ana contou-me que, no dia da cheia, o marido da minha vizinha estava viajando a trabalho e ela se encontrava sozinha em casa com as três crianças, quando durante a madrugada o nível das águas começou a subir rapidamente, ela desesperou-se, pois não sabia nadar, e resolveu sair de casa levando-as. Nesta época tinham 2, 4 e 6 anos. Colocando a mais nova encarapitada no pescoço e segurando as outras, uma em cada mão, saiu tentando chegar à Estrada de Belém que ficava num nível mais alto. Ana disse que ao vê-la sair ainda gritou para que não fosse, porém ela respondeu-lhe que não aguentaria ficar ali. 

Ana só teve notícias de meus vizinhos duas semanas depois, quando pode voltar para sua casa, pois tinha perdido todos os móveis e eletrodomésticos e passara esse tempo na casa de parentes. Foi aí que soube da tragédia. Minha vizinha tinha andado com as crianças até a avenida Beberibe, porém ao chegar lá a correnteza já era enorme e ela não tinha como retornar. Já sem forças e arrastando as crianças, lutava desesperada para chegar a um lugar seguro. Foi quando a menininha de quatro anos escorregou de sua mão, sendo rapidamente engolida pelas águas. Ela ainda tentou pegá-la, porém ao fazê-lo quase solta o outro filho. Então juntando toda a coragem e pela sobrevivência dos outros dois filhos ela seguiu em frente, chegando depois de muito sacrifício à Estrada de Belém. Foi uma época terrível para essa família, pois a mãe nunca se perdoou pela morte da filha e, após muitos anos, ela ainda sentia-se culpada. 

Dois meses se passaram depois desta minha conversa. Meus vizinhos tinham se mudado para outro lugar, onde as lembranças fossem amenizadas. Num domingo, estava cuidando do jardim, num raro momento de folga, quando Ana me vendo do seu terraço acenou, chamando-me. Cumprimentei-a e, após falarmos algumas amenidades, entramos no assunto da tragédia que acometera meus agora ex-vizinhos. Ela me inteirou dos fatos recentes. A família, quando estava arrumando as coisas para a mudança, tinha encontrado um diário que a mãe mantinha escondido. Após ler algumas páginas, a filha, em pranto, mostrara-o ao pai. Este, após ler o diário, entrara numa crise de depressão, pois passou a se culpar por não perceber o quanto sua esposa estava doente. No diário ela falava que várias vezes tinha visto Regina e que ela não se cansava de perguntar: - Por que você não me salvou mamãe? - O que eu fiz de errado? - Por quê você não gostava de mim, só dos meus irmãos? Não me contive e comecei a chorar, Ana chorou também e entrou para buscar mais água. Na volta trouxe também uma fotografia. Ao mostrar-me disse que uma pessoa precisava de minha ajuda. A foto era de duas menininhas num balanço. Uma era a filha de Ana quando pequena e a outra....Olhei para Ana sem entender, pois estava vendo minha princesinha do jardim. Ela comovida disse-me:

- Sim, essa é Regina. É ela que precisa de sua ajuda, reze muito por ela, para que sua alma enfim tenha paz.

E aqui acabo meu relato com uma pergunta: Será que mais alguém viu uma menina loirinha a andar no seu jardim? Quem sabe?
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