17 de maio de 2013

A Criatura do Deserto

Por João Felipe Coelho Martins

Toda noite era o mesmo tormento... À noite sempre assustou Arthur, mas não tanto quanto seus sonhos. Não se lembrava de quando e como começou, mas nunca se esqueceu sobre o que via.

Tomou um sonífero para poder dormir, rezando para não sonhar. Mas suas preces não foram ouvidas, e lá estava novamente. Era um mundo estranho, um enorme deserto envolto em trevas, era  gélido e aterrorizador... E o que vivia lá era pior ainda. Havia duas grandes serpentes que entravam e saiam da areia, porém nunca cruzavam um colossal par de estatuas. Eram duas criaturas com mantos de pedra e de rosto coberto, com duas foices cruzadas. Havia um caminho feito do mesmo material que lhe levavam além das estatuas. Ao chegar perto de cruzá-las via um ser feito de fluidos vermelhos, que lhe acompanhava para a outra parte do deserto. A segunda parte, como assim lhe chamava, possuía seres pequenos com chifres que avançavam contra homens de pele pálida sem rosto, e lhe devoravam a carne ate os ossos, serpentes menores cuspiam veneno contra tudo que vissem. Ouvia o som de correntes em movimento e sendo forçadas a se quebrar por uma criatura pálida e sem rosto como as demais, mas esta tinha o corpo, exceto a face, com faixas brancas presas ao corpo, e uma criatura com pés e pernas de lagarto de cor arroxeada, tronco humano pálido, um par de longas garras em mãos e uma mascara de couro negro com dois furos para seus olhos rubros, um par de furos para as narinas, um rasgo costurado que representava sua boca e possuía vários rasgões na região das bochechas e na testa cobertos por sangue coagulado.

Sempre que a criatura notava sua presença vinha em sua direção, aquilo lhe enchia de medo, tinha vontade de correr, mas o que lhe aconteceria se corresse, a criatura era muito rápida e isso não ajudava Arthur em nada. Quando estavam próximos o suficiente, colocava suas longas garras no queixo de Arthur e lhe forçou para cima, aquilo havia lhe causado um pequeno corte. A criatura olhava fixamente para Arthur, parecia devorar sua alma com os olhos rubros e depois dizia em um tom sombrio "-Não... Hoje, não"

A área costurada da mascara se movia quando dizia isto, lhe dando um aspecto ainda mais sombrio. Ela puxou as longas garras pelo queixo de Arthur lhe aprofundando o corte e quando terminava Arthur se dava novamente em seu quarto, coberto de sangue pelo ferimento do queixo.

A madrugada chegou sombria como sempre, Arthur levantou-se com a mão sobre o queixo sangrando. Estancou o sangramento e lhe cobriu com um curativo. Olhou para seu próprio reflexo no espelho, como já fizera milhares de vezes, as profundas olheiras sob os olhos das noites mal dormidas, os cortes sobre o rosto causados pelo ser mascarado e para o mais recente no queixo. Tomou banho para tirar o sangue do corpo e seguiu para o trabalho.

O dia estava entediante, sentia sono, quando percebeu estava novamente naquele deserto. Cansado de tudo, seguiu o caminho para o par de estatuas, mas ao cruza-los havia algo de diferente. O ser mascarado estava em pé, com as longas e afiadas garras em movimento e estava sozinho. Não via as serpentes, pequenos seres com chifres, homens sem rosto ou o homem enfaixado. O ser mascarado lhe olhava com seus olhos rubros, ergueu uma das garras e apontou na direção de Arthur e disse "Sim... Esta na hora, a hora de ir..."

A criatura avançou contra ele, Arthur acordou repentinamente neste momento, pegou suas coisas e correu para fora, ouvia a criatura dizendo "Esta na hora". Quando chegou em casa olhou para o espelho, abaixou a cabeça para lavar o rosto, quando voltou a ergue-la viu a mascara de couro negro com a boca costurada e diversos rasgões manchados com sangue coagulado. Ouviu a criatura sussurrar "Hora de ir" e quando ela terminou de dizer aquilo, Arthur sentiu as frias garras da criatura sob seu pescoço. Não sabia o que fazer, sentia mais medo do que já sentira alguma vez em toda a sua vida, o corpo estava paralisado, ouviu a criatura sussurrar-lhe novamente "Sua hora chegou" e sentiu as longas garras da criatura rasgando-lhe a garganta....

FIM!

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