26 de fevereiro de 2013

Entrevista com José Mojica Marins: "Eu não sou o Zé do Caixão"

Entrevista com José Mojica Marins, dia 09/03/2012 – Largo do Arouche/Santa Cecília
Entrevistadores: Adriano C. Tardoque e Mario Mancuso
Local: Bar vizinho do prédio onde mora.
Horário: 15h (ele desceu 15h22).

Ótimos como fãs, mas como entrevistadores...

Na manhã do dia 9 de março de 2012, logo ao acordar, me parecia surreal o convite que me havia sido feito semanas antes pelo amigo Mario Mancuso: entrevistar ninguém mais, ninguém menos que José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Aquele era o dia! A ansiedade me consumia desde a intimação para esta empreitada, sobretudo por se tratar de uma lendária figura não só do cinema nacional, mas do imaginário de algumas gerações. Se por um lado, não sentia mais o medo dos tempos de criança, por outro o reconhecimento da importância deste que é um ícone da produção artística brasileira, ainda que renegado por muitos.

Tudo certo, hora de sair. Nos encontramos no metrô e seguimos caminhando para a região central de São Paulo, especificamente entre o Largo do Arouche e Santa Cecília. No caminho fizemos um mapa de memórias pessoais com a figura do Zé do Caixão, buscando uma tônica para a entrevista. Chegamos na portaria de um edifício muito simples, cujo interfone foi prontamente acionado pelo Mancuso. Momentos de certa tensão e a voz feminina do outro lado pergunta se estava marcado, pois nada constava sobre o encontro. Após alguns minutos, a voz voltou a nos chamar e disse que o Senhor Mojica, desceria para nosso papo.

Passados quinze minutos, eis que a porta se abre e ele aparece: camisa rosada e calça escura, com sapatos lustrados, nos cumprimenta e sugere o bar, bem ao lado, como ambiente tranquilo para o bate papo. Solicitada uma cerveja para nós e uma caipirinha para o Seu Mojica, estávamos prontos para a sabatina. Foi então que descobrimos que tecnicamente, estávamos nus: a filmadora trazida pelo Mancuso decidiu não funcionar e seu celular estava quase descarregado. Para ajudar, meu celular também apresentava pouca bateria e péssimo sistema de gravação de áudio. Reféns destes aparatos, nos sobrou a dupla de boas e velhas caderneta e caneta. A entrevista ocorreu de forma espontânea, sem metodologias ou firulas. Nas linhas que se seguem, estão os relatos deste encontro.


CINEMA
"A primeira escola de cinema (no Brasil), 
não adianta os caras falarem, 
foi nos anos 50!"
O cinema entrou na vida do Seu Mojica, ainda criança, como forma de passar o tempo. Já assistia a filmes norte-americanos por conta da profissão do pai, que administrava uma sala de exibições, na Vila Anastácio, em São Paulo. Ganhara de presente uma filmadora de 16mm e começava sua aventura:

“Eu andava de bicicleta, com uma filmadora 16mm, filmando pelo bairro (…) tirava vantagem disso com as meninas”.

Mojica reivindica o pioneirismo do cinemascope no Brasil:

“A primeira escola de cinema (no Brasil), não adianta os caras falarem, foi nos anos 50! (…) Eu fiz o primeiro filme em cinemascope[1] do cinema brasileiro, em 1958 (A sina do aventureiro)”.

Sobre o uso da tecnologia no cinema:

“Com quatro ou cinco pessoas eu fazia um filme (…) Me perguntaram uma vez do que eu precisava e eu disse que era aquilo do que eu tinha antes: uma câmera, um tripé, alguém pra filmar. Uma vez Gláuber e Bressane vieram me ver filmar. O Gláuber saiu rindo, quando perguntou o que eu ia fazer dentro de uma caixa d’água e eu respondi: um rio. Ele achou aquilo um negócio de criança (…) Ai no festival no Rio (de Janeiro), ele foi assistir, levantou e gritou: Gênio! (…) Gláuber disse “esse faz um cinema criativo. O resto é um tentando copiar o outro. Ele faz o que vem na cabeça, um cinema criativo (… ) é o único cara que eu vejo que acompanha o laboratório, vendo a imagem sair, se a película é  mais clara ou escura (…) Ele sabe muito mais do que nós já sabemos (…) Estive agora na Holanda para palestras. O apresentador disse que estava diante de um dos maiores gênios que o cinema brasileiro já teve, mas só que ninguém sabe (…) Por que aqui, nós temos meia-dúzia de caras que, realmente, estão com o lado errado dos jornalistas que não veem o trabalho de quem está fazendo, e vivem somente para aquela meia-dúzia de filhinhos-de-papai”.

Sobre propostas para montar escolas de cinema que levassem a sua marca criativa:

“Muita gente grande, que já morreram (…) até o Szangerla, que estava lutando para montar um negócio que iria explodir aqui, em São Paulo e no Brasil. Ele era um grande cara, um verdadeiro cineasta (…) um cara criativo (…) Eu sei que cheguei a montar no passado umas quatro escolas. Mas todas elas eram fechadas e depois eu fui levantar o por que, e acabei vendo que tinha gente da polícia federal por trás disso.”

Questionado sobre a linha estética que seguia em seus filmes:

“Conheço as formas de trabalho (expressionismo alemão, neorealismo italiano), mas penso sempre que se ninguém fez, alguém tem que fazer. Faço do jeito que acho melhor”.

Tempos de Ditadura Militar
Mojica lembrou dos tempos da Ditadura Militar, em que ocorria grande repressão ao trabalho criativo. Viveu momentos distintos no processo, tendo escolas de cinema fechadas e sendo monitorado e até admirado pelos agentes do órgão. Sobre o personagem Zé do Caixão, no período:

“Eles usavam o Zé como desculpa para poder brecar o movimento. Eu não fiz só fita de terror; eu fiz bang-bang,  fiz comédia, drama. Ai eles tentavam barrar nossos filmes. E eu fiz de uma maneira que eles não conseguiam. 'Não dá para acompanhar este homem, não sabemos o que vai acontecer' diziam sobre nós” 

"(…) Tentei fazer uma fita evangélica, com três personagens, com um homem pelado saído do mar, e tal. O problema não era só com filme de terror.”

"Eu conhecia o pessoal do esquadrão da morte. Eles assistiam meus filmes a noite e saiam para pegar o pessoal da fábrica, punham no camburão, por que estavam sem documentos. As pessoas sem documentos (…) Eu tive a sorte de conhecer a filha de um general, que gostava de mim (…) e joguei toda aquela conversa, sabe como é... (risos) (…) Era uma época em que não podiam andar duas pessoas juntas na rua.”

Sobre o que causa terror nas pessoas
“O que causa o terror nas pessoas nem é o medo de morrer. Eu falei sobre isso em uma entrevista. É o medo de você provar coisas estranhas, que existe realmente um outro mundo, além do que todo mundo vê (…) O terror se instala quando estamos sozinhos”

Sobre o personagem Zé do Caixão:

“É o personagem que cresceu, mas eu tinha outras histórias que não tinham nada a ver com o Zé do Caixão, mas... (…) Eu queria ser conhecido como um autor, mesmo. Mas ele era mais forte do que o próprio criador (…) Pode-se dizer que a criação assumiu seu criador”.

Sexualidade e terror:

“Olha, fazer uma fita do gênero místico, épico mundial, tem que por a mulher e tem que mostrar alguma coisa íntima dela (…) Eu acho uma estratégia autoral e comercial ao mesmo tempo (…) Era o que mais o povo comentava, falava daquilo, realmente fantástico (…) Eu faço o que me dá na mente.”

Quem tem medo do Zé do Caixão?

“As atrizes tinham medo de filmar comigo. Um rapaz borrou as calças só pelo fato de pedir para ele descer e conversar comigo. Eu dava medo em algumas pessoas.”

Terror no Brasil
Eu queria ser conhecido como um autor mesmo. Mas ele
(Zé do Caixão) era mais forte do que o próprio criador
(…) Pode-se dizer que a criação assumiu seu criador”.
“Já procurei uma porrada de caras no Brasil inteiro. Não achei (…) É o fim da picada: morre um Da Vinci e não nasce outro!”

Sobre a cultura no Brasil:

“Acho o Brasil atrasado pela política do passado, egoísta e violenta, brecando todos na imprensa. Glauber e Bressane diziam isso (…) O Glauber ainda fez mais amizade com a imprensa, pois queria ganhá-la. O Rogério (Szanzerla) não a usou."

Religião
“Fui registrado como católico. Hoje só frequento missa do sétimo dia. Não sigo nada (…) Uma vez fui conhecer uma seita em Santa Catarina. Sacrificaram um porco mas parecia uma criança. Os gritos e o barulho confundiam”

Foi neste momento em que fez uma revelação incrível:

“Um bispo de uma famosa igreja me ofereceu emprego garantido. Eu tinha que tirar a cartola e fazer as unhas. Iria ganhar 5 mil reais por mês para falar, no ar, que me converti!”

Ciência
José Mojica e Adriano Tardoque
“Começou a acelerar há pouco tempo (…) O grande problema do maior cientista do mundo é saber por que é que ele está aqui. Ele não sabe. Se está livre, se está velho, se vai morrer atropelado”.

Dois episódios interessantes
Mojica lamentou-se sobre a recente perda do anel que pertenceu a Boris Karloff, presente que lhe foi dado pela filha do ator, num evento em que participou fora do Brasil. Contou também sobre um episódio em que um portal da internet o levou para assistir ao filme Crepúsculo, cujo comentário se resumiu em: “Foi gozação comigo”.

______________________
- Conhecer e passar quatro horas com José Mojica Marins, o Zé do Caixão, é uma experiência única. Ele é uma pessoa comum, um senhor já idoso, que gosta de tomar uma cervejinha, comer um tira-gosto, porém não conseguimos nos desvencilhar de estar frente a frente com uma lenda do cinema e da arte em geral brasileira. Passar isso para o papel é uma tarefa ingrata pois algumas linhas não dão conta da magnitude da pessoa e da sua obra. Agradecimentos carinhosos e especiais a Liz Vamp, que tornou possível este encontro.
Equipe Contos do Absurdo

Obras do diretor:
1945 - A Mágica do Mágico
1946 - Beijos a Granel
1947 - Sonhos de Vagabundo
1948 - A Voz do Coveiro
1955 - Sentença de Deus (inacabado)
1958 - A Sina do Aventureiro
1962 - Meu Destino em Tuas Mãos
1963 - À Meia-Noite Levarei Sua Alma
1965 - O Diabo de Vila Velha
1966 - Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver
1967 - O Estranho Mundo de Zé do Caixão
1968 - Trilogia do Terror
1969 - O Despertar da Besta
1971 - Finis Hominis
1972 - Dgajão Mata para Vingar
1972 - Quando os Deuses Adormecem
1972 - Sexo e Sangue na Trilha do Tesouro
1974 - A Virgem e o Machão
1974 - Exorcismo Negro
1975 - O Fracasso de Um Homem nas Duas Noites de Núpcias


[1]  Tecnologia que permitia o uso de lentes anamórficas que comprimem as imagens verticalmente no decorrer da filmagem, sendo depois descomprimidas na mesma proporção quando projetadas sobre a tela de cinema.



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