18 de fevereiro de 2013

Minha História Assombrada: RD 350 - Moto Assassina


Quem conhece motocicleta, gosta do equipamento, já ouviu falar certamente da RD 350, conhecida mundialmente como Moto Assassina. Uma pesquisa rápida no Google irá mostrar a razão. Extremamente potente, barulhenta e imponente, era o que havia de mais apaixonante entre os jovens dos anos 70 ligadíssimos em motocicletas.

A história que vou narrar foi testemunhada por mim quando, menino, residia em Brasília e convivia com a paixão que a garotada da minha geração tinha por velocidade. Daí talvez a explicação para que a capital do país revelasse tantos bons pilotos e motociclistas para o Brasil e o mundo: Piquet, Moreno, Tucano, enfim, uma enormidade de gente.

Minha história se deu na cidade Satélite do Guará 1 em 1975/76. O personagem é um sujeito a quem jamais conheci ou tive como amigo. Era sim, amigo da namorada dele. Lupe, abreviatura de Guadalupe. Ela era ruiva, linda, interessante. O namorado, o personagem, Eurípedes. Os nomes são absolutamente reais.

Eurípedes era um exímio motociclista. Tinha uma RD 350 que era conhecida na capital. Participava de pegas, era um cara arrojado. Um modelo a ser seguido por quem era apaixonado por motos e projetava a felicidade naquele estilo Bad Boy muito comum em Brasília. E, além disso, era um cara que vivia com mulheres à sua volta. Líder de movimentos ligados à velocidade, improvisava corridas no Eixão, Setor de Indústria, enfim, onde houvesse reta e boa pista.

Eurípedes teve a vida interrompida aos 23 ou 24 anos de forma estúpida. Estava indo para casa, no mesmo Guará 1 onde morava, quando foi seguido e obrigado a parar por um carro da polícia. A "veraneio vascaína", cantada em prosa e verso pelo Aborto Elétrico, um grupo da capital que fazia grande sucesso, era uma viatura temível. Os caras eram violentos, covardes até. Vivíamos, claro, a ditadura militar.

Eurípedes, por razões que jamais saberemos, não obedeceu a ordem de parar. Foi fuzilado pelas costas. A moto, a RD preta, linda, chocou contra um poste e ele teve fraturas multiplas. Naquele tempo ainda não era obrigatório o uso de capacete. O que, na verdade, não faria qualquer diferença. Mas o detalhe é para sugerir a você, leitor, como ficou seu rosto depois do acidente.

A moto de Eurípedes, espantosamente, sofreu uma avaria menor do que se poderia supor. Retrovisor, dano no mata-cachorro e um ou outro arranhão no tanque. Seu irmão, David, mandou a moto para a oficina e decidiu guardá-la para que representasse a memória do irmão e também da covardia policial. Detalhe: nenhuma irregularidade, droga portanto, fora encontrada junto ao corpo de Eurípedes. O que nos leva a supor que ele não atendeu ao apelo da polícia por medo ou porque resolvera estabelecer um "pega" com ela.

Dois anos depois, eu saía do colégio onde fazia aula de Práticas Industriais (era uma distinção os cursos paralelos oferecidos pelas escolas de Brasília). No caminho encontro um grande amigo com uma RD 350, preta, linda, idêntica a de Eurípedes. Fernando tentava empiná-la e estava cercado por colegas. Perguntei pela origem da moto e ele confirmou: "É ela, Fabinho. A de Eurípedes. A mãe dele tá querendo vender. Acho que vou comprar". Era, aquela notícia, a grande revelação do dia, quiçá da semana, do mês ou ano. A moto de um ídolo nosso, da juventude mais rebelde da capital, seria vendida para Fernando.

Fernando era um projeto claro e bem definido de um futuro Eurípedes. Astuto, amante da velocidade, bom desportista, carioca como eu (daí a termos grande afinidade) e também cheio de mulheres a seu redor.
Ele tentava empinar, persistentemente, com o apoio e a ovação dos amigos. Mas a moto era pesada demais para ele . Vez ou outra o motor apagava. O barulho, ensurdecedor, era como um entorpecente a estimular nossos hormônios. Mas o fato é que Fernando era ainda um menino que não tinha nem sequer feito 18 anos.

Fui para casa e no caminho espalhei a novidade para os amigos que encontrava (sempre tive, modestia a parte, tino para jornalista). Todos ficavam espantados e ao mesmo tempo orgulhosos com a notícia. Era algo como se Eurípides, de certa forma, voltasse a estar entre nós. A vida da moto era sua reencarnação na terra. E vê-la através de Fernando era como vê-lo ainda mais moço iniciando seus ron-ron-rons pela capital.
Cheguei em casa, tomei banho e me preparava para sair ao encontro do vôlei de toda tarde quando um amigo bate à minha porta.

- Cara, Fernando morreu. Há uma hora. Ele estava empinando a moto e bateu no poste de ferro. O lustre caiu na cabeça dele. Afundou seu cranio. Morte na hora. Na frente de todos. Tá o maior bafafá.

O poste em questão era um com seus sete metros de altura em forma de interrogação que ocupava as ruas internas das quadras e conjuntos do Guará. E o lustre era uma peça de vidro grosso, temperado, que deveria ter lá seus três ou quatro quilos.

Fui para lá. O corpo de Fernando já havia sido levado para o hospital. Muita gente na rua, muitos amigos, ar de estupefação geral. Mas nada mais se poderia fazer.

Não sei o fim que foi dado à moto de Eurípedes. Sei que ela, que já era chamada de assassina por causa da velocidade de seu motor, levava agora sobre ela duas grandes referências da nossa juventude. Passados dois ou três meses a mãe do principal motociclista de Brasília decidiu mudar. Ficou na nossa memória a mobilização que a morte de Eurípides provocou: milhares de motociclistas de Brasilia e Goiânia circularam pela capital com faixas e bandeiras pretas num protesto silencioso contra a violência policial e a impunidade. O movimento, claro, foi dispersado com tiros, pancadaria e perseguição.

A casa de Eurípedes ficou abandonada. Sua história também. Acho que pelo menos até hoje.

A família de Fernando morava em um prédio pequeno na Quadra I. Perdi contato tendo em vista que ele era o único jovem da família.

Fato é que depois das duas mortes eu criei uma rejeição particular por motocicleta. Não só por aquela ou por qualquer outra RD 350, mas motocicleta em geral. Gosto das Bikes.

Houve quem atribuísse o acidente com Fernando ao apego pela moto que Eurípedes ainda tinha, mesmo depois de morto. Houve quem apostasse que a maldição estava naquela moto e não em qualquer RD. Esta era a defesa dos apaixonados pelo motor Yamaha. Mas aí cabe a quem ler chegar a sua própria conclusão. Detalhe: Eurípedes não chegou a conhecer Fernando em vida.

História assombrada enviada por Fábio Lau

* Minha História Assombrada trás para você relatos assustadores vividos por usuário do site AssombradO.com.br e Sobrenatural.Org - Veja com estes relatos que o mundo sobrenatural está a nossa volta e pode acontecer algo estranho com qualquer um! Tem algum caso e deseja que ele seja publicado? Clique aqui. Toda quarta-feira as histórias aprovadas são publicadas!

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