25 de abril de 2013

Conto Assombrado: Restos de Um Velório


Por Allegra Lillith

Eu morri...
Eu me suicidei...
Tinha 20 anos quando morri...

Não posso precisar dias nem lugares onde minha vida iniciou e acabou-se, foi muito pouco o que consegui guardar na memória. Durante longos anos tentei me agarrar em algo, para que eu não me perdesse no mar do esquecimento, e terminasse por virar um espectro sem alma. Minha alma está chorando em meu cativeiro, onde passei anos sozinha. E o tempo parece que não passa.

Minha família me machucava muito, porque diziam que não arrumava a casa direito. Ou sei lá por que.

Eu adorava escrever, mas precisava fazê-lo escondido, pois quando minha família me pegava escrevendo ou lendo algum livro me batiam mais ainda. Odiavam-me por isso, porque estava sempre escrevendo ou com um livro nas mãos.

Meus tios e meus primos me odiavam e eu nem sei por quê. Eu tentava agrada-los, fazia tudo como mandavam, mas tudo era inútil. Tudo era motivo para apanhar e ficar de castigo. Nunca pude entender porque me odiavam tanto.

Nunca tinha permissão para sair sozinha à rua a não ser para trabalhar quando meus tios mandavam. Eu sempre desejei tanto ir à escola com meus primos, eu gosto tanto de estudar! Mas nunca me permitiram.

Eu escrevia escondido, sem que ninguém soubesse. Na esperança de talvez algum dia as pessoas gostarem do meu trabalho, e quem sabe, talvez pudesse até ser famosa...        

Eu estou vagando, sem luz e sem razão por anos a fio. Não sei o que aconteceu comigo, e também não posso compreender. Meu corpo parece vazio, oco por dentro. Sinto-me leve, mas ao mesmo tempo o passado pesa como uma pedra sobre meus ombros. Minhas últimas lembranças são olhos mortos, pele vazia, pó...Vento levando cinzas, restos de um velório. Rosas murchas e cheiro de vela queimada. Cinzas de um passado. Um corpo que está vazio por dentro,uma mente a guardar lembranças mortas.

Vazio. Escuridão. A minha esperança está morta, meus sonhos estão mortos. Eles morreram e estão a apodrecer. Não adianta chorar, pois eles não voltarão.

Eu estava vagando por uma floresta, o desespero já tomava conta do meu ser. Doente, fui recolhida a um hospício por minha família, um lugar horrível, um pesadelo. Não queria mais voltar para aquele lugar. Não consegui ficar presa em um hospital, porque eu não era louca! E também não queria voltar para a casa de meus tios, eu estava com medo deles, eles queriam me ver sofrendo, me queriam mal.

- Mamãe! Alberto, amado! Onde vocês estão, porque não vêm me buscar? Não estão me ouvindo chamar? Vocês precisam estar aqui, precisam estar aqui em algum lugar.

Chovia, ventava muito forte, estava muito frio. Andei mata adentro por horas, minutos, dias, não faço a menor idéia de tempo. Até que cheguei à beira de um penhasco. Uma sensação de liberdade invadiu o meu espírito.

Olhei para a imensidão lá embaixo e me senti tão livre, era como se tivesse asas e pudesse voar!

Passado o primeiro momento, pensei que se eu fosse lá para baixo morreria. E morrendo, não precisaria mais voltar para o hospício onde me deixaram, e também não sofreria mais na casa de minha família!

Nesta hora lembrei-me do que minha avó me dissera tempos atrás, no dia em que minha mãe saiu de casa e não voltou mais:

- Filhinha, sua mãe morreu, não está mais entre nós. Papai do céu a chamou para junto dele. Ela agora é mais um anjinho no céu. Mas não fique triste, pois um dia todos nós nos reencontraremos no céu.

Ao lembrar desta última frase, pensei que não encontraria minha mãe naquela floresta por que não era ali que ela estava, ela estava no céu. E se eu caísse no abismo também morreria. Eu preciso morrer para encontrá-la. Diante deste pensamento senti um grande alívio, meu coração ficou leve de tanta alegria.

Fui me aproximando da beira do abismo. É lá embaixo que está minha salvação. Como não tinha pensado nisto antes? Lá está o fim de todos os meus problemas.

Minha salvação.

Meus pés foram escorregando na terra molhada, quando tive a impressão de ouvir a voz de minha mãe vindo lá de baixo, ecoando por entre as árvores, por entre o barulho da chuva:

"Copertina entre, está chovendo! Venha, mamãe está mandando você pegar seus brinquedos e vir para dentro!"

E continuei ouvindo a voz dela, enquanto deslizava ladeira abaixo...

Vi-me caindo, caindo por entre as árvores, pedras. Senti uma dor tão horrível que acho não ser possível nem descrever com simples palavras .Enquanto caía sentia meu corpo dilacerando-se pouco a pouco. Sentia-me batendo e minha carne sendo arrancada do corpo.

Não sei quanto tempo durou este suplício, mas sei que não foi breve. Cheguei a um ponto de achar que nunca mais ia parar de cair e que jamais chegaria ao chão. Acho que caí por horas, dias, ou também poderia ter sido por apenas alguns minutos. Sei lá.

Quando acordei, estava deitada, e quando percebi que não estava mais caindo, senti-me profundamente aliviada. Meu suplício terminara. Neste momento senti meus braços e mãos e estranhei um pouco, pois tinha certeza de ter visto pelo menos meu braço esquerdo ser arrancado na queda, ficando preso no galho de uma árvore.

Mas tentei respirar e não consegui. Estava abafado e escuro. Acabei crendo que estava em uma cama em um quarto escuro. Este foi meu primeiro pensamento. Foi quando tentei levantar da suposta cama.

Ao tentar me levantar, bati em cheio com a testa em algo a minha frente. Doeu muito. Tentei mexer os braços, não consegui. Foi aí que percebi que estava presa em algum lugar muito estreito.

Neste momento comecei a ouvir a minha volta muitas vozes cantando hinos da igreja.

- Socorro! Onde estou, porque no escuro?Por que tantas vozes a entoar hinos religiosos? Por que o escuro?

Meu corpo doía, eu chorei e ninguém ouviu, ou se ouviu não fez nada.Por que não paravam de falar? Escutei rezas, tive a impressão de estar em meio a uma missa cristã.

- Por que não param apenas um minuto para vir me ajudar?

Eu estava sufocando ali dentro, estava dentro de algo. Eu gritei, gritei, me debati, implorava para sair! Em resposta às minhas súplicas, só ouvia as vozes rezando.

- Por que não me ouvem? Será que me trancaram aqui dentro, e agora estão me esperando morrer? Ninguém tem pena do meu sofrimento?

Socorro! Quando virão me ajudar?

Durante muitíssimo tempo eu não enxerguei nada além da escuridão,mas sentia-me sendo transportada de um lado para outro. E como eu gritei! Não sei como ninguém me ouviu.

Ou pelo menos assim fingiam.

Até que em um dado momento, escutei uma voz que dizia:

"E que Deus tenha pena de sua alma..."

Ou alguma coisa assim.

Senti-me descendo, indo para baixo. Senti que jogavam alguma coisa em cima de mim, e um cheiro de terra molhada começava a invadir o local onde estava, sufocando-me ainda mais.

Foi quando uma idéia terrível passou por minha mente.

- Eu estou sendo enterrada! Enterrada viva! Socorro! Eu não estou morta! Socorro! Alguém, alguém me tira daqui!

Gritei, chorei, me debati contra a tampa do caixão. Sim, por que ali eu já havia entendido que estava dentro de um caixão.

- Seus imbecis! Idiotas! Será que não estão me ouvindo, será que não conseguem ver que não estou morta! Vocês vão me enterrar viva! Socorro! Socorro!

Fui ficando cada vez mais sufocada. Chegou uma hora em que não havia mais ar ali dentro. Meu coração estava aos pulos, parecia que ia sair de minha boca. Eu tentava respirar e o ar não vinha, uma agonia indescritível.

Depois a vozes calaram-se. Então percebi que estava sozinha. Fiquei ainda mais desesperada. Ser abandonada sozinha, em uma tumba! Isto é muita maldade, só pode ser coisa de minha família. Primeiro internam-me em um hospital de loucos, com certeza na esperança que eu morresse, e como não morri, resolvem me enterrar viva.

Por que tanta covardia? Se eles ansiavam tanto assim por se livrar de mim, por que não me mataram logo de uma vez?

Mas me enterrar viva?

Chorei, chorei como nunca havia chorado na vida. Tudo o que eu passei na casa de meus tios era uma dádiva, se comparado ao que sofria ali.

E o meu pesadelo não estava nem começando.

O tempo passava e eu só chorava, pois de que mais adiantaria gritar por socorro? Ninguém iria vir me salvar. A esta hora minha família já devia estar muito feliz por terem finalmente conseguido se livrar de mim.

Quando isto tudo irá acabar?

A única coisa que me consolava, se é que existe algum consolo em uma situação desta, era pensar que eu não sobreviveria muito tempo ali dentro. Sabia que morreria de fome e de sede se não conseguisse sair a tempo. E eu esperava que minha morte não demorasse muito. Acho que nunca havia desejado tanto que a Morte viesse aliviar meus sofrimentos como naquela hora.

Desejar a Morte, com todas as forças da vida. Deseja-la ardentemente, com uma paixão incontrolável. A mais arrebatadora das paixões.

Muito maior que o amor de um noivo à espera sua amada ao altar, com todo o amor de seu coração apaixonado, será o amor de um ser que foi enterrado vivo, e espera que a sua noiva Morte venha libertá-lo de sua desdita.

Amar a Morte, amá-la incontrolavelmente, com paixão e loucura, desespero e sofreguidão. Deseja-la até a completa insanidade.

E pior ainda, depender totalmente dela para sair do pior pesadelo a que um ser humano pode ser submetido.

Com este pensamento pensei o quanto era triste não ter meu caderno de poesias aqui comigo. Triste mesmo. Dava uma poesia linda.

Muita coisa pensei no tempo em que estive ali dentro. Uma hora pensei que talvez a situação pudesse nem ser tão ruim assim. Ali neste cemitério, sim, pois deveria ser um cemitério, se algum coveiro ou algum visitante me ouvisse, poderia escapar. E pensando minha família que a estas horas eu já estaria morta, teriam esquecido de mim para sempre.

E não me importava se eu não pudesse voltar para casa, porque depois de uma experiência destas, até o pensamento de se morar nas ruas torna-se agradável. Então era melhor começar a gritar o quanto era tempo, antes que eu acabasse morrendo mesmo.

Foi o que eu fiz. Mas para a minha decepção, ninguém veio acudir em meu socorro.

- Não é possível que não tenha um coveiro dentro de um cemitério!

Foi aí que um pensamento macabro acudiu por minha cabeça.

E se não fosse um cemitério? E se meus tios tivessem me enterrado em um local qualquer, como um terreno baldio. Pior ainda, no meio do mato, em um lugar deserto?

Não é possível.

Mas pensando bem, o que não se pode esperar de pessoas que são capazes de enterrar um ser humano vivo?

- Mamãe, mamãe, me ajude. Mamãe!

Já tomada pelo desespero, comecei a gritar por minha mãe. Ora, por que fiz isso? Se vivos não me ouvem, o que dirá minha mãezinha, já morta há anos?

Mas não sei por que, mas só a lembrança dela, só pronunciar seu nome já tinha o poder de me acalmar um pouco.

E agora convencida de não haver mais nada a fazer, chorei. Só o que há a fazer agora é esperar a Morte chegar.

Uma hora comecei a sentir um cheiro muito estranho, enjoado. E o cheiro só foi aumentando, aumentando, até que foi chegando ao limite do insuportável. Eu tentava raciocinar e não conseguia, de onde poderá estar vindo isto? O cheiro aumentou a tal ponto que me sufocou, era um fedor tóxico, que fazia mal, e parecia estar vindo de algum lugar debaixo da terra. De algum lugar ao meu lado.

- Socorro!

Eu agora nem gritava mais, pois não conseguia. Sentia-me tão fraca que mal conseguia falar. Tentei levar a minha mão à testa, achava que tinha febre.

Mas ao tentar mexer minhas mãos, senti algo gelatinoso entre elas, uma gosma estranha.

- Nossa, de onde isto saiu? O que é isto sobre meu corpo? Como isto veio parar em cima de mim embaixo da terra? O que está acontecendo? 

Passei as mãos em meu peito e, não dá para explicar. Minha carne estava mole, afundando.

Apertei os dedos contra meu peito, e senti-os afundando em minha carne, em uma dor lancinante. Acho que se os tivesse enterrado mais, sairiam do outro lado de meu corpo.

- Mamãe, eu estou derretendo. Mamãe, o que está acontecendo comigo? Não entendo!

O cheiro me embrulhava o estomago, tinha impressão de sentir meu estômago mexendo sozinho, de tanto que estava enjoada.

- Mamãe, socorra-me...

Foi quando senti algo ao meu lado, uma coisa andando em meu braço esquerdo. Era áspero como se tivesse espinhos, dentes, ou sei lá o que. Andava sobre mim. Veio subindo pelo braço em direção ao meu rosto. Tentei empurra-lo com a mão, e senti que ele foi jogado para longe, para novamente senti-lo vindo subindo por meu corpo em direção ao meu rosto. Parecia uma coisa furiosa, que se arrastava sobre mim.

Tentava lutar com aquilo, fazer com que saísse dali. Quando comecei a sentir algo mordendo meus pés. E senti que subia outra coisa em cima de mim.

Comecei a gritar, a tentar agitar o corpo na esperança de espantá-los. Eu sentia muito sono. E toda a agitação que fiz me deu mais sono ainda. Acho que cochilei, não sei por quanto tempo. Só sei que quando acordei alguma coisa havia devorado meu rosto, pois sentia uma ardência na carne, nos olhos, como se tivessem sido arrancados. E aquele bicho passeava por meu rosto.

- Ajude-me, por favor, me ajude. Alguém! Eu estou derretendo, eles estão me comendo viva!

Sentia muitas coisas passeando sobre mim. Pareciam minhocas.

Eu disse pareciam, por que não podia ver. Embora eu saiba que deveriam ser coisas pavorosas.

- Socorro!

- Mas deve ser uma gracinha, heim!?

- Como, tem alguém ai? Ajude-me por favor!

- Claro!

E senti uma mão humana segurando a minha e me puxando para cima.

Como uma mão entrou ali dentro sem abrir o túmulo e tirar a terra de cima de mim, eu não sei.

Senti um alívio em respirar o ar puro. A luz cegou-me, depois de tanto tempo no escuro. Tentei tirar os vermes de meu cabelo, de minha boca, eles me mordiam, me picavam.

Olhei para cima e vi o céu azul. Que alívio, que bom que alguém finalmente ouviu minhas súplicas.

- Está melhor, meu anjo?

Falou uma voz de homem atrás de mim. Era o meu salvador. Ao virar-me  para ele, vi a coisa mais horrorosa que jamais tinha visto durante toda a minha vida.


Sentado a uma lápide, de pernas cruzadas, estava um esqueleto, não um esqueleto, digamos, uma caveira. Mas um corpo em decomposição, com a carne derretendo e caindo do corpo. Usava algo como um terno preto, mas em farrapos. Dava para ver que seus sapatos, apesar de também em farrapos, eram finos, e ele usava correntes de ouro no pescoço e um relógio de ouro reluzente ao pulso.

Dei um grito e caí no chão. A cabeça rodando. Ele veio até mim na intenção de me socorrer, me ajudando a levantar do chão.

Calma, você está fraca. É melhor sentar-se. 

O quê, o que aconteceu? Que lugar é este? 

A pergunta era estúpida. Mas o que mais eu poderia pensar em dizer numa hora destas?

O esqueleto tinha uma expressão de satisfeito, embora seu rosto descarnado não possuísse nenhuma expressão. Quase pensei que ele estava feliz por estar me vendo sofrer daquele jeito.

Não se preocupe, estamos em casa – disse acendendo um cigarro. Eu me chamo Leopoldo, e meu trabalho é receber os que aqui chegam.

Como assim, os que aqui chegam? Então é normal as pessoas serem enterradas vivas aqui? Por favor, diga-me o que sabe.

Não sei de nada. Espere aí. Vou trazer-lhe um pouco de água. 

Água. Que alívio senti ao ouvir aquela palavra. Acho que no desespero em que me encontrava nem me lembrei de sentir sede. Quanto tempo devo ter ficado ali dentro, um dia, dois? Não, é tempo demais, dois dias e eu não teria resistido.

O esqueleto voltou pouco tempo depois com uma cumbuca d’água. Quando estendi minha mão para pega-la, minha mão escorregou, estava derretendo.

Permita-me ajuda-la. 

E colocou a cumbuca em minha boca. A água me fez bem, me senti um pouco melhor.

- Eu estou derretendo, moço. - Disse chorando. Será que foi por causa do tempo em que fiquei embaixo da terra? Tinha uns bichos que passavam por mim, me machucaram muito.Não sei ainda como sobrevivi a isto tudo.

- E bem provável que seja pelo tempo em que você ficou embaixo da terra. Mas é assim mesmo, a gente acostuma.

- E o que eu farei agora? 

No fundo nem eu mesma estava acreditando que estava conversando com um esqueleto. Aquilo era absurdo demais para ser verdade.

- Olha só, aqui não é tão ruim assim. Você vai gostar, eu prometo.

- Como assim? Aqui? Vou-me embora agora mesmo. Depois do que me fizeram não desejo passar nem perto de meus parentes, mas moro na rua, não me importo.

- A não, minha cara. Quanto a isso não. Uma vez aqui dentro, lá fora nunca mais!

Fiquei pasma. Que conversa mais estranha a daquele sujeito!

- Vou-me embora. 

E fui levantando-me para sair, quando alguma coisa me puxou para baixo. Senti meus joelhos dobrando por uma força irresistível e caí no chão.

- Quero ver o mais longe que você conseguirá ir. 

- Me ajude, Leopoldo. 

- Claro, linda. Estou aqui justamente para ajuda-la. 

E novamente o esqueleto me levantou e me sentou em um túmulo.

- Moço, o que está acontecendo? Eu fui enterrada viva. Acaso minha tia pagou ao senhor para não me deixar sair daqui, caso eu conseguisse me livrar do túmulo?

A esta hora tudo passava pela minha cabeça.

- Não conheço sua tia, embora ela já tenha ouvido falar de minha pessoa e não goste de mim. Mas ela na verdade não tem nada a ver com isto. Você morreu e foi sepultada,como acontece com todo mundo.

Soltei um grito de pavor.

- Não! Eu não morri, moço. 

E pus-me a contar-lhe tudo o que havia acontecido desde a tarde na floresta até ali.

- E acredita mesmo que você me pula de um abismo em um dia de tempestade e sobrevive?

Leopoldo tinha razão apesar de tudo. Mas a questão era que eu não me sentia morta.

- Eu sei, aconteceu comigo também. Fui torturado, surrado e queimado vivo enquanto estava na prisão. E no entanto, cheguei aqui também achando que ainda vivia.

- Há quanto tempo o senhor, digamos, morreu? 

- Não sei, não há como saber. 

Que loucura, este sujeito com certeza está rindo de mim.

- Mas não há porque ficar tão triste. Vive-se muito bem aqui. Pode-se trabalhar, fazer amigos, casar...

- Eu quero voltar para casa! 

- Ai, que saco! Tudo bem, menina. Se é o que você quer, vá. Depois não me diga que não te avisei. Na maioria das vezes as pessoas não nos vêem, e quando um ou outro consegue, fica desesperado, até louco, quando você insiste em aparecer para ele. E você, bonita como está agora, é capaz de mandar uns dez para o hospício se sair lá na rua.

Falou o esqueleto enquanto colhia uma flores em um túmulo próximo. Depois, pegou o buquê e colocou em minhas mãos.

- Rosas murchas para outra rosa murcha. 

- Ai! Era só o que faltava acontecer comigo. Ser cortejada por uma caveira!

E toda vez que tencionava levantar-me, ele impedia-me. O maluco estava mesmo decidido a não me deixar sair dali.

- Mas, moço! – insisti. Eu preciso ir embora, eu preciso procurar ajuda, eu estou derretendo!

- Derretendo? A, não fale assim boneca, quer que eu me apaixone por você mais ainda? Está a machucar meu coração, heim?!

Um esqueleto poeta! Saco! E com uns versos muito ruins ainda por cima.

Será isto uma nova modalidade de hospício? Onde obrigam os pacientes a enlouquecerem?

Comecei a chorar.

- Não chora, querida. Olhe, não há motivo para isso. Eu vou cuidar de você, não a deixarei sozinha durante um só minuto.

Cruz-credo! – Pensei!

- Sabe, quando você foi enterrada, assim que cruzou o portão do cemitério, meus amigos já começaram a comentar. Mas eu falei para eles para ficarem longe, pois você já era minha.

- Amigos? Credo, ainda tem mais?  

- Sabe -  riu baixinho o esqueleto, mexendo na borda da camisa. Vou contar-te uma coisa, podes rir de mim se quiseres. – agora o sujeito parecia encabulado.

- Já gosto de ti faz muito tempo. Gostava de ouvir teus lamentos em sua casa, era música para meu ouvido. Você sempre foi tão prá baixo, tão triste, tão insatisfeita com a vida,assim como eu. Apaixonei-me por ti logo que te vi. Meus amigos sugeriram-me traze-la para cá, mas eu não quis, preferi esperar, pois sabia que mais cedo ou mais tarde você viria.

- Como você sabia que eu viria, o que está sabendo que não quer me contar? Acaso fui assassinada?

- Ora minha boa Copertina,claro que foi.O que você acha? 

- Como sabe o meu nome? 

- Sei de muita coisa sobre ti. 

- Quem me matou, então? 

- Muita gente. Acaso não sabe que a pior coisa deste mundo é a covardia? Você sabe que nunca foi querida em seu meio, e sendo assim, as pessoas que conviviam contigo, se não te queriam, por que simplesmente não se afastaram? Por que você foi tão perseguida? 

- Porque ficar longe de ti ainda não era suficiente, eles queriam que você sumisse de vez, assim ninguém precisava correr o risco de você acabar voltando.

- A sua família, sem saber o que fazer para se ver livre de ti, te fizeram sofrer, assim você morreria logo, deixando-os livres. Da mesma forma que seu namorado, você amava-o, amava-o demais e não estava disposta a deixá-lo, e ele sentia desprezo por ti. Ele pertence a uma das famílias mais tradicionais e ricas desta cidade, e você não tem nada. Logo, te fez sofrer bastante para que você morresse bem mais rápido e assim sumisse de sua vida.

- Assim também aconteceu com suas colegas de infância, que após sua avó morrer, passaram a te humilhar. Quem é que vai querer ser amiga de uma empregadinha sem eira nem beira?Que não tem nem o que vestir?Humilharam-na bastante, na esperança que você morresse bem rápido também.

- Enfim, todo mundo desejou tanto a tua morte, que você terminou por morrer. Ele te empurraram para aquele abismo, onde você, obediente como sempre foi, caiu.

Eu estava boquiaberta com as palavras do esqueleto. E me senti mais triste ainda. Sentei-me em um túmulo e pus-me a chorar, o que mais fazer?

- O Mal prepara o abismo, porém a gente cai se quiser. E você, meu bem, caiu. Assim como também poderia ter resistido e se salvado, tudo foi somente uma escolha sua. Se você tivesse dito não à maldade desta gente infeliz, agora estaria viva.

- Vamos! – o esqueleto agora segurava meu braço 

- Para onde? 

- Ora, conhecer sua nova casa. Há muito para te mostrar. E além disto, quero sacanear meus amigos. Todos queriam você, precisei brigar por ti. Vão ficar com muita raiva de mim por nos ver andando de mãos dadas.

- Como, você quer me apresentar para teus amigos? Meu namorado nunca fez isto comigo, pelo contrário, nunca quis aparecer comigo em público. Aliás, todo mundo sempre teve vergonha de mim.

- O que é isso! Vergonha de ti porque? Você vai gostar de conhecer o pessoal, são gente fina mesmo.Aqui não tem traição.

- Vamos dizer que nós já ficamos noivos, só para ver eles com raiva.  

- Vamos, sim. 

Ninguém nunca tinha me tratado com tanto carinho.

Comecei a pensar que aquele lugar não era tão ruim assim. Abracei Leopoldo e fomos andando entre os túmulos...

FIM
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