11 de abril de 2013

Bailarina

Por Allegra Lillith

O meu maior sonho era ser uma bailarina.

Mas eu poderia de ter sido também uma atriz de cinema. Destas que aparecem nas revistas, que podem usar roupas bonitas, podem sair na rua usando maquiagem, batom e perfume.

Meus pais não gostam que eu leia revistas, exceto as infantis. Eles acham que tenho cinco anos, não enxergam que eu já cresci. Não posso passar um batom nos lábios, que já é motivo de querer me colocar de castigo.              

Que mal pode haver em querer ficar bonita?

Até minha professora estes dias têm reclamado que o meu perfume é muito forte. E o pior é que ela falou isto na frente da minha turma, na frente de todo mundo.

Alias, tudo nesta semana tem dado errado para mim.

Meu cachorrinho ficou doente, e quer ficar no meu colo o tempo todo. Até comida eu preciso dar na boca dele. Se o coloco no chão um minuto ele faz um alvoroço. Acho que ele pensa que se sair de meu colo de repente posso sumir. Ele nunca foi assim comigo, ele era tão brincalhão, adorava correr.Ele ficava puxando a minha saia e me levando para brincar no quintal, às vezes brincávamos a tarde toda, até anoitecer.

Não sei o que ele tem agora. Chora o tempo todo, fica agarrado comigo. Está com os olhinhos vermelhos e molhados, numa agonia que nunca vi. Coisas de cachorro.

Esta semana que passou foi muito ruim para mim. Preciso sair e me distrair para esquecer.

Voltei da escola, troquei de roupa e me preparei para sair novamente. Ao passar pela cozinha ouvi um último aviso de minha mãe:

- Volte cedo!

E continuou tomando sua xícara de café, sem nem olhar mais para mim.

Mamãe está a cada dia mais aborrecida comigo. A última discussão que nós tivemos foi quando ela encontrou uma caixinha de pó de arroz no meu quarto. A casa veio abaixo.

Eu disse que não havia comprado, que tinha sido um presente do meu namorado Custodio. E era verdade, eu não estava mentindo.Ela ficou muito brava porque já tinha me proibido de usar estas coisas, e pensou que eu estava desobedecendo.

Mas minha mãe não é muito compreensiva. Como ela queria que eu recusasse um presente?

Depois deste episódio ela está cada vez mais chateada comigo. Sobretudo depois que eu levei o pó de arroz escondido para o colégio para usar lá, assim ela não precisava ficar sabendo.

Qual não foi a minha surpresa, quando cheguei na sala maquiada, foi a vez de minha professora fazer o escândalo. Ela chamou minha mãe para conversa e não sei o que ela falou de mim, porque nunca tinha visto mamãe tão nervosa.

O que uma lata de pó de arroz pode fazer na vida da gente!

Mas eu sou persistente, quem manda em mim sou eu, e eu vou continuar usando tudo que eu gosto. Eu tenho esta direito!

Cheguei na escola à tarde e fui jogar bola com as minhas amigas. Já estava sentindo saudade delas, pois as férias já estão chegando e a maioria vai viajar, só nos veremos novamente ano que vem.Minha família não vai viajar, vou passar as férias sozinha aqui no Rio de Janeiro.

Assim que cheguei nos abraçamos. Já estava com muitas saudades, sentia um aperto no peito! Todas nós estamos com saudades.Que coisa mais estranha, nunca tinha sentido isto.

Foi o abraço mais longo das nossas vidas. Como foi bom sentir seu calor. Olhei para cada um de seus rostos, como para não esquecer.

- Ora, que besteira! Não vamos chorar. São só alguns meses, ano que vem estaremos juntas novamente. Agora vamos brincar!

Estávamos jogando bola no pátio. Mais alguns amigos vieram se juntar a nós. O sol estava muito quente, de arder. Eu normalmente não gosto de sol, e jamais ficaria tanto tempo debaixo dele. Mas naquele dia não estava me importando com nada. Nunca o calor do sol e fez tão bem, nunca quis tanto viver! E também nunca me senti tão amada por meus amigos como naquela tarde. Poderia ter ficado ali brincando pela eternidade.

Não sei dizer quanto tempo fiquei na escola. Acho que já era bem tarde quando ouvi alguém chamar meu nome no portão. Quando me virei para olhar, era Custodio. Sim, agora só estava faltando ele para minha felicidade estar completa.

Fui caminhando em direção ao portão de entrada da escola. Custodio estava muito pálido metido dentro de um terno preto, num dia quente daqueles. E tinha um semblante tão sombrio! Eu me perguntei se havia algo errado com ele.

Eu fui atendê-lo ao portão, o abracei e beijei, assim na frente de todo mundo. O que importa? Embora não tinha ninguém por perto e acho que ninguém nos viu.

Mas ele não estava nem um pouco feliz, pelo contrário, estava muito nervoso, como eu nunca havia visto.Ele falou que precisava conversar comigo. Demos a volta e fomos caminhando para os fundos da escola.
Ele levou-me até o vestiário feminino, disse que ali poderíamos conversar mais à vontade. Pegou minha mão e foi me levando até os fundos, onde ficam os armários.

Mal chegando, já senti suas mãos em meu pescoço. Não tive tempo nem de gritar por socorro. Sequer senti que estava morrendo.

Depois veio uma pancada, e mais outra, e ainda mais outra.

Olhei para meus pés, para meus braços, e onde existia carne agora era só uma cachoeira de sangue escorrendo.

Tentei gritar inúmeras vezes, mais não sei se por causa do susto ou por causa da dor, mas a minha voz não saiu. Lá fora só ouvia-se o barulho da banda do colégio. Por esta hora meus amigos já estariam me esperando para ensaiar. Queria gritar, queria gritar por socorro.

Depois senti o golpe final. Uma facada veio fria em meu peito, e ainda outra em minhas costas. E ele ainda teve o cuidado de deformar o meu rosto com o seu punhal. Acho que o meu corpo já deveria estar morto mesmo enquanto meu coração ainda batia.

Por quê?  Por que eu morri?

Por quê?

Não tive sequer o direito de saber porque estava morrendo.

Olhei para a aliança de ouro em minha mão, que eu levava com tanto carinho. Por que meu amado se transformou em meu assassino?

Comecei a sentir muito sono. Meus olhos foram se fechando contra minha vontade, a até que não pude mais lutar.

“- É um sonho. Lógico. Vou fechar os olhos e dormir de novo. Quando acordar estarei em casa com minha mamãe. E ela me dirá sorrindo que tudo não passou de um pesadelo”

Horas depois fui encontrada no vestiário da escola. Ou melhor, meu corpo. Meu corpo ensangüentado e despedaçado. Foi notícia em todos os jornais da época.

Desconfiaram de todo mundo. Do humilde faxineiro da escola, passando por meus amigos e até mesmo de meu próprio pai. E meu pai por sua vez acusou até os seus empregados de nossa casa, de sua firma, todo mundo foi interrogado pela polícia. Todo mundo era suspeito.

Menos o culpado.Este escapou ileso.

Misteriosamente ninguém desconfiou dele. Principalmente porque alguns dias depois de minha morte, após sair de minha missa de sétimo dia, o covarde voltou para casa e tentou se suicidar pulando pela janela de seu prédio.

Não morreu, pois foi socorrido a tempo e ainda ficou como o coitadinho da história. O que não agüentou ver a noiva morta e preferiu a morte também, para juntar-se a ela na eternidade.
Romântico, não?

E nesta época ele participava de um conjunto que tocava uns sambas muito ruins, se não me engano ele chegou a fazer uma música sobre mim, uma besteira romântica tipo Romeu e Julieta, nem a morte vai nos separar (acho que este era o nome da música).Mais eu não dei importância. Ele se apresentou pela cidade com esta música durante muito tempo, e fez bastante sucesso.

No final acusaram o faxineiro da escola.

Tudo porque tempos antes ele havia me dado uma rosa na saída de escola.Depois, no meu aniversário, mesmo com o seu modesto salário ele havia me dado de presente um lápis de olho.Acho que ele gostava e mim.

Todo mundo ficou sabendo, porque eu sempre tive fama de namoradeira. Era só um garoto se aproximar de mim para todo mundo ficar logo sabendo. Talvez se eu tivesse namorado ele poderia estar viva até hoje.

Foi acusado de me matar, e como era uma pessoa humilde não teve nem como se defender. Perdeu o emprego, foi humilhado e amargou alguns anos na cadeia.

Meu enterro foi em uma manhã de sol, como nas que eu costumava passear com minha família, meus pais e meu irmãozinho. E com ele, o amaldiçoado que me matou.

Fui enterrada no cemitério da cidade.

Eu desejei muito a coroa da Rainha do Baile, desejei mesmo. E ganhei foi uma coroa de flores, destas que se dão aos mortos.

Aliás, muitas delas.

Todos os meus amigos estavam presentes ao meu enterro, minha família,meus professores, meus vizinhos, até os sócios do meu pai. Eu queria que eles tivessem estado presentes à minha coroação na escola, sonhei com isso ano inteiro, tinha certeza que iria ganhar.

E deu tudo errado.

No lugar de uma coroa de pedras brilhantes, ganhei foram várias coroas de morta.

Coroaram-me no cemitério.

Dá para acreditar? Eu estou assistindo ao meu próprio enterro! Como eu posso estar morta, se estou aqui assistindo a tudo de olhos abertos?

Estão sepultando o meu corpo, mas que coisa! Tenho certeza absoluta que não estou lá dentro. Porém é lá dentro que as pessoas me vêem, e não aqui onde estou.

Ninguém me escuta. Acho que fiquei invisível.

Eu estou agora em meu quarto, como costumava estar em vida. Meus pais já estão dormindo.Tudo está como de costume, exceto pelo fato deles não saberem que hoje estou aqui.Para eles permaneço onde me deixaram, lá no cemitério.

Ninguém pode imaginar como é, eu estou aqui sofrendo, e minha família sequer me ouve. Se ao menos um deles pudesse me ver...

Nunca pensei que uma coisa destas pudesse acontecer comigo. Em um momento estava na escola brincando, e agora estou aqui. Morta.

O que farei agora?

Nem adianta tentar explicar o que acontece comigo, pois eu mesma não entendo. A morte não é como a professora de religião falava, aqui não há estrelas, não há anjos, nem santo algum.

Pois não encontrei nem no Céu e nem Inferno, simplesmente encontrei do outro lado o que eu já tinha em vida, ao retornar para minha casa e para o meu quarto, como sempre fiz ao voltar da escola.

Quando fecho meus olhos, só me vêm uma imagem na cabeça. A imagem de um túmulo de mármore negro, onde está escrito com letras douradas:

Cinthia R.
1910 ?1923
Descance em Paz...

FIM

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