16 de maio de 2013

A Carta das Almas

Por Gerson dos Santos

A Quaresma é uma época de meditação e oração, cuja introspecção levou o caboclo de nossa região a reinterpretar seus simbolismos, criando uma aura mística e assustadora. Este período é preocupante, o Tinhoso está a solta tentando os homens, portanto, deve-se tomar muito cuidado.

E foi justamente numa quarta-feira de quaresma após os Cânticos de Alerta num bairro próximo, que Chico Berto, ouviu dos mais velhos a famosa história das cartas das almas. Era corriqueiro ouvir sobre pessoas que pactuavam com o diabo em troca de riqueza e juventude, porém, um único dia do ano, na Sexta-feira Maior, as Almas consentiam tais privilégios à três pessoas de coragem. Todavia, essas três pessoas deveriam buscar as tais cartas no cemitério e em seguida enfrentar as diabruras das trevas, se persistentes e ilesos receberiam as dádivas pretendidas. Chico Berto, ficou inquieto com a história, dormiu mal a noite e noutro dia arrumou dois bravos companheiros, Mané Curió e Tiburtino.

As 23:30h da quinta-feira santa reuniram-se em frente ao cemitério. Muita coragem e um bom litro de pinga nas mãos. Rezaram, beberam, beberam, rezaram e beberam de novo. Quando o sino deu a primeira badalada, estavam os três em frente ao portão, receosos, bêbados e mudos de medo. Em seguida, o portão abriu e um garboso jovem de preto convidou-os a entrar. A coragem dos três quase foi embora, de pernas bambas e de braços dados entraram e vislumbraram todos os túmulos enfeitados, iluminados e o moço de preto conduziu-os até o acendedor de velas. Quando chegaram viram uma criança, como um dos vários anjinhos de pedra que enfeitam os túmulos, era realmente um anjo, que graciosamente entregou um envelope branco a cada um, pegaram e já foram saindo, achando a maior moleza. Mas, foram informados que deveriam comparecer até os fundos da igreja para selar os papéis.

Hummmm! Isso não cheirava bem, caminharam desconfiados e deram de cara com uma criatura, meio homem, meio bode preto, bufando, rosnando, soltando fogo pelas ventas. Quase desmaiaram, Mané Curió, depois de se urinar todo desembestou na carreira, saltando os túmulos como um atleta. Tiburtino foi mais audaz, topou se aproximar, mas quando sentiu uma gelada mão cadavérica tocar-lhe o pescoço gritou para todos os santos e saiu correndo, com uma verdadeira legião de capetinhas atrás de si.

Ficou Chico Berto, que sorveu a última dose de pinga, limpou a boca na manga da camisa, pegou a carta colocou em cima da mesa e pediu para que fosse selada. O diabo, pegou a carta, abriu, escreveu algo e mandou um imenso selo colado a cuspe no papel, entregou ao Chico, que saiu de costas, a passos mansos. Atrás de si ouvia-se um tropel, gritos, palavrões, choros e estouros. Assim foi ele saindo, passo a passo, lívido e suado. Quando enfim saiu, pode respirar melhor, trêmulo e cansado, parou junto a uma pedra, tirou o envelope do bolso e viu um papel branco reluzente e escrito em tinta luminosa como um vaga-lume, a seguinte frase:

-Se quiser ver seus amigos de volta, devolva esta carta.

Chico ficou louco, esbravejou, blasfemou, xingou, pensou em deixar aqueles dois covardes. Mas, eram seus amigos e fora ele quem os metera nessa encrenca, pensou alguns minutos nas riquezas, juventude, enfim....

Desconsolado, deu meia volta e correu para o portão, lá encontrou os dois do lado de dentro e um sarcástico rapaz de preto, pediu a carta de volta. Resistiu, mas viu um abismo se abrindo e o bode vindo, entregou rápido o papel, o portão se abriu e saíram correndo. Pelo caminho, Chico Berto veio batendo nos amigos e insultando-os com todos os palavrões possíveis, até que chamou atenção o suficiente para que a policia chegasse e prendessem os três por embriagues e baderna. Ao relatar o fato a policia, tomou uma surra e uma semana de cadeia por desacato.

Na venda do nhô Pedro, Chico e os amigos contavam o caso com veemência, todos achavam que era mais uma bebedeira de três aventureiros.

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